quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Crítica - Caminhos da Floresta


Por Luis Ribeiro

Os musicais sofrem com a falta de público atualmente, já que são constantemente ligados a um filme tedioso onde os diálogos são apenas cantados e que por algum motivo é necessário ser uma mulher para não sofrer com o preconceito de apreciar este gênero. Curiosamente é preciso ser um devoto a arte do cinema para apreciar um bom musical em épocas em que eles estão entre as últimas opções das pessoas. Atualmente o cinema se contenta com adaptações de peças da famosa Broadway para compor seu arsenal, já que o teatro dá prestígio e quando uma peça deste tipo consegue um bom público e críticas positivas não tardará para que este espetáculo seja lançado em formato de filme. Recentemente cita-se o fenômeno Os Miseráveis (2012), sempre amado por todos, e este ano contamos com o aguardado Caminhos da Floresta, que pode não atrair tantos espectadores e afastar o elogios da crítica.

Quase todos os personagens dos contos de fadas estão presentes e de alguma forma as histórias se unem para que se complementem. Uma bruxa (Meryl Streep) precisa de certos itens para reverter a maldição que lhe foi lançada há anos, e para isso ela contará com a ajuda de um padeiro (James Corden) e sua esposa (Emily Blunt) para que o feitiço seja revertido e o desejo do casal seja atendido. Os itens – óbvio – fazem parte de histórias diferentes que ouvíamos quando éramos crianças, mas soa quase poética a dinâmica entre as tramas.

Já adianto que sou um ávido fã de musicais e me entristece muito quando vejo algum ruim (como Nine e Mama Mia!) ou mal aproveitado. Com lástima digo que Into the Woods (no original) se enquadra na segunda categoria. Não se trata de um filme ruim, mas com sérios tropeços que acabam desapontando a experiência final.

Dirigido pelo diretor de teatro, Rob Marshall (vencedor do Oscar por Chicago), o novo longa é mais um adaptação de teatro que teve um grande público e que logo foi tratada de ser adaptada. Seria incomum, com tantos personagens, não colocar o maior número possível de estrelas em cena para soltarem a voz nas canções. Isso chama o público e os produtores liberam mais dinheiro para a composição do projeto, verba esta que parece ter sido mal investida.

Como o título sugere, a maior parte da ambientação é vivida na floresta, mas todos os cenários se assemelham muito ao palco de um teatro notando mais uma vez que Marshall não consegue fazer um musical sem se livrar de seu enorme amor ao palco: as árvores e pedras parecem estar posicionadas estrategicamente para parecerem com cenários de um espetáculo da Broadway, chegando a irritar a certo ponto.

E Marshall tem pressa em desenrolar com musical com medo deste parecer cansativo para os menos interessado, e com isso ele acarreta uma série de superficialidades, já que nenhuma das inúmeras histórias e nenhuma dos vários personagens tem realmente um foco para explorar mais suas características, tudo é muito pincelado e corriqueiro; vários personagens desaparecem e retornam em cena com sem nenhum tipo de apelos real à suas importâncias.

Marshall ainda parece precoce em seus trabalhos em filmes, apesar de já ter dirigido vários musicais, aqui temos o roteiro escrito por um dos criadores da peça para colaborar com o diretor. James Lapine é o roteirista e Stephen Sondheim – também autor – é o letrista. O primeiro tem um senso de ritmo interessante na apresentação dos personagens e é incrível a maneira com que as histórias se unem e os personagens parecem ser componentes de uma mesma trama, mas ele falha em deixar de lado fatos importantes (como o padeiro não ter a menor preocupação com sua irmã raptada e a por algum motivo os feijões mágicos serem motivo de uma maldição para a bruxa). Já Sondheim é muito criativo em suas canções, óbvio que nenhuma delas é de fato marcante, mas o espectador saíra da sala de cinema pelo menos cantarolando a música tema do filme.

O que de fato chama atenção na produção são as questões técnicas, já que os efeitos visuais são muito sutis e competentes, mas o figurino de Colleen Atwood é formidável, a designer é portadora de três estatuetas douradas com outras sete indicações; por mais que os personagens vistam as roupas que possuem a mesma costura é bem óbvio ver a que as roupas descrevem os personagens (como os príncipes com calças, jaquetas e botas de couro para dar valor ao seu corpo, as camadas presentes no gorro vermelho e no vestido azul que o acompanha, seguido pela produção de outro vestido, desta vez azul celeste, com obreiras e várias linhas de corte), um guarda roupa invejável e que só colabora com a maquiagem de J. Roy Helland, impecável como sempre. Dion Beebe fecha o trio com o trabalho de fotografia para as cores do filme, compondo cenas de contraste entre amarelo e verde que tangem para o dourado lindamente, seu único erro – junto ao diretor – é que ambos tiveram a ideia de se basear o filme todo a dois tipos de enquadramento, raras são cenas onde não estão planos abertos ou ¾.

Logicamente que o elenco não fica para trás nesta produção. A alma das atuações é de longe Meryl Streep (que surpresa!), com sua merecida indicação ao Oscar em atriz coadjuvante e como de costume não irá ganhar, embora mereça. A transição de ranzinza para estupefata é merecedora de aplausos com as duas características da personagem. James Corden e Emily Blunt soltam a voz nos seus ótimos momentos de duetos e nas cenas que exigem algum apelo emocional. Anna Kendrick, curiosamente, tem um desempenho um tanto quanto modesto e deslocado, seu potencial, neste trabalho, é semelhante ao das crianças Daniel Huttlestone e Lilla Crawford. Até Johnny Depp, com seu tempo escasso em cena, mostrou alguma integridade em seu trabalho de voz e performance, apesar do ator ter sido escalado somente para chamar atenção do público. Chris Pine protagoniza o dueto mais teatral do filme ao lado do igualmente competente Billy Magnussen, com uma cena engraçada fundamentada em uma competição para sabe qual dos príncipes é mais irresistível. “Fui criado para ser encantador e não sincero” diz o príncipe de Cinderela em determinado momento, sendo a melhor passagem que os diálogos entregam.

Caminhos da Floresta não é um filme ruim, mas não se trata de uma grande obra do gênero musical que outrora já foi melhor representado. O maior problema aqui é o desfecho, um terceiro ato que estraga completamente o material, arrastando a projeção para mais meia hora de sequências pouco interessantes e completamente desnecessárias, o espectador vai imaginar que as luzes deveriam ter sido acesas, mas terá que aguardar até o fim desta produção que tinha um enorme potencial para se tornar um divertido e competente musical, com canções coerentes e boas passagens, mas entrega uma obra esquecível e lastimavelmente banal.
Postagem mais recente Postagem mais antiga Página inicial

0 comentários:

Postar um comentário

Seguidores

Pseudo crítico de cinema!

Tecnologia do Blogger.

Arquivo do blog