quinta-feira, 30 de abril de 2015

Crítica - Vingadores: Era de Ultron


Por Luis Ribeiro

O trailer era bárbaro. Um silêncio ensurdecedor tomava conta do vídeo para dar espaço aos diálogos marcantes do antagonista que revela uma citação direta ao clássico de Disney, Pinóquio, só que bem mais macabra desta vez. Além disso, o filme já começa com um belo plano sequência dos protagonistas revelando seus dons e já saberem como usá-los para trabalhar em equipe. Logo se vê que a expectativa não era pequena e é fato que foi frustrada de diversas formas ao completar a sessão.

Unidos novamente, Os Vingadores já se tornaram ícones em todo o globo por seus feitos e após terem salvado milhares de vidas da destruição iminente há alguns anos. E, após recuperarem o cetro de Loki dos agentes remanescentes da Hidra descobrem, acidentalmente, o segredo para a Inteligência Artificial através do objeto. Deste material que nascerá Ultron, uma espécie de consciência que foi criada para salvar a humanidade, porém esta interpreta que para isso é necessário extingui-la, à começar pelos Vingadores.

Temos, de fato, uma premissa interessante e que mostra uma evolução do roteiro do primeiro trabalho para este. Enquanto o primeiro se baseava apenas em apresentar seus heróis para que estes parecessem o mais carismáticos possível e mostrando cenas de batalha que pareciam ser dirigidas por um certo diretor que faz filmes de robôs gigantes, aqui é proposto algo mais conceitual e próspero para debates.

Joss Whedon e companhia escrevem novamente o roteiro. Como já dito, exploram algo muito mais intelectual dentro do possível, para parecerem imparciais. Algo que não é um defeito, embora possa incomodar alguns personagens parecerem extremamente influenciáveis por frases bonitas e audíveis como música para justificar atos irresponsáveis (como o caso de Bruce Banner). Entretanto, é bem óbvio que existe uma maturidade e consistência da parte dos roteiristas nas escolhas de temas.

Uma prova seria que tem-se uma material mais pessoal do heróis, ou seja, existe um perigo direto a eles, uma vez que toda a burocracia governamental extremamente chata da S.H.I.E.L.D foi finalmente abolida (em parte). Claro que o enredo ainda sofre com a forma de a Marvel criar seus filmes dependendo de um contato razoável do material em quadrinhos, pois só assim essas adaptações podem ter algum mínimo sentido quando analisadas à longo prazo.

E se Whedon mostra-se um roteirista competente nesta sequência o mesmo não pode ser dito de sua direção. Ele usa os mesmo artifícios do primeiro filme nas cenas de ação que não podiam ser mais decepcionantes. Repare na esperada batalha entre Homem de Ferro e Hulk. É tão rápida e mal conduzida que não possui presença alguma, poderia facilmente ter sido retirada que nenhuma diferença faria no resultado final.

Esses excessos são tropeços igualmente graves. A epifania de Thor é mal explicada; a lavagem cerebral feita pela Feiticeira não é de fato relevante em nada; o irmão da mesma surge apenas como um capanga que segue tendências do roteiro. Esse mutante (porque sabemos que ele é um X-Man), assim como todos os outros heróis, é descrito sem muito aprofundamento e seu destino, que deveria soar trágico, é perfeitamente esquecível e sem impacto (saudades Evan Peters). Mostrando mais uma vez a incompetência do diretor em conduzir tramas dramáticas também.

Fica visível esta falha no flerte entre Viúva Negra e Banner, ocupando espaço demais na trama e serve apenas como alívio dramático dos “Amantes Desafortunados”. Chega a ser curioso ver a personagem de Scarlett Johansson ter algum apelo amoroso concreto, pois em todos os filmes que é inserida ela é constantemente posta para seduzir os heróis, já que quase 10 anos depois do primeiro filme de um dos Vingadores ser lançado ela continua (até o momento) sendo a única mulher a integrar o time.

Porém, se tem algo que Era de Ultron acerta é no antagonista, dublado e facetado esplendidamente por James Spader. O vilão nasce torto e mal formado com sua voz lembrando a de um demônio em filmes do gênero, deixando a música que canta ainda mais sinistra (embora não faça sentido ter sido inserida). Seus diálogos são baseados em algo que já ouvimos várias vezes, mas entregam uma boa originalidade de pensamentos.

Os Vingadores ainda parece não saber o filme que é. Pois apesar de engrandecer constantemente seus personagens, não faz o mesmo com seu próprio material. Não é um trabalho memorável até para os menos exigentes. De fato, apenas investe em sua longa duração e sua tentativa inútil de fazer com que tenha-se espaço suficiente para uma quantidade absurda de heróis.

Apesar de Spader, como dito, tenha maior destaque, é inegável ver que Mark Ruffalo tenta, fisicamente, conter seu mostro através de sua postura e Robert Downey Jr. mostra que não está tão em forma para interpretar um personagem (que pessoalmente nunca achei bom ou engraçado) como o gênio Stark, algo notável pelo fato de qualquer coisa que envolva a Marvel no cinema estar diretamente ligada ao nome dele, devido a fama do ator. 


Era de Ultron é um projeto bem mais audacioso e consistente do que seu antecessor, mas peca em ser comandado por um diretor pouco inspirado e que se mostrou inapto em realizar um projeto de tamanha dimensão. Resta torcer para que a fase três da Marvel tenha ranços que favoreçam as adaptações, pois recurso é o que não falta.

domingo, 19 de abril de 2015

Crítica - Velozes e Furiosos 7


Por Luis Ribeiro

Nada, no mundo do cinema, é mais cômico do que ver um filme desta franquia. Tratam-se de filmes tão ridiculamente exagerados e que se não fossem levados tão a sério pelo público poderiam ser trabalhos de pura sátira. Mas vivemos em um mundo em que obras como essa são idolatradas, algo que seria engraçado se não fosse trágico. É triste ver como as pessoas se contentam com tão pouco.

Temos mais uma história de mocinhos e vilões, com cenas tão exacerbadas quanto absurdas. O curioso é essa parece ser a intenção dos realizadores ao compor a trama. Portanto, o roteiro – que já é uma besteira – consegue piorar muito com qualquer coisa que é jogada na tela com desculpa de ser parte do filme. As cenas de ação não tem a menor sutileza e são construídas de uma forma impossível de serem levadas a sério. Assim nasce mais um Velozes e Furiosos.

Por mais que a presença dessa saga atravesse gerações, não pode-se dizer que ela é de fato notória. Os filmes tem a cara de pau de copiar, sem o menor descaso, elementos de obras que realmente deram certo (Missão Impossível se aplica neste capítulo). Apostam em piadas vergonhosas que chegam a dar dó de quem as escreveu e de quem riu delas. Não preciso comentar que moralmente eles não são aceitáveis por suas situações racistas e machistas.

Logo no começo da trama, mulheres seminuas exibem seus corpos magros na tela para que todos os homens espectadores tenham algo com que se concentrar, além dos carros caríssimos. Os rostos dessas moças nem aparecem, somente seus atributos corporais e sua capacidade em satisfazer desejos puramente masculinos (como homens decidindo no pedra-papel-tesoura quem terá a garota). Atributo este que parece tomar cada vez mais conta deste universo. Assim com um negro fazendo uma piada sobre a cor da pelo dos negros.

Esse, possivelmente, é o filme com maior orçamento da franquia. Isso é bem visível, já que meia dúzia de carros milionários são destruídos sem nenhum motivo. Embora tudo isso custe muito caro, os personagens vestem os mesmo figurino mais de uma vez durante as filmagens. Curiosos, não é?

James Wan é quem dirige desta vez. O cineasta foi responsável por terrores de categoria (Invocação do Mal e Jogos Mortais), mas prova que basta ter um contato com o universo do Velozes para que qualquer talento seja exaurido do mais competente diretor. Wan parece sofrer da síndrome de Michael Bay, pois fez um filme em que se o espetador piscar acaba por perder uma explosão. Isso sem contar nos irritantes travellings circulares em qualquer cena de luta. Alguém poderia avisá-lo de que a câmera não precisa se mover em todas as sequências de enquadramento e que quanto mais cortes aplica-se a uma tomada frenética, mais confusa e falsa ela vai parecer.

Também é interessante notar que Velozes e Furiosos se aproxima do universo Marvel a cada filme que passa. Digo isso porque nos quadrinhos super-heróis, e suas adaptações, não existe plausibilidade nos personagens e na história, ou seja, todos morrem, ressuscitam, perdem a memória, a memória volta aos poucos e nada faz sentido perante a lógica de qualquer trama estruturada. Por isso, nós, meros mortais, vamos ao cinema e assistimos a cenas onde carros capotam um desfiladeiro inteiro e os passageiros saem andando sem nem estarem arranhados; explosões só matam os vilões, os mocinhos saem, de novo, sem o menor dos hematomas; pular de um precipício é uma hipótese aceitável e atravessar janelas não terá maiores consequências, afinal, haverá sempre um carro para amortecer a queda.

Velozes e Furiosos não tem o menor compromisso com a lógica, e neste sétimo capítulo parece estar menos preocupado em fazer algum sentido do que qualquer outra coisa. Na verdade, cria um tributo de mais de duas horas a Paul Walker .

Inegavelmente Walker nunca foi dos atores mais talentosos, porém é evidente que mais de uma década trabalhando com a mesma equipe, sua perda signifique algo. Portanto sua homenagem é sim honrosa, digna e bonitinha. Porque qualquer morte é uma tragédia e seu falecimento precoce afetou muito qualquer pessoa envolvida a ele. Reconheço que deve ter sido uma tarefa muito difícil continuar a trama sem um dos protagonistas. Por isso sou obrigado a admitir a elegância e competência dos realizadores em conseguir rodar o restante do filme de maneira extremamente convincente, já que é quase imperceptível (através do jogo de luz e câmera) notar que Walker não gravou todo o projeto.

Mas digamos que aqui nunca tivemos personagens muito relevantes. Mais uma vez o roteiro se mostra extremamente incompetente. Ninguém se importa nem um pouco com a sub trama de Michelle Rodriguez e sua perda de memória, sua atuação é tão ruim e pobre quanto o 3D do filme. Enquanto que Tyrese Gibson surge insuportável, como de costume. Admito, porém, a dedicação de Jordana Brewster, Nathalie Emmanuel e Kurt Russel em trazer algum ânimo e integridade para um mundo tão inexpressivo de Vin Diesel e Jason Statham.

Não nos esqueçamos das lutas – claramente inspiradas em MMA – onde os socos de chutes parecem não fazer efeito em ninguém, além do asfalto de abrindo em uma cratera numa cidade completamente desabitada. Tudo se completa quando uma personagem interrompe um processo de reanimação de outro (que atravessou três prédios e colidiu duas vezes de frente com carros reforçados) para fazê-lo acordar pela magia do amor. É de gargalhar alto.

É bem provável que os fãs da série se emocionem no desfecho da trama, que consegue estragar um encerramento lindo em uma praia para apostar em uma corrida final e com uma narração em off de Diesel falando frases bregas relacionadas à importância da família (até quando?) que estragam qualquer momento comovente que a direção teve e o trabalho de compor. Diesel ainda insinua um final para todos os capítulos da saga, mas todos sabemos que teremos, no mínimo, mais uma década de Velozes e Furiosos.
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