domingo, 22 de fevereiro de 2015

Palpites para o Globo de Ouro 2016


Por Luis Ribeiro



Aos quase 90 anos do prêmio e segundo que irei comentar, finalmente coloco minhas apostas, meus favoritos e ainda decide por listar os indicados de cada categoria que ou não merecem nem a indicação (porém nem todas as categorias serão citadas neste último). Como não assisti a todos os curtas, só conferi algumas obras dessas categorias, não irei comentar sobre nenhuma delas, pois não acho justo dar meu parecer sendo que não pude assistir a todos os indicados em totalidade, uma grande pena e me dói ver a cerimônia e não poder comentar sobre estes trabalhos.

Serei breve em minhas explicações, já que comentarei sobre tudo na maior parte da entrega dos prêmios.

Vou disponibilizar a crítica de vários indicados para quem tiver interesse de ler minhas análises. Ficarei devendo as críticas de O Grande Hotel Budapeste, Sniper Americano e O Jogo da Imitação, desculpem por esse deslize. Segue abaixo os palpites.

Já faz alguns anos que a Academia mudou de cinco para até dez o número de indicados para Melhor Filme, algo que abomino completamente, já que os votantes parecem que precisam indicar esses filmes para todas as demais categorias, tirando a vaga de vários trabalhos realmente merecedores. Mas vou me ater somente aos indicados, que, como todos os anos, só 3 possuem uma pequena chance de ganhar. Os dessa vez são Birdman e Boyhood, e não desconsidere O Grande Hotel Budapeste. Como tenho uma admiração muito grande por Birdman e sou desses que vê problemas, mesmo que poucos, em Boyhood, aposto nA Inesperada Virtude da Ignorância.  O Grande Hotel Budapeste pode surpreender, já que a Academia pode ter ficado indecisa entre os dois favoritos e optar pelo terceiro.

Aposta: Birdman 

Torcida: Birdman
Não merece: O Jogo da Imitação

Melhor Diretor 

Alejandro Gonzáles Iñárritu (Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância) 
Richard Linklater (A Boyhood: Da Infância à Juventude: Da infância à juventude) 
Bennett Miller (Foxcatcher: Uma história que Chocou o Mundo
Wes Anderson (O Grande Hotel Budapeste)
Morten Tyldum (O Jogo da Imitação)

Ainda não entendi a presença de Miller nesta categoria, até porque seu filme não está entre os melhores (em ambos os sentidos), porém nada é mais inexplicável que a presença de Tyldum, tirando a vaga de Ava DuVernay (Selma) ou Divid Fincher (Garota Exemplar).Como Iñárritu ganhou o prêmio dos sindicatos, deve levar o Oscar para casa também.

Aposta: Alejandro Gonzáles Iñárritu 

Torcida: Alejandro Gonzáles Iñárritu 
Não merece: Morten Tyldum

Melhor Ator 

Steve Carell (Foxcatcher: Uma história que Chocou o Mundo) 
Bradley Cooper (Sniper Americano) 
Benedict Cumbertatch (O Jogo da Imitação) Michael Keaton 
(Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)) 
Eddie Redmayne (A Teoria de Tudo)

Michael Keaton e Eddie Redmayne é que estão no páreo, o resto vai para socializar. Francamente não consigo decidir entre um ou outro, ambos fantásticos em suas interpretações. O prêmio estará em boas mãos seja lá qual dos dois vença. Mas eu não descartaria um empate ou a possibilidade de Bradley Cooper vencer por ser a única surpresa que a Academia pode realizar na categoria por não decidir qual dos dois favoritos deve vencer. Estou sendo otimista, Redmayne é quem deve vencer mesmo.

Aposta: Eddie Redmayne 

Torcida: Eddie Redmayne... ou Michael Keaton! 
Não merece: Benedict Cumbertatch

Melhor Atriz

Marion Cotillard (Dois Dias, Uma Noite) 
Felicity Jones (A Teoria de Tudo) 
Julianne Moore (Para sempre Alice) 
Rosamund Pike (Garota exemplar
Reese Whiterspoon (Livre)

Nada vai ser mais cruel do que ver Julianne Moore vencer o Oscar por um filme tão ridículo quanto Para Sempre Alice. Falo isso porque a vitória de Moore é praticamente inabalável, mesmo que Marion Cotillard tenha ressurgido das cinzas e tenha uma chance - quase nula - de fazer com que esse prêmio seja dado para alguém que merece. Não me entendam mal, Julianne Moore é uma atriz formidável e já passou da hora de ela receber um Oscar, e pelo jeito os votantes também pensam assim, pois dariam o troféu por qualquer coisa que a atriz fizesse esse ano (foi o que aconteceu!). Ela vencerá pela carreira, mesmo que isso custe a vitória muito mais merecida de Rosamund Pike.

Aposta: Julianne Moore 

Torcida: Rosamund Pike

Melhor Ator Coadjuvante 

Robert Duvall (O Juiz) 
Ethan Hawke (Boyhood: Da Infância à Juventude) 
Edward Norton (Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)) 
Mark Ruffalo (Foxcatcher: Uma história que Chocou o Mundo) 
JK Simons (Whiplash - Em Busca da Perfeição)

JK Simons vai ganhar e merecidamente. Ponto!

Aposta: JK Simons 

Torcida: JK Simons 
Não merece: Mark Ruffalo


Melhor Atriz Codjuvante
Patricia Arquette (Boyhood: Da Infância à Juventude)
Laura Dern (Livre)
Keira Knightley (O Jogo da Imitação)
Emma Stone (Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância))
Meryl Streep (Caminhos da Floresta)

Alguma dúvida do prêmio de Arquette? Não morro de amores nem por ela e nem por sua atuação, muito menos pelo sua personagem. Na verdade, daria o prêmio para qualquer uma das outras indicadas (menos para Keira Knightley, claro). Como Meryl Streep já ganhou incontáveis vezes e Emma Stone, embora fantástica, ainda terá uma coleção de prêmios pela frente, votaria em Laura Dern por sua pequena, porém incrível, participação em Livre e sua carreira.

Aposta: Patricia Arquette 

Torcida: Laura Dern 
Não merece: Keira Knightley


Melhor Filme Estrangeiro
Ida (Polônia)
Leviatã (Rússia)
Tangerinas (Estônia)
Timbuktu (Mauritânia)
Relatos Selvagens (Argentina)

Aqui temos o caso habitual de um filme bom vencer de outros muito melhores do que ele. Ida é um filme muito competente: tem guerra, tem uma história tocante, uma fotografia de tirar o fôlego, é fácil para o público, tudo que a Academia adora. Mas qualquer um dos outros indicados seria um portador mais justo do prêmio. Leviatã conseguiu muitos boatos negativos em seu próprio país ele perdeu suas chances – que pena, o único que tinha chances também. Sou sul-americano então Relatos Selvagens tem meu apoio, apesar de Tangerinas ser para quem realmente torço.


Aposta: Ida
Torcida: Tangerinas


Melhor Animação
Como Treinar o Seu Dragão 2
Os Boxtrolls
Song of the Sea
O Conto da Princesa Kaguya

Uma categoria muito estranha este ano, já que nenhum dos indicados foi o grande vencedor de nada nesta temporada. Apesar de torcer pela vitória de O Conto da Princesa Kaguya, devo admitir que o bonitinho Como Treinar o Seu Dragão 2 é quem deve ganhar, pela covardia dos votantes em beneficiar os indicados de outras nacionalidades.

Aposta: Como Treinar o Seu Dragão 2 

Torcida: O Conto da Princesa Kaguya 
Não merece: Como Treinar o Seu Dragão 2


Melhor Roteiro Original
Alejandro G. Iñárritu, Nicolás Giacobone, Alexander Dinelaris Jr. e Armando Bo (Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância))
Richard Linklater (Boyhood: Da Infância à Juventude)
E. Max Frye e Dan Futterman (Foxcatcher: Uma história que Chocou o Mundo)
Wes Anderson e Hugo Guinness (O Grande Hotel Budapeste)
Dan Gilroy (O Abutre)

Os três roteiristas de Birdman eram os favoritos na categoria há algumas semanas, mas O Grande Hotel Budapeste ganhou certa força depois que Boyhood passou de favorito para um dos esquecidos. Um dos três leva, óbvio. Torço por Birdman, não me entristeço por O Grande Hotel Budapeste e, apesar de tudo, me alegraria por Boyhood.

Aposta: Birdman

Torcida: Birdman 
Não merece: O Abutre


Melhor Roteiro Adaptado
Jason Hall (Sniper Americano)
Graham Moore (O Jogo da Imitação)
Paul Thomas Anderson (Vício Inerente)
Anthony McCarten (A Teoria de Tudo)
Damien Chazelle (Whiplash - Em Busca da Perfeição)

O que tinha na cabeça dos votantes para indicar O Jogo da Imitação, A Teoria de Tudo e Vício Inerente eu jamais saberei. Apesar de o primeiro ser quase certo na vitória, ainda pode surgir Whiplash para salvar a noite. Embora seja um crime dar qualquer prêmio relacionado a roteiro para O Jogo da Imitação, nada supera a vergonha do Oscar de não ter indicado Garota Exemplar nesta categoria.

Aposta: O Jogo da Imitação

Torcida: Whiplash
Não merece: Qualquer um que não seja Whiplash...Ok! Sniper Americano também merece.


Melhor Fotografia
Emmanuel Lubezki (Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância))
Robert Yeoman (O Grande Hotel Budapeste)
Lukasz Zal e Ryszard Lenczewski (Ida)
Dick Pope (Sr. Turner)
Roger Deakins (Invencível

Emmanuel Lubezki ganhará seu segundo Oscar consecutivo esta noite? Esperamos que sim, mesmo que parte de mim queria ver Roger Deakins subir ao palco e conseguir o prêmio que já passou da hora de receber, mas me lembro que se trata de Invencível e me conformo. Fiquem de olho, O Grande Hotel Budapeste pode ser o Gravidade deste ano e vencer a maior parte das categorias técnicas.

Aposta: Emmanuel Lubezki 

Torcida: Emmanuel Lubezki


Melhor Edição
Joel Cox e Gary D. Roach (Sniper Americano)
Sandra Adair (Boyhood: Da Infância à Juventude)
Barney Pilling (O Grande Hotel Budapeste)
William Goldenberg (O Jogo da Imitação)
Tom Cross (Whiplash - Em Busca da Perfeição)

A categoria de indicados mais suspeitos do ano. Por que, diabos, Birdman não foi indicado? Me resta crer que Sandra Adair vença por Boyhood, embora goste muito do trabalho da editora neste filme, ficaria mais feliz se Tom Cross levasse o Oscar para casa, pois duvido muito que Barney Pilling seja o vilão da história de hoje.


Aposta: Sandra Adair 
Torcida: Tom Cross


Melhor Design de Produção
O Grande Hotel Budapeste
O Jogo da Imitação
Interestelar
Caminhos da floresta
Sr. Turner 

Quem será que irá ganhar? Quem respondeu O Grande Hotel Budapeste, acertou! Apesar de Caminhos da Floresta ser igualmente competente.

Aposta: O Grande Hotel Budapeste 

Torcida: O Grande Hotel Budapeste 
Não merece: O Jogo da Imitação


Melhores Efeitos Visuais
Capitão América 2: O Soldado Invernal

Interestelar deve ganhar seu único Oscar com o prêmio de consolação para um filme tão mediano. Mas Guardiões da Galáxia (espero que não) e Planeta dos Macacos: O Confronto (espero que sim) podem roubar esse prêmio. Quem sabe?

Aposta: Interestelar 

Torcida: Capitão América 2: O Soldado Invernal


Melhor Figurino
Milena Canonero (O Grande Hotel Budapeste)
Mark Bridges (Vício inerente)
Colleen Atwood (Caminhos da Floresta)
Anna B. Sheppard e Jane Clive (Malévola)
Jacqueline Durran (Sr. Turner)

Todas (TODAS) as mulheres estão de parabéns por seus trabalhos, e o único homem, Mark Bridges, já teve dias melhores. O problema desta categoria é que os indicados ,comumente, já tem uma coleção de estatuetas douras em casa. Colleen Atwood foi brilhante, Jacqueline Durran tem um talento invejável, mas o prêmio é da Milena Canonero, pela quarta vez.

Aposta: Milena Canonero 

Torcida: Milena Canonero


Melhor Maquiagem e Penteado
Bill Corso e Dennis Liddiard (Foxcatcher: Uma história que Chocou o Mundo)
Frances Hannon e Mark Coulier (O Grande Hotel Budapeste)
Elizabeth Yianni-Georgiou e David White (Guardiões da Galáxia)

A meu ver, quem quer que vença estará tirando o prêmio de J. Roy Helland (Caminhos da Floresta) ou de Rick Baker (Malévola). Como a maquiagem Foxcatcher causou polêmica e Guardiões da Galáxia usa e abusa de maquiagem digital, O Grande Hotel Budapeste (o que menos merece) deve ganhar este também.

Aposta: O Grande Hotel Budapeste


Melhor Trilha Sonora
Alexandre Desplat (O Grande Hotel Budapeste)
Alexandre Desplat (O Jogo da Imitação)
Hans Zimmer (Interestelar)
Gary Yershon (Sr. Turner)
Jóhann Jóhannsson (A Teoria de Tudo)

A dupla indicação de Desplat pode fazer com que suas trilhas se anulem ou que O Grande Hotel Budapeste vença mais uma (como deveria), mas não ficarei triste se Hans Zimmer, por exemplo, vencer também. O problema é que o favorito é Jóhannsson, com seu trabalho pavoroso em A Teoria de Tudo. Saudades GAROTA EXEMPLAR.

Aposta: Jóhann Jóhannsson 

Torcida: Alexandre Desplat (O Grande Hotel Budapeste) ou Hans Zimmer 
Não merece: Jóhann Jóhannsson


Melhor Canção Original
"Everything is awesome", de Shawn Patterson (Uma Aventura Lego)
"Glory", de John Stephens e Lonnie Lynn (Selma)
"Grateful", de Diane Warren (Além das luzes)
"I'm not gonna miss you", de Glen Campbell e Julian Raymond (Glen Campbell…I'll be me)
"Lost Stars", de Gregg Alexander e Danielle Brisebois (Mesmo se nada der certo)

A Academia vai ser obrigada a dar o prêmio para Selma, caso contrário ela será ainda mais criticada. Não será injusto, pois nenhum dos outros nomeados tem um potencial tão grande quanto Glory, muito menos Everything is Awesome (tão irritante quanto Happy do ano passado).


Aposta: Glory
Torcida: Glory
Não merece: Everything is awesome


Melhor Edição de Som
Alan Robert Murray e Bub Asman (Sniper Americano)
Martín Hernández e Aaron Glascock (Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância))
Brent Burge e Jason Canovas (O Hobbit: A Batalha dos Cinco Exércitos)
Richard King (Interestelar)
Becky Sullivan e Andrew DeCristofaro (Invencível)

Pensei que Godzilla fosse ser lembrado nesta categoria. Acredito que Sniper Americano não recebeu tantas indicações a toa, o prêmio deve ser dele. Caso não, Birdman será o vencedor.

Aposta: Sniper Americano 

Torcida: Birdman 
Não merece: Interestelar


Melhor Mixagem de Som
John Reitz, Gregg Rudloff e Walt Martin (Sniper Americano)
Jon Taylor, Frank A. Montaño e Thomas Varga (Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância))
Gary A. Rizzo, Gregg Landaker e Mark Weingarten (Interestelar)
Jon Taylor, Frank A. Montaño e David Lee (Invencível)
Craig Mann, Ben Wilkins e Thomas Curley (Whiplash - Em Busca da Perfeição)

Sniper Americano não deve vencer duas categorias, acho que uma já irá bastar para os votantes. Birdman precisa ganhar melhor Mixagem. Whiplash também. Por que não um empate?

Aposta: Birdman 

Torcida: Birdman ou Whiplash


Melhor Documentário
O Sal da Terra
CitizenFour
Finding Vivian Maier
Last Days
Virunga

Gosto de todos. De novo, meu lado latido fala mais alto para O Sal da Terra (mesmo sendo uma produção alemã também). Óbvio que CitizenFour é igualmente incrível. Deve ganhar. Por favor, assistam aos documentários.

Aposta: CitizenFour 

Torcida: O Sal da Terra


Melhor Curta Documentário
Crisis Hotline: Veterans Press 1
Joanna
Our Curse
The Reaper
White Earth

Aposta: Joanna


Melhor Curta
Aya
Boogaloo and Graham
Butter lamp
Parvaneh
The Phone Call

Aposta: The Phone Call


Melhor Curta Animado
The Bigger Picture
The Dam Keeper
Feast
Me and My Moulton
A Single Life

Aposta: The Bigger Picture


Mandarei o link para os comentário, ao vivo, em breve na página no Facebook e no Twitter!

Bom Oscar para todos!

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Crítica - Selma – Uma Luta Pela Igualdade


Por Luis Ribeiro

Com medo de todos os anos de parecer racista, a Academia indica quase que todos os anos um filme sobre temática racial e assim ter uma boa reputação com todas as classes. Apesar deste ano Selma ter sido indicado a Melhor Filme e Melhor Canção Original, todos os atores, diretores e roteiristas de suas respectivas categorias são brancos, fazendo esse o Oscar mais “albino” desde 1998. Por mais que essa visão seja meio cotista é inegável que várias produções, que receberam nomeações, eram horrorosas (como Crash – No Limite (2004), Um Sonho Possível (2009) e Histórias Cruzadas (2011)), mas outras tiveram seu mérito reconhecido (como o bom 12 Anos de Escravidão (2013), Mandela (2013), A Cor Púrpura (1985)). Selma é um dos esnobados que merecia mais reconhecimento por tratar deste tema com tanta veracidade.

Martin Luther King, Jr (David Oyelowo) é um pastor ativista que organiza passeatas em busca dos direitos dos negros nos Estados Unidos. Ele motivou os manifestantes a realizar histórica marcha da cidade de Selma, Alabama, até a capital do estado, Montgomery, a fim de conseguir o poder de votos para a comunidade negra.

Não se trata da obra memorável e jamais se tornará um fenômeno por sua modesta forma de produção, mas tem-se aqui uma trama sobre um episódio importantíssimo na história de igualdade (como o subtítulo teve que explicar) entre brancos e negros. Portanto você não verá o emocionante discurso de King, I Have a Dream, que apesar de ser tentador coloca-lo, o filme mostra maturidade em apenas focar na passeata. Que por si só já uma enorme comoção.

Nada na projeção é revolucionário, não há nenhuma ousadia ou questões que poderia gerar polêmica (como a presença de J. Edgar, mas nunca se aprofundando nas questões comunistas que este repudiava). Talvez essa falta de ambição seja o maior problema de Selma. É desapontador ver uma história tão importante sendo feita com tanta simplicidade, mas de forma alguma diminui o impacto que ela deve ocasionar nos expectores. Ava DuVernay (diretora) e produzido por Brad Pitt (e por sua produtora que está com um enorme interesse em realizar filmes com temáticas sociais), mostram-se escolhas certas para a realização do projeto. Seria fácil, para fazer as lágrimas escorrerem dos olhos de brancos nas poltronas, fazer um filme melodramático e com forte tonalidade de pena. Porém, é entregue algo para materializar a força dos negros na sociedade, algo que eles lutam até hoje e que devem se orgulhar por nunca precisar de um branco (como Lincoln e Histórias Cruzadas sugerem) para dar voz a esse povo.

O filme tem momentos banais? Sim. Lógico que não poderiam faltar os textos na tela para criar um aspecto documentado e o habitual close nos personagens acompanhado das frases que falam o que aconteceu depois de tal episódio. Tudo compensando com um roteiro correto de Paul Webb que não arranca clichês que estariam presentes em projetos mais covardes e realizados por brancos.

A competência de DuVernay é inegável por manter o nível e não criar vilões específicos na trama. O preconceito é o problema, que piora com os ignorantes que o segue por um motivo ou por outro. E por mais que brancos tenham se juntado à causa negra, nenhum deles é visto como um herói para salvar a população de cor, porque ela não precisa disso. A diretora ainda é madura o suficiente para não colocar Pitt em lugar nenhum para chamar a atenção para a bilheteria e usou Oprah Winfrey (também produtora) quase que como figurante em uma das cenas mais brilhantes do filme, onde sua personagem tenta fazer o título de eleitor e o responsável inventa um documento para que a mulher não o faça; uma passagem rápida que tive uma imensa vergonha de alguém de minha cor já tenha se comportado de tal maneira e achar que isso era normal.

Oyelowo é a melhor coisa de todo o filme, com uma atuação controlada e complexa para não fugir do personagem. Ele capta perfeitamente os consentimentos de King e sua total passividade (não confunda com conformidade) em meio a tantos absurdos que presencia. Note que ele não chora e não perde a força em nenhum momento, na verdade, realiza discursos inspiradores para todas as comunidades. Oyelowo ainda se vê numa postura racional ao encarnar um homem religioso que vê com maturidade o que a Bíblia prega e não culpar um ou dois brancos pelos crimes que cometeram, pois o culpado é o Estado que os faz agir de tal maneira. Um exemplo de homem e sua posição em relação à política.

Tom Wilkinson vive o presidente Lyndon B. Johnson que, segundo historiadores, é vivido de maneira errada, já que na trama ele reluta várias vezes por ajudar nas causas, mas na realidade ele sempre foi um grande apoiador da mesma. O governador de Tim Roth, George Wallace, também merece destaque por sua posição perante aos negros por vê-los como desordeiros que não sabem seu lugar, ele representa o preconceito atual que possui uma visão muito semelhante. O elenco ainda conta com uma ensossa Carmen Ejogo, como uma esposa desconfiada e pouco presente do ativista, Giovanni Ribisi e Cuba Gooding Jr. fazem suas contribuição também.

Em questões técnicas nada arranca os suspiros, mas o figurino é competente e a fotografia também não deixa a desejar, pois o enquadramento de câmera vista de cinema e a forma com que os personagens negros ficam de costas representa tanto que estamos o seguindo quanto eles não terem identidade em tal época. De fato, o melhor de tudo é inspirada canção Glory, composta por John Stephens e Lonnie Lynn, com seu ritmo contemporâneo que tangem bem tanto aquela como esta época em que vivemos, além de um letra emocionante.

Selma é um bom filme informativo e uma história necessária para vermos cenários que eram reais há poucas décadas e que em momento nenhum entrega algo que nos faça sentir pena dos negros e de todos que morreram por seus direitos, contrastando ainda com a maneira ridícula que o negro é tratado na sociedade atual, não muito diferente do que há poucos anos. Essa é uma luta que ainda não está vencida e a igualdade é o prêmio. É triste que em uma época tão atual, as pessoas, cegas por cotas e coisas assim, não vejam a importância que os negros tiveram para a nossa formação como seres humanos.

sábado, 14 de fevereiro de 2015

Crítica - Cinquenta Tons de Cinza


Por Luis Ribeiro

Lembram de Crepúsculo? Aquele filme independente lançado há poucos anos, que foi uma adaptação de um livro horrível e que ainda teve mais 3 medonhas sequências? Aquela história de vampiros românticos e lobisomens pedófilos, cuja protagonista se via num debate interno em saber a qual dos homens ela deveria “servir”? Bom. Realmente pensei que não encontraria uma autora tão machista quanto Stephenie Meyer, mas me enganei, pois o nome de E.L. James leva este assunto a proporções absurdas naquele que foi o pior livro que já tive acesso à leitura. James (me recuso a chamar esta mulher de escritora), além de não ter a menor ideia de como se discorrer um livro, já que parece uma adolescente de 14 anos redigindo um conto sobre um vídeo que viu na internet, ainda consegue criar uma história tão ridícula quanto o filme que, por algum motivo (aposto no dinheiro), alguém se interessou em fazer.

Anastasia Steele (Dakota Johnson) teve de substituir a amiga, Kate (Eloise Mumford), em uma entrevista que faria com o enigmático Christian Grey (Jamie Dornan). Este encontro gerou um relacionamento entre o casal e depois que ambos já se conhecem razoavelmente, Grey abre o jogo sobre seu apetite sexual, que envolve o sadomasoquismo, para a moça.

Temos aqui mais um caso clássico de literatura que não teve uma adaptação para salva-la, pois trata-se um projeto repugnante e que devia ser proibido pela forma com que trata a protagonista. Sua autora é um exemplo que vive e anda de que existem mulheres que se rebaixam aos pés dos homens em pleno século XXI e acham isso correto, na verdade, qualquer apreço a esta obra estaria, indiretamente, concordando com a posição feminina imposta por ela.

E o problema central é o sadomasoquismo, insistente em seu papel de tentar fazer com que a personagem feminina parece estar fazendo por vontade própria o que Christian lhe pede, ou melhor, ordena. Não existe uma cena onde não fique claro que Anastasia está presente somente para satisfazer os prazeres de seu “macho alfa”, sem nenhuma menção ao prazer da moça, nota-se isso na cena em que Christian simplesmente decide tirar a virgindade de moça (o porquê disso ser um problema eu não sei) e ela aceita as condições do parceiro. É risível a maneira com que o filme e o livro tratam disso. A começar por haver um contrato que baseia toda a relação do par, o artefato que por si só já esdrúxulo e vulgar, mas que é elaborado com uma enorme elegância para fazer parecer viável. Ao assinar a papelada, Anastasia Steele (um nome que soa muito com de alguma estrela pornô) estaria esfregando na cara do leitor/espectador de que este relacionamento com Christian é melhor do que relacionamento nenhum, algo que qualquer mulher, em seu pleno juízo, recusaria, ainda mais quando seu papel se baseia em dar prazer ao homem que lhe agredirá e a reposta deste para o que ela ganharia com isso é um simples “Eu”.

E só o fato de o personagem de Grey existir já é um motivo de ódio profundo, vê-lo encarnado é um ultraje sem tamanho. Um bilionário, de vinte e tanto anos, alto, charmoso, inexpressivo, egocêntrico e com um passado obscuro (parece familiar?), que se cerca de mulheres brancas e magras e que ainda tem uma frase que lhe define: “Primeiramente, eu não faço amor, eu fodo e com força!”. Que mulher não assinaria um contrato com ele? Contrato este a obriga a não beber, praticar exercícios para ficar mais sexy, se depilar, usar roupas ousadas e fazer tudo que o dominador mandar (TUDO). São tantos argumentos que representam o machismo em ambas as obras que dúzias de páginas seriam necessárias para descrevê-los.

E se comentei sobre Crepúsculo inicialmente, foi por um motivo. Ambos os personagens são extremamente semelhantes ao casal Bella e Edward (protagonistas de uma série que também não sei me orgulho de ter conseguido terminar, ou me envergonho pelo mesmo motivo). Bella é a garota pobre da faculdade, que não é bonita, completamente desinteressante e com pouquíssimos amigos, mas mesmo assim consegue chamar a atenção do rapaz mais desejado por todas as mulheres – porém nenhuma deles obteve êxito na tarefa, claro – e que oculta um segredo devastador de que ele mesmo se reconhece. Nada de novo, de novo.

Como se Christian Grey (sobrenome usado em Secretária (2002) sobre o mesmo tema de submissão e obediência, e que o primeiro nome do portador deste é Edward) não fosse ruim o bastante, encontraram perdido por aí um Jaime Dornan que não tem a menor vocação para ser ator. Ele possui um sorriso que não existe, mas que está sempre presente e usa isso para parecer mais perturbado, mas só consegue parecer mais incompetente com esta técnica que não domina. Óbvio que ele foi uma escolha realizada a partir da aparência, que nem é lá essas coisas. E se esse foi o critério para escolher o Sr. Grey, a escolha de Dakota Johnson foi porque ninguém mais queria fazer este papel. É possível ver um esforço da parte da atriz, que se faz completamente inútil em meio a um material tão precário.

O filme é ainda é acercado por premissas românticas tocas, pois em uma cena o protagonista fala que não se interessa por nenhum relacionamento casual ou qualquer coisa relacionada a isso, mas anda de mãos dadas e leva sua amada em seus braços até seus aposentos. Fazendo também com que a frase que tanto lhe descreve seja deixada de lado, pois se algo que as cenas “picantes” entregam é o tédio. Não existe a menor emoção em nenhuma passagem sexual, as cenas são cruas, desinteressantes e longe de serem algo relacionado ao BDSM, é tudo tão regrado e cheio de pudores (nudez somente feminina e superior, já trama resolveu ser conservadora, sabe-se lá o porquê.) e para fechar existem as canções compostas por Byoncé Knowles
, que entrega aos ouvidos algo parecido com músicas de um motel barato, o curioso é que a cantora já realizou obras de misandria, porém aceitou fazer a música deste filme sem nenhum problema.

Se existe algo que preste nesta produção seria a e fotografia, compostas por tons de cinzas (óbvio), embora deixe a experiência mais séria do que deveria, ainda entrega um formato interessante e cenas agradáveis ao olhar. O figurino se diz o mesmo, Mark Bridges (O Artista), é emblemático em colocar Anastasia com cores vivas e com roupas horríveis no início da projeção para representar sua liberdade e aos poucos ela migra para o monocromático, primeiro para o vestido vermelho envelhecido e depois para o preto e branco absoluto, além de não optar por lingeries em momento algum. Danny Elfman também entrega uma trilha correta e que ajudar a tornar mais suportável esta experiência.

Cercado de momento vergonhosos, com a mulher preparando o café do marido e a submissa esperando ajoelha na porta em busca de dar prazer ao seu opressor, Cinquenta Tons de Cinza não é só um dos piores filmes dos últimos anos, mas também um dos mais ofensivos que já foram produzidos recentemente. E.L. James não se contentou em manter sua história estúpida nas páginas, ela precisa vender os direitos para Hollywood. E por mais enfezado que me encontrei em analisar devidamente a obra, nada supera a revolta de ver mulheres, fãs, apreciando uma história e termos que, tomara, nunca lhes seja real.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Crítica - Caminhos da Floresta


Por Luis Ribeiro

Os musicais sofrem com a falta de público atualmente, já que são constantemente ligados a um filme tedioso onde os diálogos são apenas cantados e que por algum motivo é necessário ser uma mulher para não sofrer com o preconceito de apreciar este gênero. Curiosamente é preciso ser um devoto a arte do cinema para apreciar um bom musical em épocas em que eles estão entre as últimas opções das pessoas. Atualmente o cinema se contenta com adaptações de peças da famosa Broadway para compor seu arsenal, já que o teatro dá prestígio e quando uma peça deste tipo consegue um bom público e críticas positivas não tardará para que este espetáculo seja lançado em formato de filme. Recentemente cita-se o fenômeno Os Miseráveis (2012), sempre amado por todos, e este ano contamos com o aguardado Caminhos da Floresta, que pode não atrair tantos espectadores e afastar o elogios da crítica.

Quase todos os personagens dos contos de fadas estão presentes e de alguma forma as histórias se unem para que se complementem. Uma bruxa (Meryl Streep) precisa de certos itens para reverter a maldição que lhe foi lançada há anos, e para isso ela contará com a ajuda de um padeiro (James Corden) e sua esposa (Emily Blunt) para que o feitiço seja revertido e o desejo do casal seja atendido. Os itens – óbvio – fazem parte de histórias diferentes que ouvíamos quando éramos crianças, mas soa quase poética a dinâmica entre as tramas.

Já adianto que sou um ávido fã de musicais e me entristece muito quando vejo algum ruim (como Nine e Mama Mia!) ou mal aproveitado. Com lástima digo que Into the Woods (no original) se enquadra na segunda categoria. Não se trata de um filme ruim, mas com sérios tropeços que acabam desapontando a experiência final.

Dirigido pelo diretor de teatro, Rob Marshall (vencedor do Oscar por Chicago), o novo longa é mais um adaptação de teatro que teve um grande público e que logo foi tratada de ser adaptada. Seria incomum, com tantos personagens, não colocar o maior número possível de estrelas em cena para soltarem a voz nas canções. Isso chama o público e os produtores liberam mais dinheiro para a composição do projeto, verba esta que parece ter sido mal investida.

Como o título sugere, a maior parte da ambientação é vivida na floresta, mas todos os cenários se assemelham muito ao palco de um teatro notando mais uma vez que Marshall não consegue fazer um musical sem se livrar de seu enorme amor ao palco: as árvores e pedras parecem estar posicionadas estrategicamente para parecerem com cenários de um espetáculo da Broadway, chegando a irritar a certo ponto.

E Marshall tem pressa em desenrolar com musical com medo deste parecer cansativo para os menos interessado, e com isso ele acarreta uma série de superficialidades, já que nenhuma das inúmeras histórias e nenhuma dos vários personagens tem realmente um foco para explorar mais suas características, tudo é muito pincelado e corriqueiro; vários personagens desaparecem e retornam em cena com sem nenhum tipo de apelos real à suas importâncias.

Marshall ainda parece precoce em seus trabalhos em filmes, apesar de já ter dirigido vários musicais, aqui temos o roteiro escrito por um dos criadores da peça para colaborar com o diretor. James Lapine é o roteirista e Stephen Sondheim – também autor – é o letrista. O primeiro tem um senso de ritmo interessante na apresentação dos personagens e é incrível a maneira com que as histórias se unem e os personagens parecem ser componentes de uma mesma trama, mas ele falha em deixar de lado fatos importantes (como o padeiro não ter a menor preocupação com sua irmã raptada e a por algum motivo os feijões mágicos serem motivo de uma maldição para a bruxa). Já Sondheim é muito criativo em suas canções, óbvio que nenhuma delas é de fato marcante, mas o espectador saíra da sala de cinema pelo menos cantarolando a música tema do filme.

O que de fato chama atenção na produção são as questões técnicas, já que os efeitos visuais são muito sutis e competentes, mas o figurino de Colleen Atwood é formidável, a designer é portadora de três estatuetas douradas com outras sete indicações; por mais que os personagens vistam as roupas que possuem a mesma costura é bem óbvio ver a que as roupas descrevem os personagens (como os príncipes com calças, jaquetas e botas de couro para dar valor ao seu corpo, as camadas presentes no gorro vermelho e no vestido azul que o acompanha, seguido pela produção de outro vestido, desta vez azul celeste, com obreiras e várias linhas de corte), um guarda roupa invejável e que só colabora com a maquiagem de J. Roy Helland, impecável como sempre. Dion Beebe fecha o trio com o trabalho de fotografia para as cores do filme, compondo cenas de contraste entre amarelo e verde que tangem para o dourado lindamente, seu único erro – junto ao diretor – é que ambos tiveram a ideia de se basear o filme todo a dois tipos de enquadramento, raras são cenas onde não estão planos abertos ou ¾.

Logicamente que o elenco não fica para trás nesta produção. A alma das atuações é de longe Meryl Streep (que surpresa!), com sua merecida indicação ao Oscar em atriz coadjuvante e como de costume não irá ganhar, embora mereça. A transição de ranzinza para estupefata é merecedora de aplausos com as duas características da personagem. James Corden e Emily Blunt soltam a voz nos seus ótimos momentos de duetos e nas cenas que exigem algum apelo emocional. Anna Kendrick, curiosamente, tem um desempenho um tanto quanto modesto e deslocado, seu potencial, neste trabalho, é semelhante ao das crianças Daniel Huttlestone e Lilla Crawford. Até Johnny Depp, com seu tempo escasso em cena, mostrou alguma integridade em seu trabalho de voz e performance, apesar do ator ter sido escalado somente para chamar atenção do público. Chris Pine protagoniza o dueto mais teatral do filme ao lado do igualmente competente Billy Magnussen, com uma cena engraçada fundamentada em uma competição para sabe qual dos príncipes é mais irresistível. “Fui criado para ser encantador e não sincero” diz o príncipe de Cinderela em determinado momento, sendo a melhor passagem que os diálogos entregam.

Caminhos da Floresta não é um filme ruim, mas não se trata de uma grande obra do gênero musical que outrora já foi melhor representado. O maior problema aqui é o desfecho, um terceiro ato que estraga completamente o material, arrastando a projeção para mais meia hora de sequências pouco interessantes e completamente desnecessárias, o espectador vai imaginar que as luzes deveriam ter sido acesas, mas terá que aguardar até o fim desta produção que tinha um enorme potencial para se tornar um divertido e competente musical, com canções coerentes e boas passagens, mas entrega uma obra esquecível e lastimavelmente banal.

sábado, 7 de fevereiro de 2015

Crítica - A Teoria de Tudo


Por Luis Ribeiro

Stephen Hawking é umas das mentes mais brilhantes que ainda vive e que sofre de uma das doenças mais cruéis que a humanidade já conheceu, a Esclerose Lateral Amiotrófica. Mas esta enfermidade não lhe impediu de continuar sua vida, ter um relacionamento saudável, constituir família e ainda ser um ser humano inspirador para os demais. O foco aqui não são as teorias extremamente complexas que Hawking formulou, mas sim a vida que viveu com sua primeira esposa Jane, escritora do livro que deu origem ao filme.

A história se baseia na trajetória de vida de Stephen Hawking (Eddie Redmayne) como um jovem cientista primoroso que tem sua vida voltada à ciência e ao estudo do tempo, o qual virá a ser assunto de sua tese futuramente. Mas em sua vida pessoal ele teve um relacionamento com Jane Hawking (Felicity Jones), com quem teve 3 filhos e os anos mais importantes para sua vida que já alcança a marca de 72 anos de idade – 4 décadas a mais dos 2 anos que lhe foram estimados.

O que temos em questão não são relatos em forma de documentário de uma mente brilhante e tampouco nos é apresentado uma trama crua e sem emoção, algo que por si só já um feito considerável, pesando o fato de que estes relatos podiam tender seriamente para o melodrama e se tornar uma experiência pouco impactante e muito pretensiosa (Uma Mente Brilhante que o diga). Pelo contrário, há uma atmosfera de preocupação em humanizar Stephen, em mostrar que ele não é apenas um homem genial da ciência, mas que também teve uma esposa e filhos, como boa parte de nós.

Durante anos vemos a evolução da doença ser cada vez mais brutal, em uma pessoa tão doce e meiga, porém nunca temos pena de Hawking, na verdade, ficamos cada vez mais admirados em saber mais sobre sua vida e como ele a construiu com a ajuda da esposa. Até porque a vida desta personalidade é muito interessante e nada mais justo que do que transformá-la em um filme ficcional, não limitando- aos meios do cinema documentado que, querendo ou não, tem um público bem menor do que merece. O problema é que o projeto aparenta estar mais preocupado em oferecer uma figura caracterizada de Stephen Hawking do que realmente homenagear o cientista.

Apesar de o filme ser uma obra ilustrada de peripécias amorosas, ele simplesmente usa esse único recurso para se expressar, sem nunca ousar em nada, fazendo tudo para agradar o maior número de espectadores possível, demonstrando um lado superficial das opiniões de Stephen, já que elas poderiam ofender um seleto grupo de pessoas. As perspectivas ateístas não são apenas pinceladas, mas são transformadas em passagens pouco inteligentes e que insistem em serem sutis demais para que alguém as leve a sério. Todos os estudos do físico são muito mal pontuados; vez ou outra o roteiro lembra-nos a respeito das pesquisas, embora nunca aprofundando-se de fato.

A direção é de James Marsh, um britânico documentarista e famoso por projetos primorosos como: O Equilibrista (2008) e Projeto Nim (2011), dois grandes títulos do gênero atual. E curiosamente Marsh decide por fazer da vida de um físico um filme de ficção. Melhor seria talvez que se tivesse optado pelo formato mais conhecido, pois seu resultado na direção deste longa é decepcionante, não chega a ser um desastre, mas pode ser considerado um desperdício de oportunidade para aprimorar seu trabalho.

O diretor é muito certinho em suas escolhas e, de novo, peca na ausência de criatividade no trabalho. Parece que se esforça em não querer tornar seu filme memorável, apenas mais um entre muitos. Para isso, ele conta com o estreante dramaturgo Anthony McCarten para escrever um roteiro repleto de problemas.

McCarten consegue perfeitamente transmitir os sentimentos e capítulos relevantes que atingiram o casal pelas décadas, contudo não possui a menor noção de continuidade e sutileza em sua obra. Perceba a pressa que o filme tem em chegar ao momento do diagnóstico de Hawking, parecendo que nenhum evento antes disso é de fato importante para ter espaço maior. Ainda nesta cena é possível ver o quanto é precária a direção de fotografia de Benoît Delhomm ao angular o enquadramento no rosto do médico e chamando atenção ao fundo para que aquilo pareça um efeito de sonho. Delhomm ainda peca em contrastar as imagens em cenas de filme envelhecido com as cores ricas que pairam durante todo o filme, em especial as belas luzes de fogos no festival que o casal compareceu.

Outro motivo de o roteiro ser desconexo é o fato de que a partir do segundo ato o longa passa a depender da protagonista feminina e por isso esta tem mais foco na trama, sofrendo dos mesmo males. O roteirista ressuscita a lembrança ao espectador de que Jane também gostaria de aprofundar seus estudos, mas nunca evolui essa ideia ou a constrói decentemente; se limita apenas uma passagem com Stephen brincando com seus filhos enquanto a esposa tenta estudar.

O casal, inclusive, não poderia estar mais inspirado para compor seu trabalho. Felicity Jones brilha com a esposa eternamente cansada, tanto física quanto mentalmente, e que se nega a deixar que seu corpo ou mente fale mais alto que sua dedicação ao marido e o afeto que sente por ele; é de fato emocionante sua construção de uma personagem sempre preocupada com a família e que sofre com os maus olhos dos familiares que miram o único refúgio que encontrou para aliviar sua tarefa. Aí que entra o Jonathan de Charlie Cox, uma pessoa sem segundas intenções e que representa a modéstia da fé na vida de um homem, é a figura necessária e que nos minutos finais da projeção inclina o espectador a sentir-se contente com seu destino.

Mas é Eddie Redmayne que rouba todas as cenas para si, não está nada menos que impecável e assustador na pele do cientista, não raro será o caso dos menos informados pensarem que estão diante do próprio físico. O ator teve aulas de dança para aprender a controlar seu corpo devidamente, com isso obteve um resultado impressionante logo nas primeiras cenas, com o posicionamento discreto de suas mãos ao apanhar uma caneta (cena esta que ocasionará uma passagem vergonhosa perto do fim do filme), escrever ou segurar a mão da amada. O seu jogo de pés, postura e forma que se movimenta são ações indescritíveis – principalmente a forma com que apoia sua cabeça em seu ombro e movimenta quase que nenhum músculo em sua cadeira. Quanto a sua fala é de impressionar a maneira com que o ator se expressa, capitando otimamente o trejeitos e olhares do portador da doença, com a língua enrolada e o movimento dos olhos para se comunicar. É de duvidar em vários momentos que Eddie esteja apenas atuando.

Mas só de atores não vive um filme, já que este é recheado de bobagens, como as metáforas óbvias e montagem falha da roda de uma bicicleta com o ciclista ainda cheio de movimentos e a expansão do Universo contrastando com a pupila do protagonista; são belas imagens e que se repetem nos créditos finais, mas são recursos já gastos e a trilha sonora de Jóhann Jóhannsson é tão ruim quanto. O músico está praticamente com o Oscar ganho com esse trabalho tenebroso onde apresentou uma sinfonia irritante, imprópria para o filme e ordene 3 ou 4 faixas que se repetem até o fim do longa.

A Teoria de Tudo é um filme que tentou agradar o máximo de pessoas possível, entretanto teve um resultado desapontador. Não é um filme de todo ruim e merece ser assistido, já que não duvido que Marsh tenha tido a melhor das intenções em retratar a história deste casal que inspirou gerações e levar para o mundo uma das mentes mais brilhantes que a humanidade já viu. É uma homenagem que Stephen e Jane Hawking mereciam, mas que não alcança sua genialidade.
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