Louis Zamperini (Jack O'Connell) é um prodígio nas corridas e tem a chance de disputar as Olimpíadas, mas é obrigado a comparecer nos combates da Segunda Guerra e em uma de suas expedições ele e sua equipe sofrem um grave acidente que faz com que fiquem a deriva no imenso oceano. Após várias semanas acabam sendo resgatados por um navio japonês e levados para Tóquio, onde permanecerão como prisioneiros por dois anos.
Devo admitir que em um momento ou dois do filme me peguei considerando que estava diante de uma obra memorável, mas logo percebia que tinha me precipitado ao considerar tão precocemente a qualidade do filme. Já de início não temos uma boa experiência, a cena primeira é isenta de emoção e rica em sinfonias melancólicas, ajudando na atmosfera de superficialidade da trama.
Existem sim pequenas passagens que merecem certo destaque por conta da projeção, pois as tomadas com planos abertos vistos cima; a cena onde o Sol que se põe está perfeitamente alinhado à bandeira do Japão (simbolizando a queda da nação na Guerra) e as poéticas imagens de aviões surgindo em meio às nuvens. Se tudo no filme fosse tão simbólico, como estes exemplos, teríamos, sem dúvidas, uma boa e emocionante obra de guerra. O problema central do projeto é seu incansável desejo de alcançar proporções alarmantes e tentar ser o mais notório possível, impulsionando seu protagonista. Há diversas histórias inseridas e em todas elas temos um nível de credulidade discutível; é inevitável sair da sala de cinema com a pergunta na cabeça “Foi assim mesmo que aconteceu?”.
Dentre tudo que foi contato, temos aqui um menino problemático e desmotivado (por seja lá qual for o motivo) que busca refúgio na bebida e nos furtos (é sério!), mas que descobre seu talento em ser um corredor. Junto de seu irmão ele consegue se transformar em um grande atleta, mas claro que precisará da ajuda de um insulto rotineiro para se lembrar do porquê está fazendo aquilo. Então teremos passagens que mais parecem uma combinação de Forrest Gump – O Contador de História com Carruagens de Fogo e a típica cena onde o protagonista está quase perdendo, mas no último minuto consegue vencer a disputa.
É no início do segundo ato que tudo começa a desandar e é também o menos crível, porque por mais a maquiagem tenha se preocupado com a pele queimada e com os lábios rachados, os cabelos e pelos faciais permanecem quase sem alteração por quase dois meses que foram passados pelos personagens em um bote salva-vidas, num episódio com direito a pesca e luta com tubarões e meia hora onde quase nada acontece, exceto as mudanças drásticas nos corpos dos atores.
O'Connell foi completamente esquecido na temporada de premiação, tudo bem que ele não entrega a melhor atuação do ano, mas poderia ter sido lembrado por sua dedicação em construir um personagem – por mais que falho – que mostra-se forte, benevolente e racional apesar de todo o contexto em que vive. Seu corpo demonstra uma imensa fadiga, mas seu rosto aparenta estar sempre vívido (mais um erro na caracterização). Domhnall Gleeson, Finn Wittrock e Garrett Hedlund cumprem bem seus pais de apoio, em especial a este último que mostra uma expressão calculista e preocupada com os destinos de seus aliados e da própria guerra. Entretanto, chega a ser patética a escalação do astro pop japonês, Miyavi, que não possui uma única cena onde não prove que sua participação é desastrosa, não conseguindo desenvolver seu personagem aos âmbitos que ele representa (o que foi cena de Watanabe quase se emocionando com a conquista de Zamperini? Em uma citação óbvia a Jesus Cristo carregando sua cruz).
O terceiro ato é recheado fartamente com práticas de crueldade para com o atleta, porque, para o filme, quanto maior for o sofrimento do protagonista, maior vai ser a emoção ao vê-lo superando tudo isso e é por este motivo que o roteiro trata Louis com imensa devoção – quase endeusando-o –, para lembrarmos o quão forte foi este homem perante as torturas que sofreu.
Jolie, portanto, ainda se mostra crua e inexperiente da direção (prova disso é o seu filme de estreia, o fraco Na Terra de Amor e Ódio), já que ela aposta nos maiores clichês que o gênero já viu e nas maneiras mais fáceis de dirigir um longa. Frases motivação aos atletas, aos companheiros que quase estão se entregando à morte e palavras de afetos aos torturados são o que não faltam na história, seguido da típica foto da família e/ou namorada lhes esperando em casa.
Angelina é uma mulher muito determinada e consagrada no mundo, ela ocupa seu tempo com vários trabalhos humanitários e se tornou um símbolo da força feminina ao retirar seus seios para se prevenir de um câncer. É natural que ela tenha, então, um apreço pelo universo de superação e de histórias sofridas com finais felizes, mas é bem verdade que ela ainda não tem noções básicas de se dirigir um filme, por mais que sua equipe técnica seja quase impecável.
Porque, se a Academia ignorou uma história de superação e um ator que perdeu muito peso, ela compensou na indicação nas categorias de som do Oscar, com o engenheiro David Lee sendo indicado. Apesar de nada superar a lindíssima fotografia de Roger Deakins – também nomeada –, que não se deixa abalar pela onipresente, e pouca inspirada, composição de Alexandre Desplat.
Tenhamos consciência de que um filme não é nada sem seu roteiro, e quem assume a culpa são (acredite se quiser) Joel e Ethan Coen (dos primorosos Fargo, Bravura Indômita e Onde os Fracos não têm Vez), acompanhados de William Nicholson (Gladiador) e do nem tão competente Richard LaGravenese (Dezesseis Luas e Água Para Elefantes). Todos entregam uma obra duvidosa e apelativa, não só pelos momentos exagerados em busca da pena da plateia, mas também pelos diálogos bregas que conseguiram escrever.
Invencível é um filme muito mais longo do que deveria e com pouco a oferecer, resta saber se os erros que Jolie cometeu neste trabalho poderão ser vistos nos seus inevitáveis próximos projetos ou se serão corrigidos. Busco sempre uma visão positiva do que está por vir.
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