terça-feira, 31 de março de 2015

Crítica - Cinderela


Por Luis Ribeiro

Os clássicos da Disney estão imortalizados em nossas memórias e sua presença fez parte de nossos dias, enquanto espectadores, por várias décadas, ainda cativando os mais devotos. A insistente mania da empresa em realizar versões com atores destes filmes tem se mostrado cada vez mais equivocada. Se em Alice no País das Maravilhas (2010) o visual é superinteressante, seu enredo deixa a desejar (apesar de gostar do filme); as duas versões de Branca de Neve (1937), Espelho, Espelho Meu e Branca de Neve e o Caçador (ambos 2012), são dois filmes dispensáveis, especialmente o pavoroso primeiro; e será que preciso comentar sobre Malévola (2014)? Cuja ideia de fazer um filme sobre um personagem tão interessante e com uma atriz tão querida se mostrou um trabalho preguiçoso e um imenso desperdício de oportunidade. Ao limite da esperança é que surge Cinderela, o único que faz jus ao clássico.

A história é a mesma. Ella (Lily James) sempre foi muito amada pelos pais e, apesar de ter tudo que sempre quis, jamais se mostrou gananciosa e egoísta. Com o passar dos anos o destino veio a levar sua mãe e, logo depois, seu pai, deixando-a aos cuidados de sua madrasta cruel (Cate Blanchett) e suas igualmente desprezíveis filhas.

O filme tem erros? Lógico. Graves? Relativamente. Porém, é inegável que a este novo projeto está mais evoluído do que qualquer adaptação live-action das princesas que o estúdio já produziu. O acerto está na estética. Se seus antecessores arrebataram prêmios por seus efeitos visuais, Cinderela é mais modesto quanto a isso. Além de ser o único que não investiu em alterar a história, apenas usou artificio para moldá-la aos tempos atuais. Como a ideia era poupar gastos, os efeitos exuberantes foram deixados de lado e investiu-se pesado em figurino e direção de arte, decisão que não pode ter sido mais certeira.

Esqueça seres mitológicos e árvores humanoides computadorizadas, o que se tem é algo mais próximo do real e mais palpável ao mundo, é a prova de que os efeitos excessivos não fazem falta.. O diretor, Kenneth Branagh, teve coragem em fazer uma adaptação “ao modo antigo”, e como disse, apostou no visual.

O figurino de Sandy Powell é o melhor elemento entregue, ele é a ponte perfeita entre a fantasia e a realidade, pois as cores de todo o filme são muito vivas e contrastam bem com as vestimentas multicoloridas, mas que nunca aparentam o irreal ou fogem de uma época específica, um trabalho deslumbrante que deve ocupar uma vaga no Oscar deste ano (e, quem sabe, vencer). A figurinista também faz um trabalho formidável no vestido icônico da princesa e fazendo referências aos de outras princesas (diga que a cena do vestido rosa transformando-se em azul não lembra a precisa Aurora, no clássico). Salvo as roupas de Richard Madden, que sempre parece desconfortável em suas casacas e extremamente estufado em várias delas. Compensado, porém, pela direção de arte inspirada em deixar tudo muito singelo e elegante, simultaneamente. Nada chama atenção para si, mas deixa óbvio o que se propões – nota-se isso nas analogias à Mickey Mouse. Contudo, por mais que a fotografia de Andrew Dunn seja muito competente em boa parte das cenas, é prejudicada com a maquiagem digital de um não tão pálido Madden, onde as edições fizeram com que seus olhos azuis ficassem com uma cor estranhíssima.

E por mais que o roteiro de Chris Weitz tenha se mantido fiel à obra original e se empenhando em fazer uma homenagem inteligente fica bem claro que deixou a empolgação estragar seus personagens. A própria Cinderela é um erro. James surge sorrindo incansavelmente e sua personagem é descrita para ser o ser humano mais bondoso, altruísta e gentil do planeta. Chega a irritar a falta de pulso da moça com sua imensa passividade. No outro extremo temos suas duas “irmãs postiças” (um termo pejorativo demais para ser usado em um filme de público jovem), criadas para serem o oposto de Ella e nada mais. É a personagem de Blanchett a mais complexa. A madrasta continua sendo cruel, mas é humanizada para fazer com que seus crimes tenham uma motivação (mas jamais compreensivos), ou seja, ela não é má porque nasceu assim; trazendo um lado histórico feminino muito interessante. Logicamente que a atriz brilha com seus vestidos exuberantes (que lembram os ilustrados do clássico) e sendo diabólica sem nunca perder o decoro. Note também a participação de Helena Bonham Carter, como Fada Madrinha e narradora da história, divertida e cativante. Seus poucos minutos em cena valem o filme todo.

O bom ritmo ajuda com a proposta do filme e os diálogos possuem um humor mais sutil (sapatos de cristais que se quebram!?), embora o roteiro faça questão de nos dizer (literalmente) a moral da história a cada cinco minutos e investir numa tática política de hierarquia de poderes da coroa que tem muito mais ênfase do que deveria. Junte isso com uma trilha sonora que, apesar de bela, não deixa de ser tocada em momento algum. O acerto do trabalho está na sua própria eficiência em se propor a fazer um filme que respeite o clássico, podendo ainda comover os que cresceram e amadureceram com a animação, mostrando mais uma vez o quão incrível é o material fonte, vestindo a camisa de “clássico” e não é por acaso.

Cinderela é um bom filme e que serve para todo o público, meninos e meninas de todas as idades. Uma surpresa comovente que te fará gostar ainda mais do filme de 1950 – não saia da sala de cinema antes da última palavra dos créditos sumir, pois as músicas “A Dream Is a Wish Your Heart Makes“ e “Bibidi-Bobidi-Bu” te farão cantar. E embora esteja longe de se tornar algo tão memorável quanto seu antecessor, verdade seja dita que uma boa quantia de integridade foi depositada nesse projeto, algo que faltou em todos os demais, até agora.

terça-feira, 24 de março de 2015

Crítica - Mommy


Por Luis Ribeiro

Xavier Dolan é brilhante. Não basta esse menino ser dono de um talento de dar inveja, mas ele precisa mostrar seus dons aos 20 anos de idade. Isso não é tudo. Que cineasta tem cinco filmes dirigidos com menos de trinta anos? De quebra, ele coleciona prêmios por onde seus trabalhos passam. E vamos ser cincerros, o rapaz ainda é bonito. Qual é o problema de Dolan?

Desde 2009, quando chegou de fininho e depois causou o maior alvoroço é que o menino já mostra seu talento nato com o excepcional Eu Matei Minha Mãe. Devo confessar que tenho um fraco por seus filmes, já que os acompanho desde que o nome do cineasta não estava tão em alta. Apesar de ter ressalvas de Laurence Anyways e  Amores Imaginários, ainda considero o trabalho de Xavier primordial. É com Mommy que ele mostra que amadureceu e já está fazendo filme de gente grande.

Diane Després (Anne Dorval) tem um filho problemático, Steve (Antoine-Olivier Pilon) e recebe a notícia que terá de cuidar dele após um incidente que o jovem rebelde cometeu. Morando juntos, ambos encontram problemas em se relacionar e em se manter financeiramente. É com a ajuda da vizinha, Kyla (Suzanne Clément), que tudo começa a melhorar.

Dolan dirigiu, escreveu, produziu, editou e foi o figurinista chefe do filme (só lhe faltou atuar, como costuma fazer). Nota-se que o rapaz tem um empenho imenso em seus projetos, que são sempre muito originais e autorais, isso é inegável.

A ousadia do projeto já é vista nos primeiros segundos, quando percebemos que o filme está sendo rodado em um formato 1:1, extremamente limitado, como se fosse filmado por um celular na vertical (até quando as pessoas vão fazer isso?). Aplica-se aqui uma visão contida dos personagens, que parecem presos a esse espaço tão pequeno, causando uma impressão claustrofóbica no espectador que logo entende que tal artificio não só é muito belo, como torna-se impossível imaginar o projeto sendo rodado em algo mais convencional.

Mommy, que foi aplaudido em pé e por cinco minutos no Festival de Cannes em 2014, é um grande estudo de personagem e um reflexo da vida do autor. Quem acompanha Xavier sabe que ele é homossexual assumido e teve problemas de relacionamento com sua mãe (recomendo seu primeiro filme para os mais desavisados). A figura materna aqui – vivida perfeitamente por Dorval – é a alma do filme, refletindo a mãe cega pelo amor que tem pelo filho e que se recusa a tomar alguma atitude que o machuque. O roteiro também não infantiliza a figura de Steve (vivido pelo irretocável Pilon, de 17 anos) a ponto de torna-lo um bebê que depende de sua mãe, é um jovem que cresceu sem pai e admira a mãe acima de tudo, algo que pode ter sido um escorregão do filme ao transformá-lo num racista em determinada cena, só para parecer mais inconveniente.

Tudo é ambientado em um Canadá, fictício, onde existe uma lei em que crianças problemáticas podem ser internadas em hospitais públicos, com grande facilidade, caso os pais não deem conta do tratamento domiciliar. Afora isso, vê-se um país fora dos padrões utópicos que a mídia divulga. Pois, apesar da condição de vida no Canadá ser alta, ainda existe pessoas desempregadas e com dificuldade em manter suas vidas equilibradas. 


O filme martela sobre a figura materna, que neste caso existem duas. A personagem de Clément (magistral!) surge como um suporte para a criação do menino. Note que sempre se engradece a figura das duas matriarcas, ambas sentem um amor incondicional pelo menino mesmo que suas ações afastem qualquer merecimento de carinho. Dolan é genial em escrever um personagem complexo e, ao mesmo tempo, sortudo por ter duas mães tão compassivas e preocupadas com ele, algo que cria uma linha tênue para a condição do humor do protagonista, pois ele não reconhece seus atos afetuosos por ser ingênuo e incorrigível.

Chega a ser comovente as cenas que Diane defende seu filho, mesmo que isso custe o preço de suas salvações. É algo imaturo? Não. É o papel de uma mãe. Pois vê-lo ser ferido é o mesmo que a tarefa desta mulher ter falhado para com sua criação. Ela ainda o vê como um indefeso, por mais rebelde que seja o menino.

E em dois momentos filme nos faz beirar às lagrimas quando as cenas se expandem para um formato mais casual, mas que rapidamente retornam ao original. A segunda, diga-se de passagem, é o melhor momento do filme e que, confesso, me peguei secando os olhos durante a projeção. Uma passagem que mostra a ideia de fuga da protagonista em imaginar um filho adorável e com um futuro promissor. É forma de sobrevivência da mulher: fantasiar um jovem que não faz – e nunca fará – parte de sua realidade. Falo, sem exagero nenhum, que trata-se de uma das cenas mais belas que minha curta vida de cinéfilo já registrou.

Isso sem falar da trilha inspirada que o filme possui. Além da aula de direção de fotografia, digna de todos os prêmios, de André Turpin, criando cenas desfocadas; uma colorização levemente amarela; filmando personagens através de superfícies transparentes e, lógico, pelo formato. Una isso à edição de Dolan, com suas habituais mudanças de ritmos, e temos uma obra de emocionar até os mais céticos. Certamente o longa (com o perdão do trocadilho) é longo de mais e possui alguns tropeço leves que nada comprometem sua estrutura. Na verdade, se tivesse o hábito em dar notas para filmes, não extaria em dar a mais alta delas para Mommy. Guarde esse nome, Xavier Dolan, pois esse menino tem futuro.

sexta-feira, 13 de março de 2015

Crítica - O Sétimo Filho


Por Luis Ribeiro

O Sétimo Filho é um filme medíocre, com um potencial quase nulo e que não tem originalidade que sustente sua história. Muitas obras já tentaram se aventurar por universos que se espelham em O Senhor dos Anéis e na época em que bruxas e cavaleiros andavam junto aos humanos, mas pouquíssimos tiveram a mesma veracidade ou entusiasmo para conseguir uma legião de fãs décadas a fio.

Thomas Ward (Ben Barnes) é o sétimo filho de um sétimo filho e tem a missão de seguir um caçador de feitiços, John Gregory (Jeff Bridges). O primeiro servirá como ajudante depois de Gregory ter perdido o seu último para a temível rainha das trevas, Mãe Malkin (Julianne Moore), uma bruxa muito poderosa que foi aprisionada por muitos anos, mas que agora tem sede de vingança contra a humanidade.

A história parece familiar? Não há nada de original neste projeto, trata-se de mais um material fraco de um mundo fictício, com personalidades irreais e acontecimentos incríveis. Entretanto o mínimo que se espera de uma projeção como está é uma parcela de diversão, pois ficar duas horas vendo um material raso precisa ser recompensado com algum tipo de entretenimento de qualidade. Nem isso O Sétimo Filho consegue fazer.

O espectador se verá num mundo em que tudo já foi feito (porém, com mais qualidade por outras pessoas) e que tudo tende para o monótono. O roteiro não empolga, não é interessante, os personagens são tediosos e as cenas são sonolentas. Um trabalho preguiçoso de todos envolvidos.

Quem dirige é Sergey Bodrov, que não tem a menor noção de ritmo ou de criatividade. Junte isso com um roteiro cheio de furos de três (sim, três) roteiristas: Charles Leavitt, Steven Knight e Matthew Greenberg e teremos uma as experiências mais sem graças dos últimos meses. Perceba que tudo presente no filme é corriqueiro. Um menino com uma vida chata é chamado por um ancião que lhe promete aventura, o jovem vai de bom grado sem fazer nenhuma pergunta. Aos poucos o garoto descobre sua importância na trama e precisa treinar avidamente para ser digno das proezas que virão. Óbvio que ele terá apenas alguns dias para efetuar esse treinamento e evidentemente obterá êxito, antes que algum evento, envolvendo a Lua, aconteça.

Como se não bastasse tem-se uma série de elementos narrativos que são extremamente desinteressantes, mas que a obra faz questão de dar espaço. O amor impossível entre um protagonista e um suposto antagonista, um objeto valiosíssimo que pode mudar o destino de todos e, claro, a imensa caminhada até uma montanha (sempre uma montanha).

Também temos a prova de que se um filme tem no elenco o nome de Ben Barnes é porque devemos manter distância. Não que o rapaz seja mau ator, mas ele não compõe um personagem interessante ou mesmo preocupado com que irá acontecer, apenas deixa com que tudo ocorra sem que nada realmente o afete. Já Jeff Bridges e Julianne Moore não arrancam suspiros de ninguém, é bem óbvio que foram para o set apenas trabalhar. Ninguém, na verdade, parece realmente interessado em fazer este filme.

Note que o roteiro é preguiçoso com a própria história. Em um momento o aprendiz sente um repentino remorso em eliminar uma criatura das trevas, mas minutos depois ele o faz com uma enorme facilidade. E apesar de o sétimo filhos ser o sétimo filho de um sétimo filho, isso parece não ter a menor importância, pois não existe um motivo realmente relevante par a presença deste título. Isso sem contar da lição de moral que filme quer passar de que os seres humanos são os verdadeiros monstros das sombras, algo que é abandonado depois da metade da projeção.

Entretanto, nada é mais incógnito que o desfecho. Pois vários seguidores da feiticeira líder surgem. sabe-se lá de onde (algo que lembra muito O Aprendiz de Feiticeiro), para a batalha, mas são derrotados com imensa facilidade, fazendo com que suas mortes sejam realizadas sem nenhum impacto, tampouco emoção.

Por mais que os efeitos visuais sejam agradáveis (apesar de algumas cenas serem de dar pena, a morte de uma personagem que se desintegra em papel laminado) e o 3D não prejudicar a qualidade de imagem, é um fato que tudo está a serviço de um filme ruim e desinteressante. Talvez a melhor coisa em O Sétimo filho é que ele é completamente esquecível.
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