Martin Luther King, Jr (David Oyelowo) é um pastor ativista que organiza passeatas em busca dos direitos dos negros nos Estados Unidos. Ele motivou os manifestantes a realizar histórica marcha da cidade de Selma, Alabama, até a capital do estado, Montgomery, a fim de conseguir o poder de votos para a comunidade negra.
Não se trata da obra memorável e jamais se tornará um fenômeno por sua modesta forma de produção, mas tem-se aqui uma trama sobre um episódio importantíssimo na história de igualdade (como o subtítulo teve que explicar) entre brancos e negros. Portanto você não verá o emocionante discurso de King, I Have a Dream, que apesar de ser tentador coloca-lo, o filme mostra maturidade em apenas focar na passeata. Que por si só já uma enorme comoção.
Nada na projeção é revolucionário, não há nenhuma ousadia ou questões que poderia gerar polêmica (como a presença de J. Edgar, mas nunca se aprofundando nas questões comunistas que este repudiava). Talvez essa falta de ambição seja o maior problema de Selma. É desapontador ver uma história tão importante sendo feita com tanta simplicidade, mas de forma alguma diminui o impacto que ela deve ocasionar nos expectores. Ava DuVernay (diretora) e produzido por Brad Pitt (e por sua produtora que está com um enorme interesse em realizar filmes com temáticas sociais), mostram-se escolhas certas para a realização do projeto. Seria fácil, para fazer as lágrimas escorrerem dos olhos de brancos nas poltronas, fazer um filme melodramático e com forte tonalidade de pena. Porém, é entregue algo para materializar a força dos negros na sociedade, algo que eles lutam até hoje e que devem se orgulhar por nunca precisar de um branco (como Lincoln e Histórias Cruzadas sugerem) para dar voz a esse povo.
O filme tem momentos banais? Sim. Lógico que não poderiam faltar os textos na tela para criar um aspecto documentado e o habitual close nos personagens acompanhado das frases que falam o que aconteceu depois de tal episódio. Tudo compensando com um roteiro correto de Paul Webb que não arranca clichês que estariam presentes em projetos mais covardes e realizados por brancos.
A competência de DuVernay é inegável por manter o nível e não criar vilões específicos na trama. O preconceito é o problema, que piora com os ignorantes que o segue por um motivo ou por outro. E por mais que brancos tenham se juntado à causa negra, nenhum deles é visto como um herói para salvar a população de cor, porque ela não precisa disso. A diretora ainda é madura o suficiente para não colocar Pitt em lugar nenhum para chamar a atenção para a bilheteria e usou Oprah Winfrey (também produtora) quase que como figurante em uma das cenas mais brilhantes do filme, onde sua personagem tenta fazer o título de eleitor e o responsável inventa um documento para que a mulher não o faça; uma passagem rápida que tive uma imensa vergonha de alguém de minha cor já tenha se comportado de tal maneira e achar que isso era normal.
Oyelowo é a melhor coisa de todo o filme, com uma atuação controlada e complexa para não fugir do personagem. Ele capta perfeitamente os consentimentos de King e sua total passividade (não confunda com conformidade) em meio a tantos absurdos que presencia. Note que ele não chora e não perde a força em nenhum momento, na verdade, realiza discursos inspiradores para todas as comunidades. Oyelowo ainda se vê numa postura racional ao encarnar um homem religioso que vê com maturidade o que a Bíblia prega e não culpar um ou dois brancos pelos crimes que cometeram, pois o culpado é o Estado que os faz agir de tal maneira. Um exemplo de homem e sua posição em relação à política.
Tom Wilkinson vive o presidente Lyndon B. Johnson que, segundo historiadores, é vivido de maneira errada, já que na trama ele reluta várias vezes por ajudar nas causas, mas na realidade ele sempre foi um grande apoiador da mesma. O governador de Tim Roth, George Wallace, também merece destaque por sua posição perante aos negros por vê-los como desordeiros que não sabem seu lugar, ele representa o preconceito atual que possui uma visão muito semelhante. O elenco ainda conta com uma ensossa Carmen Ejogo, como uma esposa desconfiada e pouco presente do ativista, Giovanni Ribisi e Cuba Gooding Jr. fazem suas contribuição também.
Em questões técnicas nada arranca os suspiros, mas o figurino é competente e a fotografia também não deixa a desejar, pois o enquadramento de câmera vista de cinema e a forma com que os personagens negros ficam de costas representa tanto que estamos o seguindo quanto eles não terem identidade em tal época. De fato, o melhor de tudo é inspirada canção Glory, composta por John Stephens e Lonnie Lynn, com seu ritmo contemporâneo que tangem bem tanto aquela como esta época em que vivemos, além de um letra emocionante.
Selma é um bom filme informativo e uma história necessária para vermos cenários que eram reais há poucas décadas e que em momento nenhum entrega algo que nos faça sentir pena dos negros e de todos que morreram por seus direitos, contrastando ainda com a maneira ridícula que o negro é tratado na sociedade atual, não muito diferente do que há poucos anos. Essa é uma luta que ainda não está vencida e a igualdade é o prêmio. É triste que em uma época tão atual, as pessoas, cegas por cotas e coisas assim, não vejam a importância que os negros tiveram para a nossa formação como seres humanos.
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