quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Crítica - Jogos Vorazes: A Esperança - O Final


Por Luis Ribeiro

Quatro anos para a conclusão de uma saga relativamente pequena, mas que não só começou com grande qualidade, como também foi amadurecendo com cada filme feito. Se o original, comandado por Gary Ross, não tinha a menor ideia do potencial dessa franquia, mas ainda sim é um trabalho competente, é nas sequências que tudo toma forma. Em Chamas, de 2013, foi um trabalho espetacular de Francis Lawrence na direção do projeto, foi neste filme que o teor político e as ideias da autora tomaram um rumo muito mais pesado e sério, por isso acho até incorreto referir estes trabalhos como infanto-juvenil. A história de Suzanne Collins têm vária referências da história grega e romana; o famoso “pão e circo” está aqui. É curioso que Jogos Vorazes seja um filme pós-apocalíptico e ter sua estrutura voltada ao temas da história da humanidade.

A fagulha foi acesa em Em Chamas, mas A Esperança – Parte 1, 2014, foi um trabalho primoroso e lastimavelmente necessário para as várias nações do mundo, pois a frase “Não esqueça de quem é o verdadeiro inimigo” nunca foi tão necessária quanto aos tempos de hoje. Certamente, esta franquia de blockbusters consegue chegar a um nível que poucos filmes populares conseguiram: é boa o suficiente para se chamada de arte.

É fato que este último capítulo não chega a ser tão grandiosos quanto seus antecessores, mas mesmo assim é um filme correto, com ritmo e bastante coerência, que por si só são grandes qualidades. Porém “o final épico” decididamente não se atribui.

Lawrence é quem novamente comanda a empreitada, começando do exato momento em que o filme anterior se encerrou. O diretor é bem autoral, além de saber dosar as sequências de ação que chegam a ser sufocantes de tensão e usar bem os recursos da pós produção sem que eles soem exagerados, porque sutil o filme não é em momento algum. Ainda sim, o cineasta, constrói momento belos que também são características de seus filmes – nunca um beijo ao fim de uma chacina foi tão cabível. Lawrence pensa nos personagens e pensa como eles, então dá espaço para que todos tenham seus momentos e dá a chance de mostrar que nada e ninguém está ali por acaso. Mesmo assim ele peca ao transformar mortes significativas em cenas banais e acontecimento sem impacto, com exceção, é claro, do desfecho.

A relação de Katniss com Petta é o centro de toda história e embora exista um triângulo amoroso entre os protagonistas ele é muito pano de fundo e não se torna melodramático. O interessante é que tanto Collins quanto Lawrence prezam pela identidade de cada um e mostram isso pela forma com que Snow afetou suas vidas e como está afetando na batalha. Por isso essa união entre os heróis é tão preciosa, não é sentimentalismo barato, vai muito além disso.

A guerra feita no filme é bem presente e os personagens sentem a dor das mortes e dos distritos estarem atacando seus irmãos e aliados, portanto a empatia é algo que foi pensado tanto no livro (quem leu saberá) quanto no filme. Por isso é que Peeta (Josh Hutcherson em sua melhor performance até agora), enganado pela capital, se transforma em uma ameaça para um grupo que se recusa a deserta-lo; convivendo com o inimigo, por assim dizer.

Mas talvez James Newton Howard tenha sido um pouco invasivo em suas composições que são boas, mas não se engane, podem soar teatrais demais para um filme tão popular. Algo curioso, já que ao compor a canção do filme anterior ele demonstrou preocupação com o encaixe na trama. E embora Jennifer Lawrence não faça sua performance vocal neste episódio, ainda assim brilha em seu desempenho. A jovem atriz tem uma enorme noção de coordenação de expressões e consegue perfeitamente transmitir seus sentimentos apenas por sutis mudanças de olhares, é no desfecho que toda a dor que Katniss sofreu ao longo dos anos é posta para fora em um momento onde a moça se entrega completamente a sua performance. Todos os méritos a Jennifer não são exageros.

Liam Hemsworth, Donald Sutherland, Sam Claflin e Elizabeth Banks também se saem bem em seus papéis. O destaque é para Julianne Moore, novamente ótima como a presidente da revolução e com uma carga dramática enorme quando lembramos de seu passado. E podemos chorar por Philip Seymour Hoffman ao saber que será a última vez que o veremos nas grandes telas, uma perda imensurável e que o filme teve elegância na condução.

E mesmo finalizando a franquia com uma maquiagem digital medonha para envelhecer os personagens, Jogos Vorazes: A Esperança – O Final está longe de ser um filme ruim, pois tudo funciona como deveria e ainda carrega uma mensagem valiosa para todos os espectadores, portanto é preciso assisti-lo com atenção e categoria, absorvendo com calma cada metáfora que o filme nos trás. Embora não seja nada muito primoroso e longe da perfeição, Jogos Vorazes conseguiu ser uma franquia de grande sucesso e ainda trazer qualidade para seus projetos, e tendo visto as demais sagas atuais, isso é muita coisa.

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Crítica - 007 Contra Spectre


Por Luis Ribeiro

Em 23 filmes da franquia, foram poucos aqueles que conseguiram trazer integridade ao projeto do espião a serviço da Rainha, falo isso tanto quando me refiro aos trabalhos de diretores e roteiristas que foram responsáveis pela feitura dos projetos, quanto aos atores que tiveram a chance de dar vida ao espião. Em ambos os aspectos, a última geração foi a que mais se destacou no quesito veracidade, viabilizando algo concreto para o espectador e mantendo a identidade de Bond em todos os projetos. Portanto, dê-se o mérito devido a Daniel Craig, que brilhou em cada cena que interpretou Bond, sendo o melhor de todos até hoje. Aqui o que o que foi abordado é o passado conturbado do agente e mais sua personalidade como ser humano, enquanto que Skyfall esta temática foi explorado com perfeição, é em Spectre que encontramos os furos do roteiro em manter esta sequência meramente cabível.

Spectre não é uma tragédia do gênero (não como o pavoroso Quantum of Solace, um dos piores ao longo de 50 anos), mas se transforma em algo muito menos interessante quando comparado com seus antecessores, e soa ainda mais triste em sabermos que este será o último filme estrelado por Craig e comandado por Sam Mendes.

Mendes, que por sinal, ainda se mostrou um diretor competente ao realizar um filme com tanta magnitude. E seu trabalho magistral em Skyfall deve ser ovacionado, o mesmo não se repete na sequência. Isso porque o cineasta peca em trazer algo novo para o projeto. As cenas de ação continuam muito bem orquestradas e superiores a grande maioria vista atualmente, mas não chegam nem perto daquelas feitas no filme anterior. O espectador vai assistir a um filme de mais de duas horas sem que nada de novo lhe seja oferecido, parecendo, certamente, que aquilo já foi visto várias vezes.

E mesmo sendo aberto com uma cena deslumbrante de plano sequência, em meio ao Dia dos Mortos, no México, onde a câmera acompanha o heróis por meio a multidão (com uma caracterização do cenógrafo Dennis Gassner e dos diretores de arte Andrew Bennett e Mark Harris que merece ser aplaudida em pé), dentro de prédios, encima de terraços e atravessando janelas, a primeira cena ainda pode soar presunçosa e até um pouco exagerada para os mais exigentes; ainda mais quando procedida pela abertura que reuni os vilões de todos os filmes anteriores da geração, de fundo a canção “Writing's On The Wall”, nem de longe primorosa, mas não decepcionante.

Hoyte Van Hoytema é quem mais se destaca na equipe técnica, não só pro fotografar lindamente os cenários que os personagens visitam, mas por compor uma apresentação do vilão como um tom enigmático e que referencia o perigo, pois o silêncio que toma conta da cena é de uma tensão absoluta, poucos pensariam em uma estratégia tão elegante e tão comum para inserir em uma das tomadas chave do projeto.

E se Mendes não trouxe inovação, tampouco grandeza ao projeto, o mesmo diz do roteirista chefe John Logan (auxiliado por Neal Purvis, Robert Wade e Jez Butterworth) em apostar em elementos novelescos ao escrever o roteiro, uma vez que a inveja do irmão biológico para o irmão adotado é considerado algo minimamente interessante para originar um roteiro bilionário, isso sem contar a morte forjada de um dos personagens somente para alimentar o drama e os clichês.

“Clichê”, inclusive, é uma palavra que define perfeitamente o personagem de Christoph Waltz, que, novamente, surge prosaico e cheio de maniqueísmo para compor seus típicos vilões, tem seu talento quase que anulado por ser um antagonista que não oferece nenhuma relevância ou perigo até o último ato da trama. E fecha sua participação da forma mais caricata possível, algo envolvendo seu rosto que remete a qualquer vilão dos desenhos animados das últimas décadas.

Mas reforço de que Craig rouba a cena, isso vem sendo provado desde que arrumou suas abotoaduras enquanto um trem explodia a poucos metros de distância. Embora aqui, nada de novo e de desafiador tenha lhe sido oferecido. Bond, agora, precisa lidar com os fantasmas do passado, inclusive seus amores. Esta é a deixa Léa Seydoux na produção, muito bem em sua performance, mesmo que seja apenas para tomar o lugar de Eva Green que foi deixado após sua morte no excepcional Cassino Royale.

E de novo o roteiro se torna problemático ao quando vemos que um tempo considerável do filme é dedicado aos problemas da organização comandada por “M” (o sempre ótimo Ralph Fiennes), não que seja desinteressante, mas poderia ser facilmente retirada que nenhuma grande perda seria sentida. Além de inserir um capanga sem identidade que não tem motivações próprias.

Muito embora Spectre soe formulaico e funcione como o fim de uma grande quadrilogia, não se trata de um filme ruim, irá agradar até os fãs mais devotos da franquia, mas é uma pena que tenha sido encerrada desta forma, basta torcer para que os novos filmes que virão consigam manter acesa a chama reavivada da melhor maneira do agente secreto mais famoso do cinema.
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