sábado, 31 de janeiro de 2015

Crítica - Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)


Por Luis Ribeiro

Na primeira cena do filme vemos o protagonista suspenso no ar sem nenhuma explicação prévia e no decorrer do longa sua habilidade de movimentar objetos com a mente representa uma enorme arrogância e presunção por para dele mesmo, pois ele é um ator, mas não um simples ator, ele é uma “celebridade” – ou quer ser – e como tal precisa agir como uma, ou seja, tendo em mente de que não faz parte do mundo onde existem pessoas mais modestas e com objetivos diferentes e que neste mundo ele não é visto como uma deus, apesar de achar isso.

Riggan Thomson (Michael Keaton) já foi um ator muito famoso ao interpretar seu personagem ícone, Birdman, o super-herói que todos lembram, mas que depois de 22 anos as pessoas esqueceram-se de quem o interpreta. Portanto ele decide migrar para o teatro – porque o teatro é mais “artístico” – adaptando, dirigindo e estrelando o livro “What We Talk About When We Talk About Love”, de Raymond Carver. Mas poucos dias antes da estreia o artista vê que seus trabalhos fracassaram, não só como profissional, pois o elenco está horrível e os atores não estão em seus melhores dias, mas também como pai, ao não conseguir ter um bom relacionamento com a filha e com a ex-mulher, além de notícias de seu novo relacionamento.

Acima de tudo, Birdman, é uma obra de trajetos e de verdades, pode-se ver isso na sua forma de filmagem e escalação de elenco, trata-se de um projeto ambicioso, simpático e lastimavelmente verídico de frustrações perante a vida daqueles que decidem seguir carreira com a tão glamorosa vida de ator. Porém no filme vê-se que dar a vida aos palcos, ou às telas, não é tão feliz assim como todos pensam. É fácil nos enganarmos com os sorrisos estonteantes nas noites de estreias que o elenco apresenta e cobiçar a vida de um deles, já que parece tudo perfeito. “A popularidade é a prima promíscua do prestígio” diz um dos personagens, não muito longe do início da projeção, e essa frase simbólica é o que constitui o caráter de Riggan Thomson em sua nova tarefa.

Em meio a um desastre iminente e uma possível falência se tudo der errado temos em mãos não apenas um mundo ficcional, mas que reflete a quem interpreta. Já que 22 anos depois de um filme de super-herói e sem conseguir nenhum papel relevante depois disso, Michael Keaton (faz quantos anos que viveu o Batman pela última vez? Uns 22 anos?) tem a chance de se interpretar, mas de maneira muito mais surreal, óbvio. Ao mesmo tempo e contrastando com sua figura surge um Mike Shiner que é quase impossível de se trabalhar, mas que a qualidade de seu desempenho não pode ser negada (alguma semelhança com Edward Norton será coincidência?) e lógico, para finalizar, tem-se os filhos dos astros que sofrem com a fama de seu país e que se culpam de alguma forma por isso, portanto é de se estranhar que Sam tenha sido vivida por Emma Stone e não por Lindsay Lohan, por exemplo.

Temos aqui um estudo de personagem nada simples e muito simpático de realidades contemporâneas. O ator em decadência que não quer perder a fama, o astro que se venera por ser talentoso, a atriz iniciante que entra em colapso por medo de fracassar, o agente que se concentra em qualquer coisa – doa a quem doer – para poder lucrar com disso.

Escrito a oito mãos (Nicolás Giacobone, Alexander Dinelaris, Armando Bo) além do diretor e produtor Alejandro González Iñárritu é possível ver que todos compartilharam de ideias e tiveram um pensamento conciso ao entregar uma obra com um tom tão curioso e realizado de forma tão incomum. Iñárritu, mexicano por nascença, largou sua terra natal para se aventurar nos meios de Hollywood e de lá para ofereceu obras como 21 Gramas, Babel e Biutiful. E pela primeira vez ele ousa em uma comédia sutil e, certamente, pessoal das dificuldades que cercam a arte do entretenimento e as consequências que traz. O diretor tem sua fama merecida e sua competência reconhecida ao provar que é capaz ter uma visão ampla e que foge de padrões caricatos de retratos críticos. Nota-se isso no roteiro e nos próprios diálogos, pois numa conversa com uma crítica de teatro (vivida por Lindsay Duncan) ele explora, por meio do protagonista, a superficialidade dos críticos de arte dizendo que “pessoas que não conseguem ser artistas viram críticos”, um frase perigosa, mas que por si só representa e uma verdade crua dentre os analisadores que muitas vezes frustrados pelas suas experiências encontram um conforto em falar mal do trabalho dos outros.

Iñárritu tem a melhor equipe para lhe ajudar em sua tarefa árdua de compor sua obra, o que mais se destaca é o diretor de fotografia Emmanuel Lubezki, dono de trabalhos exuberantes, como A Árvore da Vida, e ganhador do Oscar por Gravidade, retorna com uma composição poética de cenas e de filmagens que para os menos atentos podem parecer impossíveis, como é caso de a impressão de uma única sequência que não aparenta ter cortes, a filmagem na frente um espelho e os ciclos temporais. A câmera vaga pelos corredores e camarins dos artistas a fim de descobrir segredos sobre eles e se assemelha a olhos humanos, já que acompanha os rostos numa discussão e se contrai quando algo acontece, tudo para causar a impressão de um espetáculo teatral e não cinematográfico. Um trabalho primoroso e digno de aplausos. A trilha sonora é introduzida de forma a soar desconexa, é uma percussão de jazz em bateria que contrasta com as turbulências vividas por seu protagonista, tendo seus sentimentos personificados pouco antes da sequência final.

E Michael Keaton merece um parágrafo só para ele por ser a alma do projeto. Sua interpretação é tão correta que impressiona a forma com que interpreta um sujeito a beira de um ataque de nervos – que se mantém cauteloso – com a responsabilidade de conseguir fazer com que sua peça seja um sucesso, mesmo que isso custe pagar um salário enorme para um ator competente, embora este seja impossível de se conviver. Para isso ele abre mão da função de ser pai e não aparenta se sentir responsável pelas ações da filha. Tudo para que seu nome não fosse esquecido pelos fãs, nesta era onde temos a internet e as redes sociais que em menos de uma hora um erro ou uma frase mal dita pode custar sua carreira. Não é por acaso que as celebridades mais influentes não se posicionam contra assuntos mais polêmicos, não por cinismo, mas por garantir seu ganha-pão. E nisso vemos quanto Keaton se esforça para montar um personagem tão complexo e que é assombrado por um alguém que viveu há décadas e que ainda perturba sua mente como um ícone de seu verdadeiro talento, pois ele nasceu para ser famoso e não talentoso. Vê isso na visão de Thomson em saber voar e estar acima de todos os mortais da cidade que pagam para ver seu espetáculo; é como se o voar fosse sua liberdade enquanto artista e sua motivação para a profissão que insiste em manter. O melhor que Keaton pode oferecer.

No restante do elenco não há o que corrigir, mas sim o que destacar. Emma Stone e Naomi Watts vivem as damas do teatro. A primeira, filha do protagonista, sofreu com as drogas e agora é assistente do pai. É curioso ver Stone sem muito glamour e vivendo um personagem com um monólogo tão intenso e conflitado – demonstrando um caso lindo de uma atriz que começou do começo (com filmes fraquinhos) e que tem uma competência nata pelo que faz. As tatuagens e cabelos bagunçados ajudam a compor uma Sam difícil e problemática que tem seus sentimentos transpostos na pele de Stone. Watts tem uma performance vulnerável de um atriz com medo de não ter uma carreira satisfatório e que supostamente dorme com pessoas do ramo para assegurar seu trabalho em uma tentativa desesperada de ver seu sonho realizado. Norton contrasta com Stone em sentidos racionais, enquanto ela explora seus problemas de forma madura, ele é completamente arrogante e simula uma competência por meio de vários artifícios, apesar de a crítica o amar e admirar seus trabalhos nos palcos ele certamente é mal visto fora deles e com poucos fãs devido sua mania presunçosa de se denominar. E Zach Galifianakis é o canastrão agente que não vê problemas em explorar o pior das pessoas para conseguir a boa visibilidade para seus empregados. A mensagem que o elenco passa é: quanto custa ser amado como ator?

É no desfecho que o espectador experimenta a voracidade que existe na trama e no fantasma que ronda Thomson, pois ao tentar se livrar de sua vida anterior ele encerra um espetáculo com seu próprio sangue, algo que lhe custa a aparência normal para ser semelhante ao Birdman do passado, contudo é recompensado pela crítica de uma profissional que outrora já teve problemas com o ator. Ao contemplar tais realidades o homem sente-se livre em seu interior e com sua imagem, algo que é representado na expressão de um dos personagens.

Birdman é um filme irônico por escalar atores que fizeram participações em franquias medíocres de super-heróis (lembre que no elenco temos o Batman, o Hulk e Gwen Stacy) e tem o tom de uma comédia que serve para representar a imagem real para que quem está do lado de fora possa entender como as coisas funcionam. Excelente! Original! Criativo! São alguns dos adjetivos para descrever a experiência que é ver esta obra, digna de todos os prêmios que virá a ganhar.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Crítica - Foxcatcher – Uma História que Chocou o Mundo


Por Luis Ribeiro

Bennett Miller é um cineasta com uma carreira de poucos filmes, apenas 5 filmes (dois documentário e três ficções), mas isso não impediu que seus dois últimos longas tivessem tido seus protagonistas agraciados pelas indicações da Academia e seus próprios filmes também, já que Capote de 2005 e O Homem que Mudou o Jogo de 2012, foram mundialmente elogiados e arrecadaram prêmios em todo o globo, ambos traziam uma história verídica cujos personagens representavam a complexidade por trás de suas faces. Isso tudo acontece em Foxcatcher, filme que deu a primeira indicação ao Oscar para Miller em direção, mas que acabou por não estar entre os indicados a Melhor Filme. Nada mais justo.

Mark Schultz (Channing Tatum) e seu irmão mais velho, Dave Schultz (Mark Ruffalo), são dois medalhistas de ouro, mas que não possuem toda a glória que um dia tiveram por seus feitos. Foi em um destes dias decadentes que um assistente do milionário John du Pont (Steve Carell) entra em contato com o caçula e oferece a chance de que o mesmo entre para a equipe, Foxcatcher, e financiar todo o seu treinamento de luta olímpica para as próximas Olimpíadas. Tentando com as boas notícias Mark aceita e proposta e logo descobrirá a personalidade de du Pont e sobre suas maneiras de pensar.

Miller não é só um diretor que tem uma paixão por histórias reais, pois ele é muito seletivo quanto aos anais que irá adaptar. Se em Capote existe uma discussão de pena de morte, e O Homem que Mudou o Jogo tange sobre as táticas de raciocínio que se tornaram fundamentais para a composição de estatísticas do baseball, aqui temos a concreta fixação de um homem. Nota-se que o cineasta não quer somente contar o que aconteceu, almeja fazer com que os acontecimentos causem impacto e demonstrar a sua importância.

Sem o intuito de modificar o título original, a publicidade brasileira responsável pela elaboração dos nomes para o filme optou pelo subtítulo: Uma História que Chocou o Mundo. Um enorme equívoco por parte deles devido ao fato de nada na obra ter sido realmente marcante. Certamente, a frase se refere à passagem final da trama, que de fato é “chocante”, se levarmos em consideração o ritmo propositalmente lento da obra, mas ainda não vemos nenhuma história que tenha afetado gerações, porque é de duvidar o consentimento tudo isso por aqueles que não acompanham o esporte. 


A impressão que se tem é que fora feito uma introdução de duas horas para explicar um fato que acontece nos últimos cinco minutos de projeção. Isto é visto porque o filme não foca em nada além dos personagens inseridos. Em vários discursos, du Pont fala sobre trazer a esperança para a América e o papel de um treinador, algo que não soa coeso em momento algum, já que esses discursos são apenas colocados para representar a fama do ricaço e não como frases que construam sua personalidade (pois quem assistir o filme saberá que a função de técnico de du Pont é tratada de forma banal). O mesmo de se diz da família de Dave, este que antes tinha mil desculpas para não aceitar a proposta de financiamento, mas que de uma hora para outra decide se agregar à equipe. É esta falta de sutileza que gera a superficialidade do filme de Miller.

É bem verdade que o trunfo dos trabalhos de Bennett é o seu tato em escalar de dirigir atores. Em todos os seus filmes os protagonistas e coadjuvantes compuseram a essência da persona que interpretavam. Desta vez temos brilhantes trabalhos de corpo por parte dos atores, pois é sabido que representar atletas não é uma tarefa fácil e para isso tem-se a fantástica maquiagem de Bill Corso e Dennis Liddiard, que capricharam nas próteses e trazem alguma semelhança para certos atores. 


Carell, de fato, rouba a cena, não por sua caracterização, mas por transformar um personagem confuso em quase racional; ele sofre com a falta de apoio da mãe (uma pequena, porém necessária participação de Vanessa Redgrave) e da falta de amigos que o dinheiro lhe trouxe, mesmo sendo quase um idoso é um milionário ainda mimado que usa sua fortuna para conseguir comprar pessoas e não amigos, então por mais que seja esta figura tão temida ele é visto como um homem sofredor, com conflitos sobre a sexualidade e capacidades. É triste que desde o início, du Pont é representado com enorme tensão em cena e causa de imediato uma antipatia com o próprio, ou seja, o espectador apenas espera a cena em que tudo explodirá. Tatum investe mais no seu porte, o seu jeito de andar e seu rosto incrustado retratam e contrastam bem com as dores de Mark, suas próteses de cicatrizes e deformações faciais são sutis, mas eficientes. Ruffalo tem mais uma chance de exercer sua forma mimética dos personagens reais e mais uma vez fracassa, tal como seu rebolado e gestos forçados em The Normal Heart de 2014. E seu modo de andar e lutar ele tenta parecer natural, com sua postura e forçando os olhos, mas acaba por deixar ainda mais óbvio que trata-se de um interpretação que não faz a menor questão de ser sutil, afora isso ele faz o seu melhor para interpretar o personagem menos explorado da trama, trata-se de um homem que apenas conflita com o técnico durão e serve de cérebro e senso de responsabilidade para seu irmão.

É preciso dizer sobre a composição da cena de Miller, que diga-se de passagem, vem a ser brilhante, em especial para Channing Tatum. “Macaco Ingrato”, diz em certa passagem, du Pont para se referir ao atleta, esta frase não só tem um força pejorativa, mas mostra a ingenuidade do garoto em ser tão impulsivo e leviano para com os compromissos que assumiu e as consequências que estão trazendo. Perceba que em várias cenas, Tatum, realmente se comporta como um primata: ao estar seminu e agachado em frente ao homem que o alimenta, acrobacias durante o treino e suas expressões que se assemelham ao animal. Além disso, se vê a direção de arte de Jess Gonchor contribui ainda mais para causar esta impressão, com o teto baixo da ala de treinamento e demonstrando a paixão do técnico por pássaros nas cenas onde decoração é composta por aves empalhadas ou os papéis de parede lembram os animais. Até mesmo a John, que pede para ser chamado de Águia, tem uma postura e aparência que se assemelha a ela (numa tentativa ridícula de modificar a aparência para forçar essa caracterização de uma pessoa que, na realidade, não possuía estes traços).

A fotografia de Greig Fraser não só é magistral nos enquadramentos, mas também no processo de cor do filme, tons de cinza reinam e ainda dão destaque do azul e vermelho (cores da América) nos uniformes dos lutadores. O roteiro de Dan Futterman consegue convencer, mas é prejudicado pelas falhas da construção dos personagens centrais e na artificialidade com que os fatos ocorrem.

Vencedor do prêmio de Melhor Realizador no Festival de Cannes (mostrando mais uma vez que o júri americanizado, por vezes, não sabe escolher bem os vencedores), Bennett Miller entrega uma obra eficiente, mas que não teve o mesmo tato na elaboração como teve em seus trabalhos anteriores. Por mais que tenha seus méritos, Foxcatcher – Uma História que Chocou o Mundo sofre com a imensa quantidade de equívocos e banalidades de uma trama interessante, mas que, mesmo depois do lançamento do filme, continuará sem chocar ninguém.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Crítica - Invencível


Por Luis Ribeiro

Invencível é o tipo de filme que parece ser primoroso e tem tudo para agradar o público e a crítica: uma história real emocionante, um trabalho de elenco que exige que este tenha modificações drásticas em seus corpos, um grande drama de guerra e comandado por uma das figuras mais queridas e admiradas por todos, a digníssima Angelina Jolie. Mas não se deixe enganar pelas imagens na tela e pelos olhos molhados que podem vir a surgir, já que tem-se um projeto que conseguirá enganar a muitos, insinuando de que trata-se filme bom, até porque ele mesmo acredita que seja.

Louis Zamperini (Jack O'Connell) é um prodígio nas corridas e tem a chance de disputar as Olimpíadas, mas é obrigado a comparecer nos combates da Segunda Guerra e em uma de suas expedições ele e sua equipe sofrem um grave acidente que faz com que fiquem a deriva no imenso oceano. Após várias semanas acabam sendo resgatados por um navio japonês e levados para Tóquio, onde permanecerão como prisioneiros por dois anos.

Devo admitir que em um momento ou dois do filme me peguei considerando que estava diante de uma obra memorável, mas logo percebia que tinha me precipitado ao considerar tão precocemente a qualidade do filme. Já de início não temos uma boa experiência, a cena primeira é isenta de emoção e rica em sinfonias melancólicas, ajudando na atmosfera de superficialidade da trama.

Existem sim pequenas passagens que merecem certo destaque por conta da projeção, pois as tomadas com planos abertos vistos cima; a cena onde o Sol que se põe está perfeitamente alinhado à bandeira do Japão (simbolizando a queda da nação na Guerra) e as poéticas imagens de aviões surgindo em meio às nuvens. Se tudo no filme fosse tão simbólico, como estes exemplos, teríamos, sem dúvidas, uma boa e emocionante obra de guerra. O problema central do projeto é seu incansável desejo de alcançar proporções alarmantes e tentar ser o mais notório possível, impulsionando seu protagonista. Há diversas histórias inseridas e em todas elas temos um nível de credulidade discutível; é inevitável sair da sala de cinema com a pergunta na cabeça “Foi assim mesmo que aconteceu?”.

Dentre tudo que foi contato, temos aqui um menino problemático e desmotivado (por seja lá qual for o motivo) que busca refúgio na bebida e nos furtos (é sério!), mas que descobre seu talento em ser um corredor. Junto de seu irmão ele consegue se transformar em um grande atleta, mas claro que precisará da ajuda de um insulto rotineiro para se lembrar do porquê está fazendo aquilo. Então teremos passagens que mais parecem uma combinação de Forrest Gump – O Contador de História com Carruagens de Fogo e a típica cena onde o protagonista está quase perdendo, mas no último minuto consegue vencer a disputa.

É no início do segundo ato que tudo começa a desandar e é também o menos crível, porque por mais a maquiagem tenha se preocupado com a pele queimada e com os lábios rachados, os cabelos e pelos faciais permanecem quase sem alteração por quase dois meses que foram passados pelos personagens em um bote salva-vidas, num episódio com direito a pesca e luta com tubarões e meia hora onde quase nada acontece, exceto as mudanças drásticas nos corpos dos atores.

O'Connell foi completamente esquecido na temporada de premiação, tudo bem que ele não entrega a melhor atuação do ano, mas poderia ter sido lembrado por sua dedicação em construir um personagem – por mais que falho – que mostra-se forte, benevolente e racional apesar de todo o contexto em que vive. Seu corpo demonstra uma imensa fadiga, mas seu rosto aparenta estar sempre vívido (mais um erro na caracterização). Domhnall Gleeson, Finn Wittrock e Garrett Hedlund cumprem bem seus pais de apoio, em especial a este último que mostra uma expressão calculista e preocupada com os destinos de seus aliados e da própria guerra. Entretanto, chega a ser patética a escalação do astro pop japonês, Miyavi, que não possui uma única cena onde não prove que sua participação é desastrosa, não conseguindo desenvolver seu personagem aos âmbitos que ele representa (o que foi cena de Watanabe quase se emocionando com a conquista de Zamperini? Em uma citação óbvia a Jesus Cristo carregando sua cruz).

O terceiro ato é recheado fartamente com práticas de crueldade para com o atleta, porque, para o filme, quanto maior for o sofrimento do protagonista, maior vai ser a emoção ao vê-lo superando tudo isso e é por este motivo que o roteiro trata Louis com imensa devoção – quase endeusando-o –, para lembrarmos o quão forte foi este homem perante as torturas que sofreu.

Jolie, portanto, ainda se mostra crua e inexperiente da direção (prova disso é o seu filme de estreia, o fraco Na Terra de Amor e Ódio), já que ela aposta nos maiores clichês que o gênero já viu e nas maneiras mais fáceis de dirigir um longa. Frases motivação aos atletas, aos companheiros que quase estão se entregando à morte e palavras de afetos aos torturados são o que não faltam na história, seguido da típica foto da família e/ou namorada lhes esperando em casa.

Angelina é uma mulher muito determinada e consagrada no mundo, ela ocupa seu tempo com vários trabalhos humanitários e se tornou um símbolo da força feminina ao retirar seus seios para se prevenir de um câncer. É natural que ela tenha, então, um apreço pelo universo de superação e de histórias sofridas com finais felizes, mas é bem verdade que ela ainda não tem noções básicas de se dirigir um filme, por mais que sua equipe técnica seja quase impecável.

Porque, se a Academia ignorou uma história de superação e um ator que perdeu muito peso, ela compensou na indicação nas categorias de som do Oscar, com o engenheiro David Lee sendo indicado. Apesar de nada superar a lindíssima fotografia de Roger Deakins – também nomeada –, que não se deixa abalar pela onipresente, e pouca inspirada, composição de Alexandre Desplat.

Tenhamos consciência de que um filme não é nada sem seu roteiro, e quem assume a culpa são (acredite se quiser) Joel e Ethan Coen (dos primorosos Fargo, Bravura Indômita e Onde os Fracos não têm Vez), acompanhados de William Nicholson (Gladiador) e do nem tão competente Richard LaGravenese (Dezesseis Luas e Água Para Elefantes). Todos entregam uma obra duvidosa e apelativa, não só pelos momentos exagerados em busca da pena da plateia, mas também pelos diálogos bregas que conseguiram escrever.

Invencível é um filme muito mais longo do que deveria e com pouco a oferecer, resta saber se os erros que Jolie cometeu neste trabalho poderão ser vistos nos seus inevitáveis próximos projetos ou se serão corrigidos. Busco sempre uma visão positiva do que está por vir.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Crítica - Ida


Por Luis Ribeiro

Um dos grandes favoritos ao Oscar 2015, na categoria de Melhor Filme de Língua Estrangeira e vencedor de vários prêmios da crítica americana, além de menções em Toronto e Reterdã atende pelo nome de Ida. Um filme independente que chamou atenção por onde passou por sua visão inusitada.

A noviça Ana (Agata Trzebuchowska) está perto de realizar seus votos para se tornar uma freira, porém antes que isso aconteça a Madre Superiora (Halina Skoczynska) pede para que a moça tenha um encontro com sua tia, Wanda (Agata Kulesza), a única parente viva. Ao visitar sua mulher a menina entra em contato com seu universo e tem a chance de descobrir mais sobre o que aconteceu com seus pais e até sobre suas origens, começando por saber que seu nome verdadeiro é Ida.

Não se trata de nenhum trabalho memorável aqui, mas obviamente ele não foi ovacionado a toa, pois há grandes méritos a serem apontados para Ida. Sua direção é por conta de Pawel Pawlikowski (de Estranha Obsessão e Meu Amor de Verão) que, sem dúvidas, é muito autoral em seus projetos e muito ambicioso também. Ele tem uma característica que muitos cineastas deveriam aderir: a habilidade de transpor a essência de seu filme para a tela. Pawlikowski não perde tempo algum para apresentar a história e também não a preenche com cenas vazias e personagem aleatório, fazendo com seus filmes tenham uma duração curta (com menos de uma hora e meia), isso não só mostra que suas histórias são muito específicas como também demonstra sua objetividade para com a trama.

Ida conta com uma estética lindíssima. A fotografia em preto e branco é primorosa e necessária, pois todo o cenário é ambientado após a Segunda Guerra Mundial, nesta onde a Polônia teve uma participação importantíssima, mas que também deixou fragmentos e cicatrizes para sempre naquelas terras. Com a Grande Guerra recém acabara as pessoas ainda estão por se acostumar com os acontecimentos recentes, e o aspecto monocromático faz com que tenhamos a certeza de que se trata de uma época de grandes sofrimentos, ou seja, a ausência de cores simboliza a inexistência de felicidades para aquelas pessoas.

Do mesmo modo, o diretor optou por filme em num formato que se assemelha muito a um quadrado (um, belíssimo, 1.33 : 1) fazendo com que o espaço na tela seja menor e faz com que pareça que seus personagens estão presos em uma situação claustrofóbica, sem espaço para fuga. Não se respeita também a regra dos terços das filmagens e fotografias. Ou seja, os personagem e objetos em foco ficam bem abaixo das linhas de proporção, fazendo parecer que os cenários parecem estar em maior âmbito e com a impressão de que as pessoas na trama estejam sustentando, em seus ombros, todo este espaço e peso que é contexto histórico em que vivem. Com tal técnica é natural que a mise en scène seja afetada; não raro é o caso de vários objetos e pessoas parecerem incompletos ou com um enquadramento que não o posicione corretamente, tudo para dar mais ênfase à mensagem de desconstrução da trama.

Mas por mais belo que seja esteticamente o filme ele peca no desenvolvimento de personagens. Apesar de ser uma boa Wanda a personagem de Kulesza tem um aproveitamento muito óbvio. Ela sofreu com a morte da família, com as desgraças que a Guerra lhe causou e busca consolo na bebida, na vida boêmia e nos comentários imaturos e irracionais, além de ter uma antipatia com a primeira visita da sobrinha e sua ousadia de, apesar de tudo, ainda ser devota a Deus. Já Trzebuchowska, que em meio a tantas descobertas importantes e tantos conflitos internos de Ida, não consegue esboçar a menor marca de expressão, exceto em um jantar com suas irmãs, onde não segura um pequeno riso no convento tão rigoroso que poderia representar a postura que outrora ocupou o país.

E pouco impressiona o tato que o diretor tem com os debates religiosos, mostrando uma aspirante a freira ser seduzida por um músico angelical (e como que enfeitiçada desce as escadas que a levariam direto ao pecado e consequentemente ao inferno). Ou mesmo o desfecho pouco convincente das dúvidas que a noviça teria perante sua fé, mas que logo são sanados e jamais convencem o espectador sobre uma rápida e discutível epifania que se apresenta no terceiro ato da história, que tangia sobre o comentário de sua tia: Como chamar de sacrifício se elas não conhecem o prazer do pecado? Demonstrando uma total falta de conhecimento sobre a mentalidade das pessoas que entregam suas vidas a devoção, pois dá a entender que as freiras abrirão mão apenas dos relacionamentos carnais.

Ida tem uma boa estética, um ritmo contínuo e uma boa história, mas ainda sofre com a falta de moralidade e imparcialidade de um roteiro que não consegue saber de qual lado está. Porém, nota-se seu potencial e sua ambição em contar uma trama que tem seus momentos de aplausos e com um bom drama dos sobreviventes do maior conflito armado do mundo e as cicatrizes que este deixou para todos os envolvidos.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Crítica - Whiplash - Em Busca da Perfeição


Por Luis Ribeiro

Para aqueles que estão à procura de um bom filme sobre música ou mesmo sobre jazz (devido ao nome do filme) posso aconselhar outros títulos, mas Whiplash jamais será um deles. Isto porque não se trata de uma obra sobre a música e sim sobre a genialidade que está por trás de cada músico competente. Temos aqui uma experiência que fará o espectador presenciar a dedicação de certas pessoas em seu trajeto de ter seu nome lembrado através de gerações.

Andrew Neyman (Miles Teller) é um baterista prodígio que conseguiu ingressar no maior centro acadêmico de música dos Estados Unidos. Desde cedo ele treina incessantemente para ser um músico famoso e genial. Seu trabalho foi intenso que chamou a atenção de um dos maiores mestres da cidade, Terence Fletcher (J.K. Simmons), que usa métodos pouco flexíveis para treinar seus jovens componentes da banda que rege.

De início pode-se ver a ambição do projeto. O novíssimo, de 29 anos, diretor Damien Chazelle (que escreveu O Último Exorcismo: Parte II e Toque de Mestre, de 2013 e 2014 respectivamente) tem olhar de gente grande. Como cineasta técnico ele é promissor ao fazer com que a câmera dance e acompanhe o ritmo das músicas. A câmera é estática até que a música comece, quando isso acontece cortes rápidos e movimentos eletrizantes tomam conta da tela (algo que não seria possível se não fosse o igualmente correto Tom Cross, na montagem). Da mesma maneira ele enche o filme em planos detalhe de vários elementos, como: olhos, orelhas, instrumentos musicais, boca, etc. Nesta forma o diretor está chamando a atenção de quem está assistindo, de forma nada sutil, para que preste atenção aos pormenores, sendo uma lição valiosa para o protagonista.

Neyman tem um talento nato, isso é indiscutível, mas é um aluno presunçoso, egocêntrico e facilmente emocionável. Nota-se que o personagem é complexado por aquilo que o cerca, pois seu pai (interpretado por Paul Reiser) é um professor que gostaria de ter sido escrito, e Andrew não quer que tais frustrações sejam repetidas com ele. A ambição do protagonista é emocionante, ele não almeja apenas ser bom ou certo, ele deseja ser memorável e fazer com que toda a sua vida tenha sido utilizada para algo grandioso. O rapaz vê essa chance ao ter contato com Terence. Fletcher pode não ser o professor exemplar e passar a mão na cabeça dos que erram, mas é um homem que presa pela perfeição e pela genialidade de seus alunos. Suas frases “motivacionais” se baseiam a insultar os alunos com frases homofóbicas, racistas, imorais e preconceituosas e é através delas que faz com que eles cresçam em suas performances.

Neste ponto de aluno e professor é que o filme acerta também. Perceba que os métodos que o regente usa em suas aulas são vistos como exageros, mas é a maior das mentiras dizer que seus alunos não melhoraram. Trata-se e uma mensagem aos sistemas de estudos “modernos” que dizem que os alunos devem ser os pesquisadores e os professores são apenas os “auxiliadores”.

Chamar um profissional da educação de auxiliador, ou mediador é tão ridículo quanto achar que um aluno terá um bom desempenho naquilo que não lhe interessa ou que considera trivial. Cabe ao professor identificar o potencial e determinação de um estudante, exigir o melhor deste, fazendo-os com que se tornem maduros e talentosos. Assim como cabe aos alunos fazerem por merecer (como é dito no filme) em suas incumbências, do contrário serão facilmente substituídos. É um trabalho árduo de ambos os lados e que lastimavelmente a sociedade insiste em fazer errado.

Óbvio que os métodos de Fletcher são exagerados e incorretos, pois é possível ser bem rigoroso sem usar tais sentenças para desmoralizar deliberadamente um aluno. Entretanto, o filme humaniza a figura do mestre; ele se emociona ao ouvir uma bela sinfonia de um de seus ex-alunos que era constantemente desmotivado por seus professores, ou tratar com carinho uma criança filha de um amigo. E por isso o favorito na temporada de premiações, J.K. Simmons, entra batendo as portas e gritando para quem quiser ouvir. O ator entrega um desempenho formidável dando vida a um personagem tão difícil e carrasca, mas que leva consigo uma pensamento extremamente erudito. “Não há duas palavras mais danosas do que “bom trabalho””, diz o personagem num diálogo onde ele esclarece que ninguém pode ser um gênio se nos pequenos erros ninguém chamar atenção, dando um exemplo estupendo de que Charles Parker só se tornou um grande músico depois que lhe atiram um prato que quase o decapitou. Depois desta cena eu poderia ter dado como encerrado a projeção de tão perfeitas e impactantes que são as palavras ditas nesta sequência.

Mas Chazelle (que também escreve o roteiro) quis mais. Criando uma sintonia entre os personagens que é excepcional, ambos parecem se odiar e se gostarem ao mesmo tempo, numa química e tensão equilibrada e perfeitamente encaixada.

Teller está crescendo e se mostrando um ator de grande categoria, apesar de perder tempo com filmes medíocres (como Divergente, Finalmente 18 e Namoro ou Liberdade), o novo Senhor Fantástico tem pela frente uma carreira que só lhe trarão elogios se fizer as escolhas certas, já que vemos ele como um baterista que deixa suas mãos sangrarem, porém se recusa a interromper seu exercício sabendo que a dor lhe trará recompensas. Junto com ele temos a presença Melissa Benoist (da série Glee), como namorada, que é uma das únicas imperfeições da trama. A personagem é usada para representar as perdas e tudo àquilo que um gênio precisa abrir mão para ter sucesso, portanto todas as cenas que envolvem o relacionamento de ambos surgem superficiais e quase descartáveis.

E temos que parabenizar a obra pelo seu encerramento, o fim do terceiro ato é agonizante e recompensador. Neste, tem-se a melhor relação entre o mestre e o pupilo; ambos conseguem finalmente se comunicar por meio daquilo que melhor sabem fazer. É de encher os ouvidos, os olhos e ainda sair da sala de cinema com um sorriso no rosto e com ânimos revigorados.

Em muito Whiplash me fez lembrar o formidável Cisne Negro (2010) de Darren Aronofsky, pois os dois mostram o sangue dado pela arte (seja ela dança ou música), testam os limites de seus protagonistas e usam profissionais para exigir a perfeição. A diferença é que os dois filmes trazem mensagens diferentes, já que Aronofsky sempre explora os limites em seus filmes e na maioria deles o resultado disto não é agradável. Aqui temos uma visão mais contemporânea, uma vez que os músicos sofrem muito com a falta de amparo dos próprios familiares, nunca o apoiando ou fazendo pouco caso de suas carreiras.

Forte candidato na temporada de premiações e vencedor do Festival de Sundence, Whiplash – Em Busca da Perfeição é um drama motivacional que vale ouro, merecedor de todos os prêmios e elogios que vier a receber. Desde já um dos melhores de 2015.

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Crítica - Boyhood – Da Infância à Juventude


Por Luis Ribeiro

O filme mais comentado do ano é Boyhood (cujo nome brasileiro fez questão de ser redundante), dirigido pelo excepcional cineasta Richard Linklater, responsável pela trilogia fantástica constituída por Antes do Amanhecer, Antes do Pôr-do-Sol e Antes da Meia-Noite, além do divertido Escola de Rock e do não tão divertido Bernie – Quase um Anjo. Mas o motivo desse novo projeto ter tido tanto espaço em divulgação no meio cinematográfico é o fato dele ter sido filmado no decorrer de 12 anos. Ou seja, durante este período o diretor reunia a equipe e filmava uma parte do filme por alguns dias todos os anos.

A questão é que muito tem se comentado sobre este ser o filme do ano devido a sua produção pouco comum e o imenso trabalho que exigiu. Mas se olharmos para trás nos deparamos com processos semelhantes como na série Up, contando a vida de sete crianças britânicas, iniciando a transmissão desde 1964; ou filmes de François Truffalt; e por que não a série de filme Harry Potter? Esta última que demorou uma década para ser concluída, com oito filmes, com o mesmo elenco, a mesma equipe, com a mesma produção, escrevendo oito roteiros. Portanto, devemos esquecer-nos deste pequeno detalhe e vermos o resultado como qualquer outro filme competente.

Durante toda a projeção acompanhamos a vida de uma família por mais de uma década. A mãe, Olívia (Patricia Arquette), tenta criar os dois filhos sozinha após se separar de seu marido, Mason Sr. (Ethan Hawke), que apesar das dificuldades faz de tudo para ser um pai presente. Ela sabe que para garantir um futuro melhor para Mason (Ellar Coltrane) e Samantha (Lorelei Linklater) precisa voltar a estudar e tocar suas vidas em diante. O material é indiscutível bom e uma dos melhores de Linklater, a duração de quase três horas é muito bem aproveitada com o crescimento do menino, durante suas fases de vida, acompanhando as tendências de um ano específico, relacionamento com seus familiares, amigos e seus problemas como criança a e adolescente.

Não há nada de inovador na trama, segue a vida de uma família com dificuldade e a luta que esta tem para resolver seus problemas. Não é pelo fato de a história ser modesta que ela não impressiona, pois explora um lado muito sensível da família. O relacionamento de pai e filho, as brigas de irmãos, a convivência com os meios-irmãos e padrasto. Tudo parece ser visto com os olhos de quem viveu tudo aquilo.

A construção dos personagens é lindíssima, é impressionante o esforço que a equipe executa para fazer com que todos em cena parecessem de fato uma família e que participassem de coisas cotidianas. Nota-se isso pelos grandes diálogos (especialidade do diretor), semelhantes aos que os pais têm com seus filhos; os relacionamentos amorosos e com os amigos. Uma vida sendo representada na tela jamais seria entediante.

O design de produção merece aplausos pelo capricho em manter uma atmosfera onde é quase perceptível saber a época em que o filme se passa. Logo várias tendências passageiras estão presentes (como as músicas de High School Musical e as filas de jovens para comprar o novo livro de Harry Potter). Além da presença familiar e cultural de uma determinada região americana (influência católica e de o esporte de caça no país); uma vez que as crianças ajudam o pai a propagar a imagem do candidato a presidência Barack Omaba – mostrando um lado dos Estados Unidos ainda racista em meado dos anos 2000 - e ouvirem com interesse a teoria de que foi a própria América que providenciou o ataque às Torres Gêmeas.

Além disso, o cineasta veterano ainda possui uma mão certa para o elenco. Coltrane e Linklater (filha de Richard) possuem muita química e um relacionamento bem latente de afeto (algo comum, já que se conheceram desde a infância) e de fato parecem irmãos, com suas birras infantis, mas que quando crescem se tornam adultos maduros e que querem apenas se ajudar. Arquette brilha no papel da jovem mãe preocupadíssima com os filhos e mais ainda com o futuro que pode dar a eles, ela explora um lado de matriarca independente com maestria, suas cenas de histeria e emoção (quando ela declara ao filho seu momentâneo estado depressivo de ter o papel cumprido como mãe e mulher, como é o caso de muitas chefes de família no mundo) são merecedores de todos os prêmios possíveis. Hawke surge meio apagado, mas nada que prejudique sua natural habilidade de ser um bom ator, ele aparece em momentos específicos do filme, representando a frequência que as crianças têm contato com o pai (ou seja, não muita); mesmo assim merecia mais espaço para não ser mal interpretado como “o pai dos fins de semanas”.

O que é realmente triste em toda a história é saber que aquele Ellar Coltrane criança e pré-adolescente já não existem mais, isso é uma experiência linda de envelhecimento natural do protagonista (quantos filmes podem ter tanta veracidade?). Ellar é um jovem prodígio, desde cedo mostrou uma competência nata em atuação e manteve esse nível pelos 12 anos. Os capítulos que seu personagem passa ao longo da história são incomuns para vários jovens – não para todos – e ele jamais esquece a complexidade de sua performance, manteve-se como um jovem discreto e tímido, mas nunca deprimido ou abalado por tudo que já passou, cresceu sabendo como a vida será.

Entretanto, ouso apontar os erros que de fato existem no filme e devem ser levados em consideração. Em nada corrijo a competência de Linklater em comandar seus filmes, mas escalar sua própria filha somente porque ela lhe pediu não é uma atitude muito favorável (vou relevar por ela ter se saído bem no papel). Os problemas mesmo estão com o desenrolar da trama, a sequência do filme envolvendo o padrasto bêbado é a mais problemática, além de ela ser muito rápida, estragando o envolvimento do espectador com os novos personagens. O padrasto embriagado, caricato demais com uma pose machista e covarde de querer mandar e bater nos membros da família, com a postura de um homem que bebe muito sem nenhum motivo aparente e se acha poderoso por isso. Sem dúvida é uma atitude estranha para um professor de Universidade tem tais hábitos e ainda – claro – de estar se relacionando com uma aluna. Os problemas não param por aí, esse homem tem filhos que são excluídos da história com uma imensa facilidade. Com esta atitude a personagem de Patricia soa irresponsável por não se preocupar com os enteados e indecisa sobre seus relacionamentos (pois coleciona uma quantidade absurda de maridos ao longo do filme, fato este que contribui muito pouco para o desenvolvimento do material). E por fim a montagem fragmenta várias etapas das vidas dos personagens. Alguns anos, aparentemente, se tornam mais importantes do que outros e vários episódios são tratados com imensa rapidez, tornando-os artificiais.

Babar por Boyhood não é algo que consiga entender, seus erros são óbvio e prejudicam o filme. Mas são bem evidentes também as qualidades do material. Trata-se de um filme emocionante, comovente, inteligente e sutil. É Linklater mais uma vez fazendo que sabe fazer de melhor: cinema.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Crítica - O Homem Duplicado


Por Luis Ribeiro

O Homem Duplicado é um filme tenso, complexo e ambicioso para as mentes mais apuradas, mas é sabido que sua abordagem pode afastar o público que certamente sairá da sala de cinema com inúmeras perguntas na cabeça e vários palavrões na ponta da língua. Porém isso se aplicaria apenas para a grande massa e não vem a ser uma coisa ruim. Interpretar filmes não é uma tarefa fácil e este em questão pode confundir ao mais apurado crítico cinema. Trata-se de uma obra com premissa de suspense, mas com fundamentação de racionalidade pura.

Adam Bell (Jake Gyllenhaal) leciona História em uma Universidade, levando uma vida pacata e monótona. Rua rotina se baseia em ir de casa para o trabalho e do trabalho para casa. Ocasionalmente ele se encontra com sua namorada, Mary (Mélanie Laurent), para terem relações sexuais. Um determinado evento leva a Adam a alugar um DVD de um filme, ao assistir a obra ele percebe e presença de um figurante chamado Anthony St. Claire (também Gyllenhaal) que tem exatamente o mesmo rosto que ele.

O contexto pode parecer corriqueiro e sem muitas novidades, mas são as resolução da trama que a tornam tão brilhante. Existe uma tensão imensa durante todo o filme que mergulha o espectador num pensamento aprofundado da mente conflituosa de um homem. Estes conflitos são apresentados de formas subjetivas ao público para que este tenha um livre entendimento do enredo.

Todo o filme é recheado de citações inteligentes que auxiliam na compreensão, não é por acaso que o projeto é aberto com a frase “Caos é a ordem ainda indecifrada”, pois ao final da projeção essa frase fará todo o sentido. Em seguida o protagonista nos trás uma menção ao comentário de Marx à Hegel sobre as repetições históricas: “a primeira vez, (repete-se) como tragédia; a segunda, como farsa”. Um assunto sobre as verdades da vida de Adam e sua relação com suas descobertas.

É a construção de ambos os personagens que é a alma do filme. Se Adam é um sujeito discreto, com um andar incômodo e de poucas palavras, Anthony é vaidoso, imoral e violento. Entretanto ambos levam vidas distintas. Adam é do tipo caseiro que daria um bom pai ele é visto em cena com Mary sempre na cama, durante ou depois do sexo. Enquanto que Anthony é quem espera um filho. E mais uma vez temos um fato que não é mero acaso, pois as personalidades distintas dos dois personagens é o segredo para a união destes. Adam tem medo do que descobriu e das consequências que aquilo pode tomar, tanto é que vive inquieto e esquizofrênico desde então. Já Anthony busca se aproveitar da situação que lhe foi apresentada, sem nenhum tipo de ética em seus atos.

O filme é repleto de cenários engrandecestes e um design de produção que fala por si só: o apartamento de Adam é escuríssimo e com poucas janelas mostrando a vontade do personagem em não ser notado. Repare o quão alto são os prédios da cidade silenciosa na qual o a trama se passa, acima destes edifícios encontra-se um céu coberto por inteiramente por nuvens e neblina representando, talvez, a própria mente dos protagonistas. Isto é, pensativa, calma e com uma ausência imensa de felicidade. Junte isso à fotografia amarelada de Nicolas Bolduc, mostrando um tom doente e saturado da vida dos homens.

A tensão presente em toda a trama é primorosa, muito disso é culpa da invasiva (no bom sentido) trilha de Daniel Bensi e Saunder Jurriaans, que nos apresentam acordes em instrumentos de cordas de doer os ouvidos, mas é uma dor necessária para o aprofundamento dos personagens. E pontualmente a cidade/mente receberá a visita das tão icônicas aranhas. E neste ponto, caro leitor, que mora a abundância de interpretações da trama. Em minha análise e de alguns textos que li a respeito, percebe-se uma ligação das aranhas com mulheres. Pois no início da projeção vemos mulheres se exibindo com símbolos sexuais à homens obtusos, na mesma sequência em que Gyllenhaal é o único que demonstra algum tipo de expressão, num momento que não sabemos se trata-se de Anthony ou de Adam e que é encerrado com a presença do aracnídeo. Em cenas que vemos um corpo nu de mulher, mas com a cabeça do animal. Ou a ligação do cartaz sexual do filme de 1958: O Ataque da Mulher de 15 Metros e a presença de uma aranha gigantesca andando silenciosamente pela cidade.

E aí está mais um prova da metáfora de cidade/mente do personagem, pois ele encara a criatura de oito pernas com um olhar acostumado, ou seja, é uma presença comum em seus pensamentos e por isso me atrevo a dizer que o aracnídeo pode representar o desejo carnal do protagonista, já que todas as aparições do animal têm relação com o corpo da mulher, exceto no momento em que ele a encara não como algo que lhe dará prazer, mas como a aquilo com quem estará junto naquele momento em diante.

E sobram símbolos em cena para representar a onipresença do aracnídeo, como o vidro quebrado de um carro, o olhar negro de um capacete e os cavaletes com várias pernas em um atelier. Mas nem tudo está explicado e cabe a cada um saber o que está assistindo. Por que aranhas? Será porque são predadoras e em muitas espécies as fêmeas alimentam-se dos machos? Se for, por que associar as mulheres a algo tão repugnante? São perguntas que o diretor Denis Villeneuve planta nas cabeças de quem assiste.

Villeneuve consegue fazer com que o espectador tenha suas dúvidas a respeito de Anthony e Adam serem ou não a mesma pessoa, e no decorrer de toda a trama é possível ter a resposta, mas ainda deixando um pulguinha atrás da orelha. Ele comanda o filme de forma magistral assim como já tinha feito nos excepcionais Incêndios (2010) e Os Suspeitos (2013). O cineasta é de fato muito autoral, seguro, calmo e cauteloso em tudo que faz, merecendo aplausos pelo seu desempenho; perceba como ele posiciona a câmera muito próximo do rosto dos personagens e como planos fechado, tetos baixos e locais estreitos dão um tom de claustrofobia ao ambiente. Entretanto nem todos os méritos estão na direção, pois a obra é uma adaptação do livro do português José Saramago, com roteiro escrito por Javier Gullón.

E novamente Gyllenhaal se entrega aos personagens de corpo e alma, pois ambos são tão distintos que é muito fácil esquecer que trata-se do mesmo ator interpretando ambos. Dentre as mulheres, Mélanie Laurent e Sarah Godon, são superficiais propositalmente, pois o foco não é em nenhum delas e sim no que elas representam para os duplos. E o elenco fecha com a participação de Isabella Rossellini que com uma cena e um diálogo é capaz de causar murmúrios no cinema, pois sua aparição é crucial para a trama.

O Homem Duplicado é primoroso e genial, é o tipo de obra que toma conta da mente dos espectadores por dias a fio, não será surpresa se alguém disser que precisará rever o filme para entendê-lo, e neste caso não chega a ser um defeito. Uma vez que a trama não é longa, pois foi prezada a essência do projeto sem falar que os eventos são interessantíssimos. Portanto vê-lo uma dezena de vezes será nenhum sacrifício, mas uma tarefa enriquecedora e prazerosa.
Postagens mais recentes Postagens mais antigas Página inicial

Seguidores

Pseudo crítico de cinema!

Tecnologia do Blogger.

Arquivo do blog