sábado, 31 de janeiro de 2015

Crítica - Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)


Por Luis Ribeiro

Na primeira cena do filme vemos o protagonista suspenso no ar sem nenhuma explicação prévia e no decorrer do longa sua habilidade de movimentar objetos com a mente representa uma enorme arrogância e presunção por para dele mesmo, pois ele é um ator, mas não um simples ator, ele é uma “celebridade” – ou quer ser – e como tal precisa agir como uma, ou seja, tendo em mente de que não faz parte do mundo onde existem pessoas mais modestas e com objetivos diferentes e que neste mundo ele não é visto como uma deus, apesar de achar isso.

Riggan Thomson (Michael Keaton) já foi um ator muito famoso ao interpretar seu personagem ícone, Birdman, o super-herói que todos lembram, mas que depois de 22 anos as pessoas esqueceram-se de quem o interpreta. Portanto ele decide migrar para o teatro – porque o teatro é mais “artístico” – adaptando, dirigindo e estrelando o livro “What We Talk About When We Talk About Love”, de Raymond Carver. Mas poucos dias antes da estreia o artista vê que seus trabalhos fracassaram, não só como profissional, pois o elenco está horrível e os atores não estão em seus melhores dias, mas também como pai, ao não conseguir ter um bom relacionamento com a filha e com a ex-mulher, além de notícias de seu novo relacionamento.

Acima de tudo, Birdman, é uma obra de trajetos e de verdades, pode-se ver isso na sua forma de filmagem e escalação de elenco, trata-se de um projeto ambicioso, simpático e lastimavelmente verídico de frustrações perante a vida daqueles que decidem seguir carreira com a tão glamorosa vida de ator. Porém no filme vê-se que dar a vida aos palcos, ou às telas, não é tão feliz assim como todos pensam. É fácil nos enganarmos com os sorrisos estonteantes nas noites de estreias que o elenco apresenta e cobiçar a vida de um deles, já que parece tudo perfeito. “A popularidade é a prima promíscua do prestígio” diz um dos personagens, não muito longe do início da projeção, e essa frase simbólica é o que constitui o caráter de Riggan Thomson em sua nova tarefa.

Em meio a um desastre iminente e uma possível falência se tudo der errado temos em mãos não apenas um mundo ficcional, mas que reflete a quem interpreta. Já que 22 anos depois de um filme de super-herói e sem conseguir nenhum papel relevante depois disso, Michael Keaton (faz quantos anos que viveu o Batman pela última vez? Uns 22 anos?) tem a chance de se interpretar, mas de maneira muito mais surreal, óbvio. Ao mesmo tempo e contrastando com sua figura surge um Mike Shiner que é quase impossível de se trabalhar, mas que a qualidade de seu desempenho não pode ser negada (alguma semelhança com Edward Norton será coincidência?) e lógico, para finalizar, tem-se os filhos dos astros que sofrem com a fama de seu país e que se culpam de alguma forma por isso, portanto é de se estranhar que Sam tenha sido vivida por Emma Stone e não por Lindsay Lohan, por exemplo.

Temos aqui um estudo de personagem nada simples e muito simpático de realidades contemporâneas. O ator em decadência que não quer perder a fama, o astro que se venera por ser talentoso, a atriz iniciante que entra em colapso por medo de fracassar, o agente que se concentra em qualquer coisa – doa a quem doer – para poder lucrar com disso.

Escrito a oito mãos (Nicolás Giacobone, Alexander Dinelaris, Armando Bo) além do diretor e produtor Alejandro González Iñárritu é possível ver que todos compartilharam de ideias e tiveram um pensamento conciso ao entregar uma obra com um tom tão curioso e realizado de forma tão incomum. Iñárritu, mexicano por nascença, largou sua terra natal para se aventurar nos meios de Hollywood e de lá para ofereceu obras como 21 Gramas, Babel e Biutiful. E pela primeira vez ele ousa em uma comédia sutil e, certamente, pessoal das dificuldades que cercam a arte do entretenimento e as consequências que traz. O diretor tem sua fama merecida e sua competência reconhecida ao provar que é capaz ter uma visão ampla e que foge de padrões caricatos de retratos críticos. Nota-se isso no roteiro e nos próprios diálogos, pois numa conversa com uma crítica de teatro (vivida por Lindsay Duncan) ele explora, por meio do protagonista, a superficialidade dos críticos de arte dizendo que “pessoas que não conseguem ser artistas viram críticos”, um frase perigosa, mas que por si só representa e uma verdade crua dentre os analisadores que muitas vezes frustrados pelas suas experiências encontram um conforto em falar mal do trabalho dos outros.

Iñárritu tem a melhor equipe para lhe ajudar em sua tarefa árdua de compor sua obra, o que mais se destaca é o diretor de fotografia Emmanuel Lubezki, dono de trabalhos exuberantes, como A Árvore da Vida, e ganhador do Oscar por Gravidade, retorna com uma composição poética de cenas e de filmagens que para os menos atentos podem parecer impossíveis, como é caso de a impressão de uma única sequência que não aparenta ter cortes, a filmagem na frente um espelho e os ciclos temporais. A câmera vaga pelos corredores e camarins dos artistas a fim de descobrir segredos sobre eles e se assemelha a olhos humanos, já que acompanha os rostos numa discussão e se contrai quando algo acontece, tudo para causar a impressão de um espetáculo teatral e não cinematográfico. Um trabalho primoroso e digno de aplausos. A trilha sonora é introduzida de forma a soar desconexa, é uma percussão de jazz em bateria que contrasta com as turbulências vividas por seu protagonista, tendo seus sentimentos personificados pouco antes da sequência final.

E Michael Keaton merece um parágrafo só para ele por ser a alma do projeto. Sua interpretação é tão correta que impressiona a forma com que interpreta um sujeito a beira de um ataque de nervos – que se mantém cauteloso – com a responsabilidade de conseguir fazer com que sua peça seja um sucesso, mesmo que isso custe pagar um salário enorme para um ator competente, embora este seja impossível de se conviver. Para isso ele abre mão da função de ser pai e não aparenta se sentir responsável pelas ações da filha. Tudo para que seu nome não fosse esquecido pelos fãs, nesta era onde temos a internet e as redes sociais que em menos de uma hora um erro ou uma frase mal dita pode custar sua carreira. Não é por acaso que as celebridades mais influentes não se posicionam contra assuntos mais polêmicos, não por cinismo, mas por garantir seu ganha-pão. E nisso vemos quanto Keaton se esforça para montar um personagem tão complexo e que é assombrado por um alguém que viveu há décadas e que ainda perturba sua mente como um ícone de seu verdadeiro talento, pois ele nasceu para ser famoso e não talentoso. Vê isso na visão de Thomson em saber voar e estar acima de todos os mortais da cidade que pagam para ver seu espetáculo; é como se o voar fosse sua liberdade enquanto artista e sua motivação para a profissão que insiste em manter. O melhor que Keaton pode oferecer.

No restante do elenco não há o que corrigir, mas sim o que destacar. Emma Stone e Naomi Watts vivem as damas do teatro. A primeira, filha do protagonista, sofreu com as drogas e agora é assistente do pai. É curioso ver Stone sem muito glamour e vivendo um personagem com um monólogo tão intenso e conflitado – demonstrando um caso lindo de uma atriz que começou do começo (com filmes fraquinhos) e que tem uma competência nata pelo que faz. As tatuagens e cabelos bagunçados ajudam a compor uma Sam difícil e problemática que tem seus sentimentos transpostos na pele de Stone. Watts tem uma performance vulnerável de um atriz com medo de não ter uma carreira satisfatório e que supostamente dorme com pessoas do ramo para assegurar seu trabalho em uma tentativa desesperada de ver seu sonho realizado. Norton contrasta com Stone em sentidos racionais, enquanto ela explora seus problemas de forma madura, ele é completamente arrogante e simula uma competência por meio de vários artifícios, apesar de a crítica o amar e admirar seus trabalhos nos palcos ele certamente é mal visto fora deles e com poucos fãs devido sua mania presunçosa de se denominar. E Zach Galifianakis é o canastrão agente que não vê problemas em explorar o pior das pessoas para conseguir a boa visibilidade para seus empregados. A mensagem que o elenco passa é: quanto custa ser amado como ator?

É no desfecho que o espectador experimenta a voracidade que existe na trama e no fantasma que ronda Thomson, pois ao tentar se livrar de sua vida anterior ele encerra um espetáculo com seu próprio sangue, algo que lhe custa a aparência normal para ser semelhante ao Birdman do passado, contudo é recompensado pela crítica de uma profissional que outrora já teve problemas com o ator. Ao contemplar tais realidades o homem sente-se livre em seu interior e com sua imagem, algo que é representado na expressão de um dos personagens.

Birdman é um filme irônico por escalar atores que fizeram participações em franquias medíocres de super-heróis (lembre que no elenco temos o Batman, o Hulk e Gwen Stacy) e tem o tom de uma comédia que serve para representar a imagem real para que quem está do lado de fora possa entender como as coisas funcionam. Excelente! Original! Criativo! São alguns dos adjetivos para descrever a experiência que é ver esta obra, digna de todos os prêmios que virá a ganhar.
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