terça-feira, 23 de setembro de 2014

Crítica - Maze Runner - Correr ou Morrer


Por Luis Ribeiro

Se formos prever o futuro da humanidade de acordo com as obras literárias adolescentes da atualidade, ele, certamente, não será nem um pouco agradável, pois por mais que esses livros tenham personagens e cenários diferentes, a premissa é sempre a mesma: jovens, com menos de vinte anos, desempenham um papel extremamente importantes para uma sociedade pós-apocalíptica, até que chega um indivíduo que se diferencia dos outros e começa uma nova revolução (comumente temos uma mulher como vilã da história).Tem sido assim há alguns anos, e por mais que vários livros deste universo sejam interessantes, existem aqueles que são completamente descartáveis. Cedo ou tarde as obras são transformadas em filmes (estimulando e popularizando a obra original) e assim começa toda uma ladainha sobre fidelidade às páginas e a ética do cinema. Estes livros podem ter seu potencial explorado, resultando em uma adaptação digna (como os livros e os filmes da franquia Jogos Vorazes, ambos ótimos); outros não tem tanta competência (como o fraco Divergente, em todas as formas; o mesmo se diz do recente, O Doador de Memórias e do medonho filme de Ender’s Game – O Jogos do Exterminador). Mas a finalidade deste parágrafo é dizer que Maze Runner fica em cima do muro, pois está longe de ser uma adaptação infanto-juvenil memorável, mas com certeza não é um filme ruim.

Thomas (Dylan O’Brien) é enviado até uma fortaleza, denomina Clareira, onde habitam apenas garotos adolescente. Neste local os meninos criaram um sistema de vida eficaz que os protege de todos os perigos e os faz viver em harmonia. O problema desta nova casa é que ela é cercada por um labirinto monumental que os faz reféns de algo que ninguém nunca soube o que é. Para tentar escapar os rapazes tentam, sem descanso, decifrar o labirinto durante 3 anos, sem nenhum resultando, uma vez que a muralha serve de casa para os temidos Verdugos. Essa é a rotina dos garotos, mas tudo é abalado após a chegada de Teresa (Kaya Scodelario), a única menina que foi enviada para a Clareira.

Antes de tudo é preciso deixar claro que livros são livros e filmes são filmes, e quando um contrato é assinado pelo autor da obra (no caso, James Dashner) a produtora e os roteiristas têm grandes liberdades para com o conteúdo, ou seja, não faz o menor sentido exigir fidelidade total porque elas são raras e as mudanças no enredo são consequências da migração da história original para a adaptada; sempre foi assim e vai continuar sendo. Logicamente algumas migrações são exageradas e acabam por estragar uma premissa interessante do livro e em outros casos o material fonte é muito falho e esses seus defeitos são corrigidos em sua adaptação.

Devo admitir que li o livro e que senti falta de vários elementos presentes nele, no filme. Não porque eles eram “importantes”, mas porque tinham mais lógica e eram perfeitamente adaptáveis à história. Entretanto, devo reconhecer que vários componentes da produção são bem mais satisfatórios do que os descritos no material impresso.

(mas quem não leu, fica aqui minha indicação, porque trata-se de um exemplar bem interessante, apesar de ele ter alguns problemas de ritmo e personagens) até porque está crítica é voltada ao filme.

E um grande problema deste projeto é o próprio labirinto, ele é o grande antagonista da história, porém é subestimado no decorrer do filme. A sua resolução dependeu muito da sorte e de acontecimentos recentes, ou seja, nada em 3 anos de busca resultaria em nenhuma saída, porque nem Thomas e tampouco Teresa estavam presentes neste período. Simples assim.

Esta é a estreia do diretor Wess Ball, que se mostra muito competente e também seguro em sua primeira produção, além de investir em uma ousadia que vários veteranos não teriam coragem. Não há créditos iniciais, o filme simplesmente começa com o espectador sabendo tanto quanto o protagonista (ou seja, nada). O realizador usa e abusa de vários ângulos e movimentos de câmera. Ora utilizando o plongeé e contra plongeé logo de início para representar a chegada do novato, para logo depois partir para uma cena de corrida e finalizar com travellings circulares mostrando onde o garoto se meteu. Isso sem falar da câmera subjetiva tremida, para agoniar ainda mais os envolvidos. Além de tudo, em vários momentos, Ball deixa um espaço pequeno entre a câmera o personagem (seja ele qual for), dando maior intensidade à cena; em planos maiores ele abre os cenários para dar sensação de grandeza e espaço. Apesar de todos esses elementos, junto com a fotografia escura do labirinto, em alguns momentos o espetador se confunde com os acontecimentos.

Wess também demonstrou seu talento para cenas de ação e emoção. Ação, pois embora eu tenha lido o livro antes de ver o filme, e por isso sabia o destino dos personagens, o diretor fez com que a adrenalina fosse constante; não raro foi o caso de eu me pegar roendo as unhas na sala de cinema em meio a uma perseguição. Junte isso com uma bela trilha de John Paesano, que acompanha lindamente as tomadas frenéticas com ritmos igualmente eletrizantes. E no quesito emoção o diretor cria um vínculo muito forte entre os personagens, eles prezam o decoro e vivem em grande amizade constante, assim o sentimento de união de todos é bem construído e quase emociona em mais de uma vez.

O’Brien tem potencial para se tornar um ator muito competente em sua carreira, ele passa a bem a ideia mista de confusão, desespero e liderança; não foi por acaso que foi escolhido como protagonista, é de fato o melhor em cena. Aml Ammen e (o britânico) Thomas Brodie-Sangster, os líderes da Clareira, têm seus momento durante o filme, principalmente o segundo que apresenta-se sempre calmo e cauteloso, preocupado com o bem estar de todos, uma atuação tão sutil e mesmo assim muito forte do rapaz (que acredite ou não, já está com 24 anos). Scodelario é de fato a pior personagem da trama (acredite, no livro ela é ainda pior), pois ela é tão ignorada que suas cenas limitam-se a gritos de histeria e inexpressividade. Bate de frente com ela o personagem de Wil Poulter, caricato demais na pele de um vilão prisioneiro da própria ignorância e cego pelo medo, desperdício de um bom jovem ator. Fechando o elenco está Patricia Clarkson (que é versão de Kate Winslet de Divergente, Julianne Moore em Jogos Vorazes e Maryl Streep em O Doador de Memórias).

Positivamente me refiro a relação de Teresa com os demais rapazes, pois era quase inevitável prever um romance (e ele existe nas sequências), entre ela e Thomas, por exemplo. Entretanto ele (romance) foi abolido, assim como o humor e as irritantes expressões inventadas por Dashner no livro. Três elementos que não fizeram falta no enredo, na verdade sua ausência o enriqueceu, já que não perdeu-se tempo de narrativa com tais componentes. E de novo o diretor se posiciona seguramente ao investir em cenas com mais violência e a presença de sangue, mascarado, mas presente, acredito que isso ajude na atmosfera de manter os personagens em peerigo real.

E de novo aponto as questões da sociedade dos rapazes, pois em vários momentos existem diálogos que falam sobre como a hierarquia dos jovens foi criada de forma calma de cuidadosa, para que ninguém se ferisse e todos tivessem a sua função, mas em determinado momento isso é contradito, pois os personagens agem intuitivamente e não seguem a razão que tanto presam. Há problemas de coerência em relação à picada dos monstros Verdugos (“Ele foi picado de dia”; “Ninguém nunca sobreviveu a uma noite no labirinto”. Ora, então a que horas ele seria picado se não fosse de dia?).

E como o protagonista é um desconhecido na própria história é um tanto irritante perceber que as informações que são passadas a ele pouco a pouco são fornecidas por personagens apresentados de formas lineares no início da trama, ou seja, é um tanto quanto ensaiado.

Os efeitos sonoros e visuais são bem competentes, ponto positivo para a movimentação do labirinto. Porém, pelo fato de o livro não ser muito pequeno foi clara e pressa dos realizadores em vários momentos do filme, devido ao medo de parecer cansativo e algum momento. Mas as quase duas horas de projeção parecem pouco após o desfecho, que tem lá seus problemas, é verdade, mas ainda sim deixa um gostinho de quero mais.

seu livro não foi tão propagando e não está entulhando nas grandes livrarias do mundo, mas com a data da sequência marcada e uma estreia muito satisfatória pode acreditar que diversos leitores dedicados irão começar a surgir. E ao final do filme nota-se que muito deixou de ser dito, ou seja, guarde o nome do filme, pois ainda tem muito por vir e você ouvirá falar dele de novo.

Mas então leitor, posso tê-lo confundido em relação a minha opinião perante o filme, mas pode assisti-lo sem medo, pois minhas impressões, em geral, são positivas. Como admirador do livro, contento-me com o material proposto na produção, já que não li ainda as sequências, mas adianto que ao término da projeção tive mais motivos para continuar a ler a saga e aguardar, com certa avidez, o próximo filme.

domingo, 21 de setembro de 2014

Crítica - Livrai-nos do Mal


Por Luis Ribeiro

Não é de hoje que assombrações e possessões são foco de materiais do cinema de terror, isso se valeu aos clássicos do gênero (O Exorcista, A Profecia) e teve um grande impulso dos filmes japoneses a partir do anos 2000, cujo interesse é óbvio nessa área. Apesar de nos últimos anos as produtoras não investirem tanto dinheiro nessas produções, ainda existe uma remessa grande de filmes com exorcismos, espíritos vingativos e afins, mas continua sendo um gênero arriscado de se investir (já que não é qualquer diretor, produtor ou roteirista que aceita trabalhar com os sustos). E se filmes como A Aparição e Mama são exemplos de que o gênero de horror pode te fazer sentir tudo, menor medo, filmes como Sobrenatural, O Exorcismo de Emily Rose, A Entidade e Invocação do Mal não só são ótimos entretenimentos como revigoram a forma de fazer um suspense/terror. Infelizmente, Livrai-nos do Mal entra no primeiro grupo citado. 

O policial Ralph Sarchie (Eric Bana) é famoso em seu meio pelas suas intuições de encontrar casos extremamente perigosos e incógnitos, isso o levou a vários crimes envolvendo uma mãe que arremessa seu filho na jaula de um leão; um caso extremo de agressão familiar e uma família amedrontada na própria casa. Apesar de lidar com a razão e acreditar que maldade apenas existe nos homens ele acaba se cegando pelos fatos óbvios que envolvem foças sobrenaturais em todos os seus recentes casos, para auxiliá-lo nestas novas investigações ele conta com a ajuda do padre Mendoza (Edgar Ramírez) e descobre a ligação entre os crimes e como sua família poderá estar em perigo também.

Scott Derrickson (A Entidade e O Exorcismo de Emily Rose) possui um tato bom para o terror, já que seus filmes do gênero demonstraram imensa competência em sua estrutura, fazendo com que a estimativa de cobrança não fosse pequena neste novo filme. É lastimável que a produção não seja só ruim, mas completamente descartável, porque são pouquíssimos pontos positivos que posso listar neste texto. O principal seria uma nova abordagem da atmosfera de terror unida com tramas policiais, uma nova proposta engenhosa, mas que foi muito mal usada por Derrickson, pois o filme, acima de tudo, é vago.

O roteiro tem tantas voltas e tantos conflitos que nenhum deles parece ter sido realmente resolvido. O mesmo se vale aos personagens, são tantos, que o realizador dá a entender que vai desenvolvê-los, mas apenas os elimina quando é conveniente. Outras personagens femininas, como Olivia Munn e Lulu Wilson,  só servem como vítimas, porque sua contribuição para o desenvolvimento da trama é quase nula.

Dentre os protagonistas, é difícil escolher o mais problemático, pois Bana surge completamente inexpressivo em todo o filme (não porque seu personagem tem conflitos no trabalho e é amargurado na vida, é porque ele não consegue fazer outra expressão), mesmo quando é exigido um imenso contraste emocional devido aos acontecimentos com sua família, ele segue completamente obtuso. Mas o prêmio vai para Ramírez, o padre o qual interpreta é tão bizarro que quase chega a ser risível, pois ele bebe, fuma, pratica sexo de vez em quando, tudo em nome da virtude e da santidade; o espectador pode se confundir pelo que o sacerdote diz durante o filme, ele inventa desculpas para justificar seus atos, falando que eles são aceitos pela Igreja Católica e quase um modelo para serem seguidos, faria mais sentido dizer que é apenas um fiel de seus credos que é especializado na demonologia, mas isso faria com a história tivesse algum tipo de lógica.

E se o elenco não é nenhum primor, o mesmo se diz aos aspectos técnicos. Primeiramente é preciso frisar o quão óbvia permaneceu a direção de Derrickson, pois cria ângulos diferentes para passar a sensação de que as coisas não estão bem e erra muito no ritmo da história, um exemplo é cena que envolve um leão, é tão no início do filme e tal mal dirigida que faz com que o espectador pouco se importe com o que vai acontecer, porque, na verdade, ele já sabe (fazendo com que um filme de terror tenha o seu pior defeito: o tédio). Scott aparece com sustos falsos, uma trilha sonora altíssima e confusa, junto com a previsibilidade das cenas (um quarto macabro, todas as luzes começam e piscar e depois apagam por completo, um silêncio colossal, o policial acende a lanterna e na sua frente aparece algo “aterrorizante” junto com todos os sons disponíveis no software usado na edição do mesmo). É triste ver um potencial de um diretor tão autoral sendo desperdiçado de qualquer forma. Une-se a isso uma fotografia escura onde o espectador raramente sabe o que de fato está havendo em cena, só porque o filme é do gênero horror não significa que ele precisa ser escuro em todas as cenas. Perceba a  pouca criatividade de atmosfera do realizador ao colocar as cenas tranquilas de dia e as de assombração à noite, na maior parte. A maquiagem é tão pobre e usada com tanta falta de integridade que parece um filme de baixo orçamento qualquer, mas não se engane, pois a produção custou cerca de trinta milhões.

O alvo das manifestações sobrenaturais também é um caso delicado, pois ora atingem pessoas, ora os animais estão envolvidos. É curioso o caso de o protagonista demonstrar um ódio enorme pelos felinos em geral, quando em nenhuma parte do filme isso se faz relevante ou é explicado o motivo de tanta raiva pelos animais.

O nome “Livrai-nos do Mal”, que é obviamente uma citação da oração “Pai Nosso” dos cristãos, dá a entender que se trata de um filme de temática de conflitos presentes na religião e que o âmbito da Igreja vai estar presente como forma de percursor da história, isso não se concretiza, apenas serve de empecilho na narrativa, criando cenas caricatas e estereotipadas com relação ao cristianismo, que nesse caso só se concentra nas obras das trevas (com os demônios falando latim e espanhol, pois a América Latina deve ter sido um palco para rituais de bruxaria e satanismo no passado, já que é extremamente comum ver filme com uma temática semelhante e usando a cultura latina como forma de possessão, assim como o canibalismo no Brasil e os sacrifícios como oferenda nos países de influência da África, por exemplo).

Como já dito, o filme é muito vago e sem relação alguma com plausibilidade (pois um demônio latino estava preso na Ásia em uma escritura que sabe-se lá de onde veio). São tantos os caminhos que o filme podia traçar, mas foi o escolhido o mais pobre e desinteressante. Claro que não condeno o diretor por seu erro, até porque todos os grandes mestres do cinema têm suas fases ruins e com filmes medíocres, mas tenhamos fé para que no futuro este mal que infligiu Scott Derrickson, com o perdão do trocadilho, nos seja livrado.
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