Duas histórias do Antigo Testamento foram apresentadas no ano de 2014 para os espectadores. A primeira foi Noé, comandada pelo visionário Darren Aronofsky, que apostou em uma mensagem de até onde a fé pode influenciar os atos de um homem. De fato que esta adaptação da arca não é o melhor filme do diretor devido sua estética duvidosa, mas é um projeto inteligentíssimo e grandioso que somente um cineasta brilhante como Aronofsky poderia fazer. Porém, o filme em questão é Êxodo: Deuses e Reis, dirigido pelo cultuado diretor Ridley Scott, que recentemente foi o autor de vários desapontamentos como Prometheus em 2012 e O Conselheiro do Crime em 2013. Por mais que este novo projeto não tenha o mesmo fôlego quanto seus trabalhos mais primorosos, como A Cruzada e Gladiador, é uma evolução construtiva se compararmos com seus dois últimos filmes e, talvez, uma superação do suicídio de seu irmão, também diretor, Tony Scott (Top Gun - Ases Indomáveis) em agosto de 2012.
Moisés (Christian Bale) é um hebreu que teve sua vida salva pela irmã do faraó em uma época em que este último ordenou matar os filhos dos escravos. O menino então foi criado como o filho do faraó junto ao herdeiro do trono, Ramses (Joel Edgerton). Com a morte do pai adotivo a verdade sobre a origem de Moisés foi revelada, e com o seu exílio do palácio ele recebe uma tarefa de Deus que se baseia em libertar os hebreus da escravatura.
No que tange à comparação dos de Noé e Êxodo é fácil dizer que o primeiro é infinitamente superiro e melhor realizado do que o segundo, mas isso não significa que o Êxodo não tenha seus méritos. As histórias são diferentes e as mentes por trás das câmeras também, então a única semelhança que temos entre elas é que ambas tratam de histórias bíblicas.
Nada neste novo filme é de fato original, tudo que acontece em cena já foi visto na linda animação de 1998, O Príncipe do Egito. Ou seja, existe a boa relação entre Ramses e Moisés, o relacionamento de ambos, as dez pragas do Egito (afrontas aos deuses egípcios) e a fúria de Deus nesta ocasião. É um tanto desgostoso ver que os roteiristas não tomaram tantas liberdades na história original do texto sagrado, apenas algumas modificações que não alteram o produto final.
O grande trunfo de Êxodo é a forma racional que enfrenta as coisas, não assumindo uma posição cristã unânime. Moisés era um homem descrente que recebeu o chamado de Deus para libertar o povo hebreu. Ele, na verdade, questiona sua posição como mensageiro e não compreende as os métodos Dele de agir, já que é um ser de bondade, mas suas atitudes são furiosas e castigadoras. Essa história é algo que os fiéis precisam saber interpretar. Ao mesmo tempo, os descrentes do cristianismo podem enxergar Deus como um matador daquilo que criou, mas o filme também oferece uma visão para as atitudes racionais dos homens. É por isso que o personagem de Bale é tão complexo, pois ele representa não só a fé, mas também a descrença dos seres humanos.
Vê-se esse sentido imparcial nas próprias pragas que Deus mandou no Egito. Assim como foi explorado em A Colheita do Mal em 2007, podem haver explicações científicas para estas catástrofes (mas é claro que essa visão de ciência da natureza é improvável para um povo com tantas crenças). Portanto preste atenção quando um dos personagens equacionar a origem de algumas pragas e até a forma como poderia ter sido divido o Mar Vermelho, pois nenhuma mentira está sendo dita.
Mas o que poderia ser um material tão forte e precioso para todos os espectadores (independente da crença) se transforma em desculpas vagas e confusas. Às pragas novamente, um nobre fala com tanta certeza e razão sobre como elas surgiram, mas em seguida implora para dezenas de deuses para que acabem com estas, dando a entender que suas divindades só existem quando são convenientes para os homens.
E se Bale entrega um personagem em conflito com si mesmo, em nenhum momento ele parece realmente cativado a realizar o que lhe foi incumbido, a sensação que passa é de apenas uma obrigação de um trabalho tedioso. Já o personagem de Edgerton é um equívoco, pois seu comportamento é tão óbvio e infantil (desviando o olhar de assuntos importantes, falta de interesse em afazeres de um faraó e um eterno egocentrismo da mensagem: “o poder cega o homem”) que chega a ser superficial, junte isso as cenas que ele tenta demonstrar algum afeto para com o filho e esposa e terá um faraó completamente unidimensional e mimado até o último segundo de projeção. No quesito personagem as mulheres não têm quase nenhum espaço, já que Sigourney Weaver não possui a menor necessidade de estar presente (o mesmo se diz de Ben Kingsley) e María Valverde serve apenas como esposa de Moisés, sem nenhuma função e tampouco autoridade. Aaron Paul surge irreconhecível e calado em praticamente todas as cenas, ao contrário de John Torturro que tem alguns diálogos interessantes para o bom andamento da trama.
Os efeitos visuais nos entregam cenários rasos e, em sua maioria, modestos - até esquecemos que está em questão a civilização egípcia - é no desfecho que estes realmente dizem a que vieram. O método de gravar de Scott é curioso. Ele investe em planos aéreos muito graciosos e elegantes (como a cena da luta dos crocodilos e a sombra da morte aos primogênitos), mas ele também mescla entre cortes rápidos em batalhas e metáforas óbvias (como o cruzamento de espadas e o empilhamento de pedras). Mas o diretor abre a cena em planos bem, mas bem, amplos um sem número de vezes, pois ver a quantidade de hebreus que estão fugindo funciona uma ou duas vezes, mas ele faz questão de mostrar umas cinco, sem falar dos palácios e montanhas. As cenas de lutas são eficazes, mas mostram uma semelhança imensa com guerras apresentadas em Gladiador, principalmente nas mortes dos personagens. A maquiagem é competente, pois é tão sutil e verissímil que quase convence. E a curiosidade está na representação de Deus, visto como um menino de 11 anos, vivido de maneira autoritária e respeitosa pelo jovem britânico Isaac Andrews. Devemos lembrar que as imagens santas que temos hoje são fruto da Idade Média, antes dela a interpretação das figuras religiosas cristãs eram bem livres.
Encerrando com a escritura dos 10 Mandamentos (lembrando o clássico homônimo de 1956), com frases poéticas e inteligentes, o que é muito já que estejamos falando uma história de fé e qualquer simples fala pode soar presunçosa, o personagem título é uma boa lição de religiosidade para todos que o assistirem.
Êxodo: Deuses e Reis é um filme competente, mas decepcionante em vários sentido. Ele peca em ritmo e não é rico em coragem em apostar em algo novo, também não surpreende em quesitos técnicos. Entretanto é uma experiência saudável para os cristãos e não cristãos que enxergam com maturidade as histórias bíblicas. Certamente não converterá e nem insultará ninguém. É uma visão interessante de um cineasta que não está em melhor fase, mas que com esse trabalho dá um sinal de que ainda tem muitas coisas boas por vir.
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