quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Crítica - Whiplash - Em Busca da Perfeição


Por Luis Ribeiro

Para aqueles que estão à procura de um bom filme sobre música ou mesmo sobre jazz (devido ao nome do filme) posso aconselhar outros títulos, mas Whiplash jamais será um deles. Isto porque não se trata de uma obra sobre a música e sim sobre a genialidade que está por trás de cada músico competente. Temos aqui uma experiência que fará o espectador presenciar a dedicação de certas pessoas em seu trajeto de ter seu nome lembrado através de gerações.

Andrew Neyman (Miles Teller) é um baterista prodígio que conseguiu ingressar no maior centro acadêmico de música dos Estados Unidos. Desde cedo ele treina incessantemente para ser um músico famoso e genial. Seu trabalho foi intenso que chamou a atenção de um dos maiores mestres da cidade, Terence Fletcher (J.K. Simmons), que usa métodos pouco flexíveis para treinar seus jovens componentes da banda que rege.

De início pode-se ver a ambição do projeto. O novíssimo, de 29 anos, diretor Damien Chazelle (que escreveu O Último Exorcismo: Parte II e Toque de Mestre, de 2013 e 2014 respectivamente) tem olhar de gente grande. Como cineasta técnico ele é promissor ao fazer com que a câmera dance e acompanhe o ritmo das músicas. A câmera é estática até que a música comece, quando isso acontece cortes rápidos e movimentos eletrizantes tomam conta da tela (algo que não seria possível se não fosse o igualmente correto Tom Cross, na montagem). Da mesma maneira ele enche o filme em planos detalhe de vários elementos, como: olhos, orelhas, instrumentos musicais, boca, etc. Nesta forma o diretor está chamando a atenção de quem está assistindo, de forma nada sutil, para que preste atenção aos pormenores, sendo uma lição valiosa para o protagonista.

Neyman tem um talento nato, isso é indiscutível, mas é um aluno presunçoso, egocêntrico e facilmente emocionável. Nota-se que o personagem é complexado por aquilo que o cerca, pois seu pai (interpretado por Paul Reiser) é um professor que gostaria de ter sido escrito, e Andrew não quer que tais frustrações sejam repetidas com ele. A ambição do protagonista é emocionante, ele não almeja apenas ser bom ou certo, ele deseja ser memorável e fazer com que toda a sua vida tenha sido utilizada para algo grandioso. O rapaz vê essa chance ao ter contato com Terence. Fletcher pode não ser o professor exemplar e passar a mão na cabeça dos que erram, mas é um homem que presa pela perfeição e pela genialidade de seus alunos. Suas frases “motivacionais” se baseiam a insultar os alunos com frases homofóbicas, racistas, imorais e preconceituosas e é através delas que faz com que eles cresçam em suas performances.

Neste ponto de aluno e professor é que o filme acerta também. Perceba que os métodos que o regente usa em suas aulas são vistos como exageros, mas é a maior das mentiras dizer que seus alunos não melhoraram. Trata-se e uma mensagem aos sistemas de estudos “modernos” que dizem que os alunos devem ser os pesquisadores e os professores são apenas os “auxiliadores”.

Chamar um profissional da educação de auxiliador, ou mediador é tão ridículo quanto achar que um aluno terá um bom desempenho naquilo que não lhe interessa ou que considera trivial. Cabe ao professor identificar o potencial e determinação de um estudante, exigir o melhor deste, fazendo-os com que se tornem maduros e talentosos. Assim como cabe aos alunos fazerem por merecer (como é dito no filme) em suas incumbências, do contrário serão facilmente substituídos. É um trabalho árduo de ambos os lados e que lastimavelmente a sociedade insiste em fazer errado.

Óbvio que os métodos de Fletcher são exagerados e incorretos, pois é possível ser bem rigoroso sem usar tais sentenças para desmoralizar deliberadamente um aluno. Entretanto, o filme humaniza a figura do mestre; ele se emociona ao ouvir uma bela sinfonia de um de seus ex-alunos que era constantemente desmotivado por seus professores, ou tratar com carinho uma criança filha de um amigo. E por isso o favorito na temporada de premiações, J.K. Simmons, entra batendo as portas e gritando para quem quiser ouvir. O ator entrega um desempenho formidável dando vida a um personagem tão difícil e carrasca, mas que leva consigo uma pensamento extremamente erudito. “Não há duas palavras mais danosas do que “bom trabalho””, diz o personagem num diálogo onde ele esclarece que ninguém pode ser um gênio se nos pequenos erros ninguém chamar atenção, dando um exemplo estupendo de que Charles Parker só se tornou um grande músico depois que lhe atiram um prato que quase o decapitou. Depois desta cena eu poderia ter dado como encerrado a projeção de tão perfeitas e impactantes que são as palavras ditas nesta sequência.

Mas Chazelle (que também escreve o roteiro) quis mais. Criando uma sintonia entre os personagens que é excepcional, ambos parecem se odiar e se gostarem ao mesmo tempo, numa química e tensão equilibrada e perfeitamente encaixada.

Teller está crescendo e se mostrando um ator de grande categoria, apesar de perder tempo com filmes medíocres (como Divergente, Finalmente 18 e Namoro ou Liberdade), o novo Senhor Fantástico tem pela frente uma carreira que só lhe trarão elogios se fizer as escolhas certas, já que vemos ele como um baterista que deixa suas mãos sangrarem, porém se recusa a interromper seu exercício sabendo que a dor lhe trará recompensas. Junto com ele temos a presença Melissa Benoist (da série Glee), como namorada, que é uma das únicas imperfeições da trama. A personagem é usada para representar as perdas e tudo àquilo que um gênio precisa abrir mão para ter sucesso, portanto todas as cenas que envolvem o relacionamento de ambos surgem superficiais e quase descartáveis.

E temos que parabenizar a obra pelo seu encerramento, o fim do terceiro ato é agonizante e recompensador. Neste, tem-se a melhor relação entre o mestre e o pupilo; ambos conseguem finalmente se comunicar por meio daquilo que melhor sabem fazer. É de encher os ouvidos, os olhos e ainda sair da sala de cinema com um sorriso no rosto e com ânimos revigorados.

Em muito Whiplash me fez lembrar o formidável Cisne Negro (2010) de Darren Aronofsky, pois os dois mostram o sangue dado pela arte (seja ela dança ou música), testam os limites de seus protagonistas e usam profissionais para exigir a perfeição. A diferença é que os dois filmes trazem mensagens diferentes, já que Aronofsky sempre explora os limites em seus filmes e na maioria deles o resultado disto não é agradável. Aqui temos uma visão mais contemporânea, uma vez que os músicos sofrem muito com a falta de amparo dos próprios familiares, nunca o apoiando ou fazendo pouco caso de suas carreiras.

Forte candidato na temporada de premiações e vencedor do Festival de Sundence, Whiplash – Em Busca da Perfeição é um drama motivacional que vale ouro, merecedor de todos os prêmios e elogios que vier a receber. Desde já um dos melhores de 2015.
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