Por Luis Ribeiro
Os clássicos da Disney estão imortalizados em nossas memórias e sua presença fez parte de nossos dias, enquanto espectadores, por várias décadas, ainda cativando os mais devotos. A insistente mania da empresa em realizar versões com atores destes filmes tem se mostrado cada vez mais equivocada. Se em Alice no País das Maravilhas (2010) o visual é superinteressante, seu enredo deixa a desejar (apesar de gostar do filme); as duas versões de Branca de Neve (1937), Espelho, Espelho Meu e Branca de Neve e o Caçador (ambos 2012), são dois filmes dispensáveis, especialmente o pavoroso primeiro; e será que preciso comentar sobre Malévola (2014)? Cuja ideia de fazer um filme sobre um personagem tão interessante e com uma atriz tão querida se mostrou um trabalho preguiçoso e um imenso desperdício de oportunidade. Ao limite da esperança é que surge Cinderela, o único que faz jus ao clássico.
A história é a mesma. Ella (Lily James) sempre foi muito amada pelos pais e, apesar de ter tudo que sempre quis, jamais se mostrou gananciosa e egoísta. Com o passar dos anos o destino veio a levar sua mãe e, logo depois, seu pai, deixando-a aos cuidados de sua madrasta cruel (Cate Blanchett) e suas igualmente desprezíveis filhas.
O filme tem erros? Lógico. Graves? Relativamente. Porém, é inegável que a este novo projeto está mais evoluído do que qualquer adaptação live-action das princesas que o estúdio já produziu. O acerto está na estética. Se seus antecessores arrebataram prêmios por seus efeitos visuais, Cinderela é mais modesto quanto a isso. Além de ser o único que não investiu em alterar a história, apenas usou artificio para moldá-la aos tempos atuais. Como a ideia era poupar gastos, os efeitos exuberantes foram deixados de lado e investiu-se pesado em figurino e direção de arte, decisão que não pode ter sido mais certeira.
Esqueça seres mitológicos e árvores humanoides computadorizadas, o que se tem é algo mais próximo do real e mais palpável ao mundo, é a prova de que os efeitos excessivos não fazem falta.. O diretor, Kenneth Branagh, teve coragem em fazer uma adaptação “ao modo antigo”, e como disse, apostou no visual.
O figurino de Sandy Powell é o melhor elemento entregue, ele é a ponte perfeita entre a fantasia e a realidade, pois as cores de todo o filme são muito vivas e contrastam bem com as vestimentas multicoloridas, mas que nunca aparentam o irreal ou fogem de uma época específica, um trabalho deslumbrante que deve ocupar uma vaga no Oscar deste ano (e, quem sabe, vencer). A figurinista também faz um trabalho formidável no vestido icônico da princesa e fazendo referências aos de outras princesas (diga que a cena do vestido rosa transformando-se em azul não lembra a precisa Aurora, no clássico). Salvo as roupas de Richard Madden, que sempre parece desconfortável em suas casacas e extremamente estufado em várias delas. Compensado, porém, pela direção de arte inspirada em deixar tudo muito singelo e elegante, simultaneamente. Nada chama atenção para si, mas deixa óbvio o que se propões – nota-se isso nas analogias à Mickey Mouse. Contudo, por mais que a fotografia de Andrew Dunn seja muito competente em boa parte das cenas, é prejudicada com a maquiagem digital de um não tão pálido Madden, onde as edições fizeram com que seus olhos azuis ficassem com uma cor estranhíssima.
E por mais que o roteiro de Chris Weitz tenha se mantido fiel à obra original e se empenhando em fazer uma homenagem inteligente fica bem claro que deixou a empolgação estragar seus personagens. A própria Cinderela é um erro. James surge sorrindo incansavelmente e sua personagem é descrita para ser o ser humano mais bondoso, altruísta e gentil do planeta. Chega a irritar a falta de pulso da moça com sua imensa passividade. No outro extremo temos suas duas “irmãs postiças” (um termo pejorativo demais para ser usado em um filme de público jovem), criadas para serem o oposto de Ella e nada mais. É a personagem de Blanchett a mais complexa. A madrasta continua sendo cruel, mas é humanizada para fazer com que seus crimes tenham uma motivação (mas jamais compreensivos), ou seja, ela não é má porque nasceu assim; trazendo um lado histórico feminino muito interessante. Logicamente que a atriz brilha com seus vestidos exuberantes (que lembram os ilustrados do clássico) e sendo diabólica sem nunca perder o decoro. Note também a participação de Helena Bonham Carter, como Fada Madrinha e narradora da história, divertida e cativante. Seus poucos minutos em cena valem o filme todo.
O bom ritmo ajuda com a proposta do filme e os diálogos possuem um humor mais sutil (sapatos de cristais que se quebram!?), embora o roteiro faça questão de nos dizer (literalmente) a moral da história a cada cinco minutos e investir numa tática política de hierarquia de poderes da coroa que tem muito mais ênfase do que deveria. Junte isso com uma trilha sonora que, apesar de bela, não deixa de ser tocada em momento algum. O acerto do trabalho está na sua própria eficiência em se propor a fazer um filme que respeite o clássico, podendo ainda comover os que cresceram e amadureceram com a animação, mostrando mais uma vez o quão incrível é o material fonte, vestindo a camisa de “clássico” e não é por acaso.
Cinderela é um bom filme e que serve para todo o público, meninos e meninas de todas as idades. Uma surpresa comovente que te fará gostar ainda mais do filme de 1950 – não saia da sala de cinema antes da última palavra dos créditos sumir, pois as músicas “A Dream Is a Wish Your Heart Makes“ e “Bibidi-Bobidi-Bu” te farão cantar. E embora esteja longe de se tornar algo tão memorável quanto seu antecessor, verdade seja dita que uma boa quantia de integridade foi depositada nesse projeto, algo que faltou em todos os demais, até agora.
A história é a mesma. Ella (Lily James) sempre foi muito amada pelos pais e, apesar de ter tudo que sempre quis, jamais se mostrou gananciosa e egoísta. Com o passar dos anos o destino veio a levar sua mãe e, logo depois, seu pai, deixando-a aos cuidados de sua madrasta cruel (Cate Blanchett) e suas igualmente desprezíveis filhas.
O filme tem erros? Lógico. Graves? Relativamente. Porém, é inegável que a este novo projeto está mais evoluído do que qualquer adaptação live-action das princesas que o estúdio já produziu. O acerto está na estética. Se seus antecessores arrebataram prêmios por seus efeitos visuais, Cinderela é mais modesto quanto a isso. Além de ser o único que não investiu em alterar a história, apenas usou artificio para moldá-la aos tempos atuais. Como a ideia era poupar gastos, os efeitos exuberantes foram deixados de lado e investiu-se pesado em figurino e direção de arte, decisão que não pode ter sido mais certeira.
Esqueça seres mitológicos e árvores humanoides computadorizadas, o que se tem é algo mais próximo do real e mais palpável ao mundo, é a prova de que os efeitos excessivos não fazem falta.. O diretor, Kenneth Branagh, teve coragem em fazer uma adaptação “ao modo antigo”, e como disse, apostou no visual.
O figurino de Sandy Powell é o melhor elemento entregue, ele é a ponte perfeita entre a fantasia e a realidade, pois as cores de todo o filme são muito vivas e contrastam bem com as vestimentas multicoloridas, mas que nunca aparentam o irreal ou fogem de uma época específica, um trabalho deslumbrante que deve ocupar uma vaga no Oscar deste ano (e, quem sabe, vencer). A figurinista também faz um trabalho formidável no vestido icônico da princesa e fazendo referências aos de outras princesas (diga que a cena do vestido rosa transformando-se em azul não lembra a precisa Aurora, no clássico). Salvo as roupas de Richard Madden, que sempre parece desconfortável em suas casacas e extremamente estufado em várias delas. Compensado, porém, pela direção de arte inspirada em deixar tudo muito singelo e elegante, simultaneamente. Nada chama atenção para si, mas deixa óbvio o que se propões – nota-se isso nas analogias à Mickey Mouse. Contudo, por mais que a fotografia de Andrew Dunn seja muito competente em boa parte das cenas, é prejudicada com a maquiagem digital de um não tão pálido Madden, onde as edições fizeram com que seus olhos azuis ficassem com uma cor estranhíssima.
E por mais que o roteiro de Chris Weitz tenha se mantido fiel à obra original e se empenhando em fazer uma homenagem inteligente fica bem claro que deixou a empolgação estragar seus personagens. A própria Cinderela é um erro. James surge sorrindo incansavelmente e sua personagem é descrita para ser o ser humano mais bondoso, altruísta e gentil do planeta. Chega a irritar a falta de pulso da moça com sua imensa passividade. No outro extremo temos suas duas “irmãs postiças” (um termo pejorativo demais para ser usado em um filme de público jovem), criadas para serem o oposto de Ella e nada mais. É a personagem de Blanchett a mais complexa. A madrasta continua sendo cruel, mas é humanizada para fazer com que seus crimes tenham uma motivação (mas jamais compreensivos), ou seja, ela não é má porque nasceu assim; trazendo um lado histórico feminino muito interessante. Logicamente que a atriz brilha com seus vestidos exuberantes (que lembram os ilustrados do clássico) e sendo diabólica sem nunca perder o decoro. Note também a participação de Helena Bonham Carter, como Fada Madrinha e narradora da história, divertida e cativante. Seus poucos minutos em cena valem o filme todo.
O bom ritmo ajuda com a proposta do filme e os diálogos possuem um humor mais sutil (sapatos de cristais que se quebram!?), embora o roteiro faça questão de nos dizer (literalmente) a moral da história a cada cinco minutos e investir numa tática política de hierarquia de poderes da coroa que tem muito mais ênfase do que deveria. Junte isso com uma trilha sonora que, apesar de bela, não deixa de ser tocada em momento algum. O acerto do trabalho está na sua própria eficiência em se propor a fazer um filme que respeite o clássico, podendo ainda comover os que cresceram e amadureceram com a animação, mostrando mais uma vez o quão incrível é o material fonte, vestindo a camisa de “clássico” e não é por acaso.
Cinderela é um bom filme e que serve para todo o público, meninos e meninas de todas as idades. Uma surpresa comovente que te fará gostar ainda mais do filme de 1950 – não saia da sala de cinema antes da última palavra dos créditos sumir, pois as músicas “A Dream Is a Wish Your Heart Makes“ e “Bibidi-Bobidi-Bu” te farão cantar. E embora esteja longe de se tornar algo tão memorável quanto seu antecessor, verdade seja dita que uma boa quantia de integridade foi depositada nesse projeto, algo que faltou em todos os demais, até agora.