Anastasia Steele (Dakota Johnson) teve de substituir a amiga, Kate (Eloise Mumford), em uma entrevista que faria com o enigmático Christian Grey (Jamie Dornan). Este encontro gerou um relacionamento entre o casal e depois que ambos já se conhecem razoavelmente, Grey abre o jogo sobre seu apetite sexual, que envolve o sadomasoquismo, para a moça.
Temos aqui mais um caso clássico de literatura que não teve uma adaptação para salva-la, pois trata-se um projeto repugnante e que devia ser proibido pela forma com que trata a protagonista. Sua autora é um exemplo que vive e anda de que existem mulheres que se rebaixam aos pés dos homens em pleno século XXI e acham isso correto, na verdade, qualquer apreço a esta obra estaria, indiretamente, concordando com a posição feminina imposta por ela.
E o problema central é o sadomasoquismo, insistente em seu papel de tentar fazer com que a personagem feminina parece estar fazendo por vontade própria o que Christian lhe pede, ou melhor, ordena. Não existe uma cena onde não fique claro que Anastasia está presente somente para satisfazer os prazeres de seu “macho alfa”, sem nenhuma menção ao prazer da moça, nota-se isso na cena em que Christian simplesmente decide tirar a virgindade de moça (o porquê disso ser um problema eu não sei) e ela aceita as condições do parceiro. É risível a maneira com que o filme e o livro tratam disso. A começar por haver um contrato que baseia toda a relação do par, o artefato que por si só já esdrúxulo e vulgar, mas que é elaborado com uma enorme elegância para fazer parecer viável. Ao assinar a papelada, Anastasia Steele (um nome que soa muito com de alguma estrela pornô) estaria esfregando na cara do leitor/espectador de que este relacionamento com Christian é melhor do que relacionamento nenhum, algo que qualquer mulher, em seu pleno juízo, recusaria, ainda mais quando seu papel se baseia em dar prazer ao homem que lhe agredirá e a reposta deste para o que ela ganharia com isso é um simples “Eu”.
E só o fato de o personagem de Grey existir já é um motivo de ódio profundo, vê-lo encarnado é um ultraje sem tamanho. Um bilionário, de vinte e tanto anos, alto, charmoso, inexpressivo, egocêntrico e com um passado obscuro (parece familiar?), que se cerca de mulheres brancas e magras e que ainda tem uma frase que lhe define: “Primeiramente, eu não faço amor, eu fodo e com força!”. Que mulher não assinaria um contrato com ele? Contrato este a obriga a não beber, praticar exercícios para ficar mais sexy, se depilar, usar roupas ousadas e fazer tudo que o dominador mandar (TUDO). São tantos argumentos que representam o machismo em ambas as obras que dúzias de páginas seriam necessárias para descrevê-los.
E se comentei sobre Crepúsculo inicialmente, foi por um motivo. Ambos os personagens são extremamente semelhantes ao casal Bella e Edward (protagonistas de uma série que também não sei me orgulho de ter conseguido terminar, ou me envergonho pelo mesmo motivo). Bella é a garota pobre da faculdade, que não é bonita, completamente desinteressante e com pouquíssimos amigos, mas mesmo assim consegue chamar a atenção do rapaz mais desejado por todas as mulheres – porém nenhuma deles obteve êxito na tarefa, claro – e que oculta um segredo devastador de que ele mesmo se reconhece. Nada de novo, de novo.
Como se Christian Grey (sobrenome usado em Secretária (2002) sobre o mesmo tema de submissão e obediência, e que o primeiro nome do portador deste é Edward) não fosse ruim o bastante, encontraram perdido por aí um Jaime Dornan que não tem a menor vocação para ser ator. Ele possui um sorriso que não existe, mas que está sempre presente e usa isso para parecer mais perturbado, mas só consegue parecer mais incompetente com esta técnica que não domina. Óbvio que ele foi uma escolha realizada a partir da aparência, que nem é lá essas coisas. E se esse foi o critério para escolher o Sr. Grey, a escolha de Dakota Johnson foi porque ninguém mais queria fazer este papel. É possível ver um esforço da parte da atriz, que se faz completamente inútil em meio a um material tão precário.
O filme é ainda é acercado por premissas românticas tocas, pois em uma cena o protagonista fala que não se interessa por nenhum relacionamento casual ou qualquer coisa relacionada a isso, mas anda de mãos dadas e leva sua amada em seus braços até seus aposentos. Fazendo também com que a frase que tanto lhe descreve seja deixada de lado, pois se algo que as cenas “picantes” entregam é o tédio. Não existe a menor emoção em nenhuma passagem sexual, as cenas são cruas, desinteressantes e longe de serem algo relacionado ao BDSM, é tudo tão regrado e cheio de pudores (nudez somente feminina e superior, já trama resolveu ser conservadora, sabe-se lá o porquê.) e para fechar existem as canções compostas por Byoncé Knowles, que entrega aos ouvidos algo parecido com músicas de um motel barato, o curioso é que a cantora já realizou obras de misandria, porém aceitou fazer a música deste filme sem nenhum problema.
Se existe algo que preste nesta produção seria a e fotografia, compostas por tons de cinzas (óbvio), embora deixe a experiência mais séria do que deveria, ainda entrega um formato interessante e cenas agradáveis ao olhar. O figurino se diz o mesmo, Mark Bridges (O Artista), é emblemático em colocar Anastasia com cores vivas e com roupas horríveis no início da projeção para representar sua liberdade e aos poucos ela migra para o monocromático, primeiro para o vestido vermelho envelhecido e depois para o preto e branco absoluto, além de não optar por lingeries em momento algum. Danny Elfman também entrega uma trilha correta e que ajudar a tornar mais suportável esta experiência.
Cercado de momento vergonhosos, com a mulher preparando o café do marido e a submissa esperando ajoelha na porta em busca de dar prazer ao seu opressor, Cinquenta Tons de Cinza não é só um dos piores filmes dos últimos anos, mas também um dos mais ofensivos que já foram produzidos recentemente. E.L. James não se contentou em manter sua história estúpida nas páginas, ela precisa vender os direitos para Hollywood. E por mais enfezado que me encontrei em analisar devidamente a obra, nada supera a revolta de ver mulheres, fãs, apreciando uma história e termos que, tomara, nunca lhes seja real.
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