quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Crítica - Ida


Por Luis Ribeiro

Um dos grandes favoritos ao Oscar 2015, na categoria de Melhor Filme de Língua Estrangeira e vencedor de vários prêmios da crítica americana, além de menções em Toronto e Reterdã atende pelo nome de Ida. Um filme independente que chamou atenção por onde passou por sua visão inusitada.

A noviça Ana (Agata Trzebuchowska) está perto de realizar seus votos para se tornar uma freira, porém antes que isso aconteça a Madre Superiora (Halina Skoczynska) pede para que a moça tenha um encontro com sua tia, Wanda (Agata Kulesza), a única parente viva. Ao visitar sua mulher a menina entra em contato com seu universo e tem a chance de descobrir mais sobre o que aconteceu com seus pais e até sobre suas origens, começando por saber que seu nome verdadeiro é Ida.

Não se trata de nenhum trabalho memorável aqui, mas obviamente ele não foi ovacionado a toa, pois há grandes méritos a serem apontados para Ida. Sua direção é por conta de Pawel Pawlikowski (de Estranha Obsessão e Meu Amor de Verão) que, sem dúvidas, é muito autoral em seus projetos e muito ambicioso também. Ele tem uma característica que muitos cineastas deveriam aderir: a habilidade de transpor a essência de seu filme para a tela. Pawlikowski não perde tempo algum para apresentar a história e também não a preenche com cenas vazias e personagem aleatório, fazendo com seus filmes tenham uma duração curta (com menos de uma hora e meia), isso não só mostra que suas histórias são muito específicas como também demonstra sua objetividade para com a trama.

Ida conta com uma estética lindíssima. A fotografia em preto e branco é primorosa e necessária, pois todo o cenário é ambientado após a Segunda Guerra Mundial, nesta onde a Polônia teve uma participação importantíssima, mas que também deixou fragmentos e cicatrizes para sempre naquelas terras. Com a Grande Guerra recém acabara as pessoas ainda estão por se acostumar com os acontecimentos recentes, e o aspecto monocromático faz com que tenhamos a certeza de que se trata de uma época de grandes sofrimentos, ou seja, a ausência de cores simboliza a inexistência de felicidades para aquelas pessoas.

Do mesmo modo, o diretor optou por filme em num formato que se assemelha muito a um quadrado (um, belíssimo, 1.33 : 1) fazendo com que o espaço na tela seja menor e faz com que pareça que seus personagens estão presos em uma situação claustrofóbica, sem espaço para fuga. Não se respeita também a regra dos terços das filmagens e fotografias. Ou seja, os personagem e objetos em foco ficam bem abaixo das linhas de proporção, fazendo parecer que os cenários parecem estar em maior âmbito e com a impressão de que as pessoas na trama estejam sustentando, em seus ombros, todo este espaço e peso que é contexto histórico em que vivem. Com tal técnica é natural que a mise en scène seja afetada; não raro é o caso de vários objetos e pessoas parecerem incompletos ou com um enquadramento que não o posicione corretamente, tudo para dar mais ênfase à mensagem de desconstrução da trama.

Mas por mais belo que seja esteticamente o filme ele peca no desenvolvimento de personagens. Apesar de ser uma boa Wanda a personagem de Kulesza tem um aproveitamento muito óbvio. Ela sofreu com a morte da família, com as desgraças que a Guerra lhe causou e busca consolo na bebida, na vida boêmia e nos comentários imaturos e irracionais, além de ter uma antipatia com a primeira visita da sobrinha e sua ousadia de, apesar de tudo, ainda ser devota a Deus. Já Trzebuchowska, que em meio a tantas descobertas importantes e tantos conflitos internos de Ida, não consegue esboçar a menor marca de expressão, exceto em um jantar com suas irmãs, onde não segura um pequeno riso no convento tão rigoroso que poderia representar a postura que outrora ocupou o país.

E pouco impressiona o tato que o diretor tem com os debates religiosos, mostrando uma aspirante a freira ser seduzida por um músico angelical (e como que enfeitiçada desce as escadas que a levariam direto ao pecado e consequentemente ao inferno). Ou mesmo o desfecho pouco convincente das dúvidas que a noviça teria perante sua fé, mas que logo são sanados e jamais convencem o espectador sobre uma rápida e discutível epifania que se apresenta no terceiro ato da história, que tangia sobre o comentário de sua tia: Como chamar de sacrifício se elas não conhecem o prazer do pecado? Demonstrando uma total falta de conhecimento sobre a mentalidade das pessoas que entregam suas vidas a devoção, pois dá a entender que as freiras abrirão mão apenas dos relacionamentos carnais.

Ida tem uma boa estética, um ritmo contínuo e uma boa história, mas ainda sofre com a falta de moralidade e imparcialidade de um roteiro que não consegue saber de qual lado está. Porém, nota-se seu potencial e sua ambição em contar uma trama que tem seus momentos de aplausos e com um bom drama dos sobreviventes do maior conflito armado do mundo e as cicatrizes que este deixou para todos os envolvidos.
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