sábado, 5 de março de 2016

Crítica - A Bruxa


Por Luis Ribeiro

A Bruxa é um terror competente e modesto que preza pelo seu desenvolver e trata os sustos como trivialidade – da maneira que tem de ser – para compor uma história interessante e instigante. O seu mérito é esse: ele é macabro. Dosando suas propostas em uma tríade ainda mais maldita para as mentes dos crédulos, sendo o real, o imaginável e o sobrenatural. O fator da subjetividade coloca o espectador em um estado de confusão contida e envolve um espalhamento entre quem assiste e quem está sendo assistindo, ou seja, o filme não mostra evidências, mas sugere elementos que apavoram.

Em um contexto de colonização da América do Norte, e também algumas décadas antes da caça às Bruxas de Salém, como ficou conhecido, temos uma família expulsa de um vilarejo após o pai ter se recusado a cometer uma heresia baseada na diferença de interpretação dos ensinamentos bíblicos; o homem, sua esposa e filhos são condenados ao exílio e à solidão em bosque rodeado por uma floresta pouco convidativa.

Antes de tudo, este trabalho é um grande deleite para os amantes da História do século XVII, já que na Nova Inglaterra os habitantes realmente acreditavam em bruxas que se alimentavam de crianças, voavam em vassouras, lançavam maldições em famílias e que tinha comunhão com o demônio. Essa crença folclórica era tão fortes quanto à devoção ao cristianismo.

A pregação da palavra divina e os hábitos rigorosos, trazidos da Inglaterra, compõem boa parte dos diálogos que, segundo os realizadores, muito se basearam nos documentos reais daquela região. Nada mais lógico do que toda a história ser voltada a essa fé, já que a família que perde seu filho mais novo crê que isso foi um castigo divino e que precisam pegar por seus pecados, contrapondo em vários momentos onde a credulidade é abalada pelas condições desfavoráveis que se encontram.

Muito se pode basear essa história na filosofia de Jean-Paul Sartre e seu existencialismo, onde a família deposita a responsabilidade de seus atos insensatos e condições climáticas a castigos de Deus. E muito embora a história se passe há mais de 300 anos seu contexto pode ser moderno quando falamos de fanatismo religioso e posicionamento feminino com o mesmo.

Muito baseado no grande desempenho de Anya Taylor Joy, que interpreta uma moça em transformação para a fase adulta que cuida de seus irmãos mais novos e da casa onde vive. Sua posição vem em comparação com seu pai, Ralph Ineson, que apesar de ter boa fé na condução de sua família, se mostrar um homem calmo e responsável, mente para salvar sua família e atribui a culpa à sua filha; enquanto que seu filho mais novo, Harvey Scrimshaw, começa a ter desejos masculinos e que o faz pecar em pensamento em obras de incesto, a trama ainda se amarra a vilania da jovem moça. Com dois homens com tais adjetivos não condenados por seus atos, enquanto que a jovem é perseguida apenas por estar se tornando mulher.

É nessa visão em que o filme tem seus méritos de interpretação rica e um estudo histórico avançadíssimo, tanto é que o trabalho demorou quatro anos para ser concluído. Porém, com tamanha pesquisa e elementos da filosofia contemporânea e classicista talvez o projeto se confunda em seu embasamento naquilo que pretende propor.

O diretor e roteirista estreante, Robert Eggers, é ambicioso em não perder tempo em uma introdução previsível, ele mostra nos primeiros 10 minutos de projeção a “bruxa” da floresta, não dando espaço para dupla interpretação, isto é, quis deixar claro que esta mulher habita a floresta e ela é real, mas nunca mostrando mais do que o espectador precisa ver. Ainda nisso, ele usa recursos inteligentes de narrativa para moldar sua história, como não se prender a clichês fáceis de uma mulher horrenda com traços demoníacos e uma risada afiada. Na verdade, usa traços de inocência no personagem títulos, vestindo-a com um capuz vermelho remetendo a infância em contos de fadas, e o fato de usar essa cor e assimila-la a uma maçã nos remete ao pecado de Eva, novamente vitimando propositalmente as mulheres no contexto.

Mas quem brilha mesmo é Jarin Blaschke com uma fotografia incorrigível ao captar cenários de extrema solidão e usar luzes naturais, como velas e fogueiras, em quadros amplos para remeter o isolamento da família no bosque. Ele ainda usa lentes de capturas ao longo alcance para manter tudo em foco, isso porque fotografa paisagens e posiciona a câmera bem longe dos personagens para aguçar ainda mais o suspense. Mas sua genialidade mora em suas referências ao Renascimento e montar cenários completamente iluminados por luzes vindas de janelas faz com que seus enquadramentos remetam a Velázquez, por exemplo.

E Eggers também tem seus momentos na direção da trama. Como dito, ele trabalha bem a subjetividade dos elementos e faz com que o espectador tenha medo pelo que está imaginando e não pelo que está vendo. Uma tática correta utilizada em O Bebe de Rosemary (1968), Tubarão (1975) e The Babadook (2014), onde o terror é psicológico e intelectual. Esse método é empregado do começo da projeção até o fim, o diretor não entrega quem é realmente a bruxa do título, ele aposta o medo por meio da audição e imaginação do espectador e através da paleta de cor absurdamente acinzentada que enaltece a falta de vida e fé da família.

O cineasta ainda tem méritos em dirigir cenas envolvendo crianças e animais de forma assombrosa e não tem medo em usar os irmãos gêmeos do filme, apesar da pouca idade, em momentos de possessão, sinais diabólicos e mortes. Ainda se mostra competente nos momentos em que assume terror quando a carnificina começa; a cena em que Black Phillip finalmente fala é de fazer o sangue gelar, e demora pra passar.

Contudo é entregue um desfecho tosco e de mau gosto, com direito a um sabá forçado em adoração e levitação(?). Todo o trabalho de envolvimento do espectador desperdiçado com uma última cena estupidamente criada e que poderia (não, deveria) ter sido retirada.

THE VVITCH (dessa forma mesmo) é um filme muito mais baseado nos medos que nossa imaginação cria e como isso influencia de forma negativa nossa realidade, é uma história de ritmo comedido, mas que sustenta aflição até o seu decepcionante desfecho. Entretanto ainda é um trabalho muito coerente de um próspero cineasta talentoso com uma mente próspera para boas histórias.
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