terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Crítica - Boyhood – Da Infância à Juventude


Por Luis Ribeiro

O filme mais comentado do ano é Boyhood (cujo nome brasileiro fez questão de ser redundante), dirigido pelo excepcional cineasta Richard Linklater, responsável pela trilogia fantástica constituída por Antes do Amanhecer, Antes do Pôr-do-Sol e Antes da Meia-Noite, além do divertido Escola de Rock e do não tão divertido Bernie – Quase um Anjo. Mas o motivo desse novo projeto ter tido tanto espaço em divulgação no meio cinematográfico é o fato dele ter sido filmado no decorrer de 12 anos. Ou seja, durante este período o diretor reunia a equipe e filmava uma parte do filme por alguns dias todos os anos.

A questão é que muito tem se comentado sobre este ser o filme do ano devido a sua produção pouco comum e o imenso trabalho que exigiu. Mas se olharmos para trás nos deparamos com processos semelhantes como na série Up, contando a vida de sete crianças britânicas, iniciando a transmissão desde 1964; ou filmes de François Truffalt; e por que não a série de filme Harry Potter? Esta última que demorou uma década para ser concluída, com oito filmes, com o mesmo elenco, a mesma equipe, com a mesma produção, escrevendo oito roteiros. Portanto, devemos esquecer-nos deste pequeno detalhe e vermos o resultado como qualquer outro filme competente.

Durante toda a projeção acompanhamos a vida de uma família por mais de uma década. A mãe, Olívia (Patricia Arquette), tenta criar os dois filhos sozinha após se separar de seu marido, Mason Sr. (Ethan Hawke), que apesar das dificuldades faz de tudo para ser um pai presente. Ela sabe que para garantir um futuro melhor para Mason (Ellar Coltrane) e Samantha (Lorelei Linklater) precisa voltar a estudar e tocar suas vidas em diante. O material é indiscutível bom e uma dos melhores de Linklater, a duração de quase três horas é muito bem aproveitada com o crescimento do menino, durante suas fases de vida, acompanhando as tendências de um ano específico, relacionamento com seus familiares, amigos e seus problemas como criança a e adolescente.

Não há nada de inovador na trama, segue a vida de uma família com dificuldade e a luta que esta tem para resolver seus problemas. Não é pelo fato de a história ser modesta que ela não impressiona, pois explora um lado muito sensível da família. O relacionamento de pai e filho, as brigas de irmãos, a convivência com os meios-irmãos e padrasto. Tudo parece ser visto com os olhos de quem viveu tudo aquilo.

A construção dos personagens é lindíssima, é impressionante o esforço que a equipe executa para fazer com que todos em cena parecessem de fato uma família e que participassem de coisas cotidianas. Nota-se isso pelos grandes diálogos (especialidade do diretor), semelhantes aos que os pais têm com seus filhos; os relacionamentos amorosos e com os amigos. Uma vida sendo representada na tela jamais seria entediante.

O design de produção merece aplausos pelo capricho em manter uma atmosfera onde é quase perceptível saber a época em que o filme se passa. Logo várias tendências passageiras estão presentes (como as músicas de High School Musical e as filas de jovens para comprar o novo livro de Harry Potter). Além da presença familiar e cultural de uma determinada região americana (influência católica e de o esporte de caça no país); uma vez que as crianças ajudam o pai a propagar a imagem do candidato a presidência Barack Omaba – mostrando um lado dos Estados Unidos ainda racista em meado dos anos 2000 - e ouvirem com interesse a teoria de que foi a própria América que providenciou o ataque às Torres Gêmeas.

Além disso, o cineasta veterano ainda possui uma mão certa para o elenco. Coltrane e Linklater (filha de Richard) possuem muita química e um relacionamento bem latente de afeto (algo comum, já que se conheceram desde a infância) e de fato parecem irmãos, com suas birras infantis, mas que quando crescem se tornam adultos maduros e que querem apenas se ajudar. Arquette brilha no papel da jovem mãe preocupadíssima com os filhos e mais ainda com o futuro que pode dar a eles, ela explora um lado de matriarca independente com maestria, suas cenas de histeria e emoção (quando ela declara ao filho seu momentâneo estado depressivo de ter o papel cumprido como mãe e mulher, como é o caso de muitas chefes de família no mundo) são merecedores de todos os prêmios possíveis. Hawke surge meio apagado, mas nada que prejudique sua natural habilidade de ser um bom ator, ele aparece em momentos específicos do filme, representando a frequência que as crianças têm contato com o pai (ou seja, não muita); mesmo assim merecia mais espaço para não ser mal interpretado como “o pai dos fins de semanas”.

O que é realmente triste em toda a história é saber que aquele Ellar Coltrane criança e pré-adolescente já não existem mais, isso é uma experiência linda de envelhecimento natural do protagonista (quantos filmes podem ter tanta veracidade?). Ellar é um jovem prodígio, desde cedo mostrou uma competência nata em atuação e manteve esse nível pelos 12 anos. Os capítulos que seu personagem passa ao longo da história são incomuns para vários jovens – não para todos – e ele jamais esquece a complexidade de sua performance, manteve-se como um jovem discreto e tímido, mas nunca deprimido ou abalado por tudo que já passou, cresceu sabendo como a vida será.

Entretanto, ouso apontar os erros que de fato existem no filme e devem ser levados em consideração. Em nada corrijo a competência de Linklater em comandar seus filmes, mas escalar sua própria filha somente porque ela lhe pediu não é uma atitude muito favorável (vou relevar por ela ter se saído bem no papel). Os problemas mesmo estão com o desenrolar da trama, a sequência do filme envolvendo o padrasto bêbado é a mais problemática, além de ela ser muito rápida, estragando o envolvimento do espectador com os novos personagens. O padrasto embriagado, caricato demais com uma pose machista e covarde de querer mandar e bater nos membros da família, com a postura de um homem que bebe muito sem nenhum motivo aparente e se acha poderoso por isso. Sem dúvida é uma atitude estranha para um professor de Universidade tem tais hábitos e ainda – claro – de estar se relacionando com uma aluna. Os problemas não param por aí, esse homem tem filhos que são excluídos da história com uma imensa facilidade. Com esta atitude a personagem de Patricia soa irresponsável por não se preocupar com os enteados e indecisa sobre seus relacionamentos (pois coleciona uma quantidade absurda de maridos ao longo do filme, fato este que contribui muito pouco para o desenvolvimento do material). E por fim a montagem fragmenta várias etapas das vidas dos personagens. Alguns anos, aparentemente, se tornam mais importantes do que outros e vários episódios são tratados com imensa rapidez, tornando-os artificiais.

Babar por Boyhood não é algo que consiga entender, seus erros são óbvio e prejudicam o filme. Mas são bem evidentes também as qualidades do material. Trata-se de um filme emocionante, comovente, inteligente e sutil. É Linklater mais uma vez fazendo que sabe fazer de melhor: cinema.
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