A história se baseia na trajetória de vida de Stephen Hawking (Eddie Redmayne) como um jovem cientista primoroso que tem sua vida voltada à ciência e ao estudo do tempo, o qual virá a ser assunto de sua tese futuramente. Mas em sua vida pessoal ele teve um relacionamento com Jane Hawking (Felicity Jones), com quem teve 3 filhos e os anos mais importantes para sua vida que já alcança a marca de 72 anos de idade – 4 décadas a mais dos 2 anos que lhe foram estimados.
O que temos em questão não são relatos em forma de documentário de uma mente brilhante e tampouco nos é apresentado uma trama crua e sem emoção, algo que por si só já um feito considerável, pesando o fato de que estes relatos podiam tender seriamente para o melodrama e se tornar uma experiência pouco impactante e muito pretensiosa (Uma Mente Brilhante que o diga). Pelo contrário, há uma atmosfera de preocupação em humanizar Stephen, em mostrar que ele não é apenas um homem genial da ciência, mas que também teve uma esposa e filhos, como boa parte de nós.
Durante anos vemos a evolução da doença ser cada vez mais brutal, em uma pessoa tão doce e meiga, porém nunca temos pena de Hawking, na verdade, ficamos cada vez mais admirados em saber mais sobre sua vida e como ele a construiu com a ajuda da esposa. Até porque a vida desta personalidade é muito interessante e nada mais justo que do que transformá-la em um filme ficcional, não limitando- aos meios do cinema documentado que, querendo ou não, tem um público bem menor do que merece. O problema é que o projeto aparenta estar mais preocupado em oferecer uma figura caracterizada de Stephen Hawking do que realmente homenagear o cientista.
Apesar de o filme ser uma obra ilustrada de peripécias amorosas, ele simplesmente usa esse único recurso para se expressar, sem nunca ousar em nada, fazendo tudo para agradar o maior número de espectadores possível, demonstrando um lado superficial das opiniões de Stephen, já que elas poderiam ofender um seleto grupo de pessoas. As perspectivas ateístas não são apenas pinceladas, mas são transformadas em passagens pouco inteligentes e que insistem em serem sutis demais para que alguém as leve a sério. Todos os estudos do físico são muito mal pontuados; vez ou outra o roteiro lembra-nos a respeito das pesquisas, embora nunca aprofundando-se de fato.
A direção é de James Marsh, um britânico documentarista e famoso por projetos primorosos como: O Equilibrista (2008) e Projeto Nim (2011), dois grandes títulos do gênero atual. E curiosamente Marsh decide por fazer da vida de um físico um filme de ficção. Melhor seria talvez que se tivesse optado pelo formato mais conhecido, pois seu resultado na direção deste longa é decepcionante, não chega a ser um desastre, mas pode ser considerado um desperdício de oportunidade para aprimorar seu trabalho.
O diretor é muito certinho em suas escolhas e, de novo, peca na ausência de criatividade no trabalho. Parece que se esforça em não querer tornar seu filme memorável, apenas mais um entre muitos. Para isso, ele conta com o estreante dramaturgo Anthony McCarten para escrever um roteiro repleto de problemas.
McCarten consegue perfeitamente transmitir os sentimentos e capítulos relevantes que atingiram o casal pelas décadas, contudo não possui a menor noção de continuidade e sutileza em sua obra. Perceba a pressa que o filme tem em chegar ao momento do diagnóstico de Hawking, parecendo que nenhum evento antes disso é de fato importante para ter espaço maior. Ainda nesta cena é possível ver o quanto é precária a direção de fotografia de Benoît Delhomm ao angular o enquadramento no rosto do médico e chamando atenção ao fundo para que aquilo pareça um efeito de sonho. Delhomm ainda peca em contrastar as imagens em cenas de filme envelhecido com as cores ricas que pairam durante todo o filme, em especial as belas luzes de fogos no festival que o casal compareceu.
Outro motivo de o roteiro ser desconexo é o fato de que a partir do segundo ato o longa passa a depender da protagonista feminina e por isso esta tem mais foco na trama, sofrendo dos mesmo males. O roteirista ressuscita a lembrança ao espectador de que Jane também gostaria de aprofundar seus estudos, mas nunca evolui essa ideia ou a constrói decentemente; se limita apenas uma passagem com Stephen brincando com seus filhos enquanto a esposa tenta estudar.
O casal, inclusive, não poderia estar mais inspirado para compor seu trabalho. Felicity Jones brilha com a esposa eternamente cansada, tanto física quanto mentalmente, e que se nega a deixar que seu corpo ou mente fale mais alto que sua dedicação ao marido e o afeto que sente por ele; é de fato emocionante sua construção de uma personagem sempre preocupada com a família e que sofre com os maus olhos dos familiares que miram o único refúgio que encontrou para aliviar sua tarefa. Aí que entra o Jonathan de Charlie Cox, uma pessoa sem segundas intenções e que representa a modéstia da fé na vida de um homem, é a figura necessária e que nos minutos finais da projeção inclina o espectador a sentir-se contente com seu destino.
Mas é Eddie Redmayne que rouba todas as cenas para si, não está nada menos que impecável e assustador na pele do cientista, não raro será o caso dos menos informados pensarem que estão diante do próprio físico. O ator teve aulas de dança para aprender a controlar seu corpo devidamente, com isso obteve um resultado impressionante logo nas primeiras cenas, com o posicionamento discreto de suas mãos ao apanhar uma caneta (cena esta que ocasionará uma passagem vergonhosa perto do fim do filme), escrever ou segurar a mão da amada. O seu jogo de pés, postura e forma que se movimenta são ações indescritíveis – principalmente a forma com que apoia sua cabeça em seu ombro e movimenta quase que nenhum músculo em sua cadeira. Quanto a sua fala é de impressionar a maneira com que o ator se expressa, capitando otimamente o trejeitos e olhares do portador da doença, com a língua enrolada e o movimento dos olhos para se comunicar. É de duvidar em vários momentos que Eddie esteja apenas atuando.
Mas só de atores não vive um filme, já que este é recheado de bobagens, como as metáforas óbvias e montagem falha da roda de uma bicicleta com o ciclista ainda cheio de movimentos e a expansão do Universo contrastando com a pupila do protagonista; são belas imagens e que se repetem nos créditos finais, mas são recursos já gastos e a trilha sonora de Jóhann Jóhannsson é tão ruim quanto. O músico está praticamente com o Oscar ganho com esse trabalho tenebroso onde apresentou uma sinfonia irritante, imprópria para o filme e ordene 3 ou 4 faixas que se repetem até o fim do longa.
A Teoria de Tudo é um filme que tentou agradar o máximo de pessoas possível, entretanto teve um resultado desapontador. Não é um filme de todo ruim e merece ser assistido, já que não duvido que Marsh tenha tido a melhor das intenções em retratar a história deste casal que inspirou gerações e levar para o mundo uma das mentes mais brilhantes que a humanidade já viu. É uma homenagem que Stephen e Jane Hawking mereciam, mas que não alcança sua genialidade.
0 comentários:
Postar um comentário