Adam Bell (Jake Gyllenhaal) leciona História em uma Universidade, levando uma vida pacata e monótona. Rua rotina se baseia em ir de casa para o trabalho e do trabalho para casa. Ocasionalmente ele se encontra com sua namorada, Mary (Mélanie Laurent), para terem relações sexuais. Um determinado evento leva a Adam a alugar um DVD de um filme, ao assistir a obra ele percebe e presença de um figurante chamado Anthony St. Claire (também Gyllenhaal) que tem exatamente o mesmo rosto que ele.
O contexto pode parecer corriqueiro e sem muitas novidades, mas são as resolução da trama que a tornam tão brilhante. Existe uma tensão imensa durante todo o filme que mergulha o espectador num pensamento aprofundado da mente conflituosa de um homem. Estes conflitos são apresentados de formas subjetivas ao público para que este tenha um livre entendimento do enredo.
Todo o filme é recheado de citações inteligentes que auxiliam na compreensão, não é por acaso que o projeto é aberto com a frase “Caos é a ordem ainda indecifrada”, pois ao final da projeção essa frase fará todo o sentido. Em seguida o protagonista nos trás uma menção ao comentário de Marx à Hegel sobre as repetições históricas: “a primeira vez, (repete-se) como tragédia; a segunda, como farsa”. Um assunto sobre as verdades da vida de Adam e sua relação com suas descobertas.
É a construção de ambos os personagens que é a alma do filme. Se Adam é um sujeito discreto, com um andar incômodo e de poucas palavras, Anthony é vaidoso, imoral e violento. Entretanto ambos levam vidas distintas. Adam é do tipo caseiro que daria um bom pai ele é visto em cena com Mary sempre na cama, durante ou depois do sexo. Enquanto que Anthony é quem espera um filho. E mais uma vez temos um fato que não é mero acaso, pois as personalidades distintas dos dois personagens é o segredo para a união destes. Adam tem medo do que descobriu e das consequências que aquilo pode tomar, tanto é que vive inquieto e esquizofrênico desde então. Já Anthony busca se aproveitar da situação que lhe foi apresentada, sem nenhum tipo de ética em seus atos.
O filme é repleto de cenários engrandecestes e um design de produção que fala por si só: o apartamento de Adam é escuríssimo e com poucas janelas mostrando a vontade do personagem em não ser notado. Repare o quão alto são os prédios da cidade silenciosa na qual o a trama se passa, acima destes edifícios encontra-se um céu coberto por inteiramente por nuvens e neblina representando, talvez, a própria mente dos protagonistas. Isto é, pensativa, calma e com uma ausência imensa de felicidade. Junte isso à fotografia amarelada de Nicolas Bolduc, mostrando um tom doente e saturado da vida dos homens.
A tensão presente em toda a trama é primorosa, muito disso é culpa da invasiva (no bom sentido) trilha de Daniel Bensi e Saunder Jurriaans, que nos apresentam acordes em instrumentos de cordas de doer os ouvidos, mas é uma dor necessária para o aprofundamento dos personagens. E pontualmente a cidade/mente receberá a visita das tão icônicas aranhas. E neste ponto, caro leitor, que mora a abundância de interpretações da trama. Em minha análise e de alguns textos que li a respeito, percebe-se uma ligação das aranhas com mulheres. Pois no início da projeção vemos mulheres se exibindo com símbolos sexuais à homens obtusos, na mesma sequência em que Gyllenhaal é o único que demonstra algum tipo de expressão, num momento que não sabemos se trata-se de Anthony ou de Adam e que é encerrado com a presença do aracnídeo. Em cenas que vemos um corpo nu de mulher, mas com a cabeça do animal. Ou a ligação do cartaz sexual do filme de 1958: O Ataque da Mulher de 15 Metros e a presença de uma aranha gigantesca andando silenciosamente pela cidade.
E aí está mais um prova da metáfora de cidade/mente do personagem, pois ele encara a criatura de oito pernas com um olhar acostumado, ou seja, é uma presença comum em seus pensamentos e por isso me atrevo a dizer que o aracnídeo pode representar o desejo carnal do protagonista, já que todas as aparições do animal têm relação com o corpo da mulher, exceto no momento em que ele a encara não como algo que lhe dará prazer, mas como a aquilo com quem estará junto naquele momento em diante.
E sobram símbolos em cena para representar a onipresença do aracnídeo, como o vidro quebrado de um carro, o olhar negro de um capacete e os cavaletes com várias pernas em um atelier. Mas nem tudo está explicado e cabe a cada um saber o que está assistindo. Por que aranhas? Será porque são predadoras e em muitas espécies as fêmeas alimentam-se dos machos? Se for, por que associar as mulheres a algo tão repugnante? São perguntas que o diretor Denis Villeneuve planta nas cabeças de quem assiste.
Villeneuve consegue fazer com que o espectador tenha suas dúvidas a respeito de Anthony e Adam serem ou não a mesma pessoa, e no decorrer de toda a trama é possível ter a resposta, mas ainda deixando um pulguinha atrás da orelha. Ele comanda o filme de forma magistral assim como já tinha feito nos excepcionais Incêndios (2010) e Os Suspeitos (2013). O cineasta é de fato muito autoral, seguro, calmo e cauteloso em tudo que faz, merecendo aplausos pelo seu desempenho; perceba como ele posiciona a câmera muito próximo do rosto dos personagens e como planos fechado, tetos baixos e locais estreitos dão um tom de claustrofobia ao ambiente. Entretanto nem todos os méritos estão na direção, pois a obra é uma adaptação do livro do português José Saramago, com roteiro escrito por Javier Gullón.
E novamente Gyllenhaal se entrega aos personagens de corpo e alma, pois ambos são tão distintos que é muito fácil esquecer que trata-se do mesmo ator interpretando ambos. Dentre as mulheres, Mélanie Laurent e Sarah Godon, são superficiais propositalmente, pois o foco não é em nenhum delas e sim no que elas representam para os duplos. E o elenco fecha com a participação de Isabella Rossellini que com uma cena e um diálogo é capaz de causar murmúrios no cinema, pois sua aparição é crucial para a trama.
O Homem Duplicado é primoroso e genial, é o tipo de obra que toma conta da mente dos espectadores por dias a fio, não será surpresa se alguém disser que precisará rever o filme para entendê-lo, e neste caso não chega a ser um defeito. Uma vez que a trama não é longa, pois foi prezada a essência do projeto sem falar que os eventos são interessantíssimos. Portanto vê-lo uma dezena de vezes será nenhum sacrifício, mas uma tarefa enriquecedora e prazerosa.
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