quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Crítica - Festa no Céu


Por Luis Ribeiro

Não nos façamos de desentendidos quando falam que as animações estão crescendo muito no mercado cinematográfico, digo isso devido ao grande investimento dos estúdios em financiar essa arte digital que é extremamente merecedora de tal status. E quando digo que elas cresceram em demasiado não me refiro apenas no sentido de estarem presentes em maior quantidade, mas em qualidade também. Mas ninguém precisa acreditar no que digo, basta ver belas produções animadas de todo o fundo, como Ernést & Celestine (da França) e O Menino e o Mundo (Brasil). Entretanto uma obra que poderia provar que eu estou errado seria Festa do Céu, que americaniza demais o próprio México.

Em um dia comum na escola um grupo de crianças desordeiras é encaminhada para uma visita ao museu da cidade, chegando lá eles acabam por conhecer uma história diferente das monótonas narrações das civilizações antigas. A história que ouvem está presente no “Livro da Vida”. Na narrativa Lá Muerte/Catrina é uma divindade adorada e governa o Mundo dos Lembrados, ela, por sua vez, é a ex-mulher de Xibalba, um travesso e trapaceiro deus que domina a Terra do Esquecidos. Em uma comemoração do Dia dos Mortos os dois fazem uma aposta que envolve o destino de Maria, Manolo e Joaquim. Os deuses escolhem um dos jovens cada um e aquele que vir a se casar com Maria dará a vitória à sua divindade e o direito de governar a Terra dos Lembrados.

Nota-se o interesse da animação em querer representar o Dia dos Mortos na produção, pois é uma comemoração tão cheia de cores e adereços que se assemelha ao Carnaval no Brasil, além disso, envolve um tema delicado, como já disse em outros textos, que é a morte. Levando em conta que trata-se de um filme para crianças isso é muito corajoso.

E se “coragem” para alguns é um elogio, talvez essa palavra não se aplique no que o filme propõe, pois seu início é muito rico e com uma premissa interessante, mas o roteiro tem a...coragem de quase suicidar-se em erros muito primários, estragando a boa impressão que causou nos 10 primeiros minutos originais e criativos.

É incrível que uma mitologia tão interessante, um dia tão culturalmente curioso e uma celebração tão forte sejam estragadas por incompetência dos roteiristas Douglas Langdele e, do também diretor, Jorge R. Guitierrez. Ambos não conseguem fazer que a história seja interessante em quase momento nenhum durante a projeção, os personagens não divertem nem fazem rir, apenas fazem piadinhas estúpidas e canas “engraçadinhas” que acredito que nenhuma criança terá vontade de rir.

Se não bastasse os responsáveis conseguirem a proeza de destruir uma proposta boa, eles também têm um descaso enorme com a verdade história, quando mais de uma vez mostra-se personagens com vestimentas incoerentes com o contexto históricos que estão introduzidos; um detalhe que pode passar despercebido por pessoas de outros países, mas que certamente os conterrâneos mexicanos sabem a história de seu próprio país e não se contentaram com tais mentiras.

Admito, porém, que visualmente o filme é muito belo, isso não tem o que discutir. Os personagens são digitalmente magistrais, as cores combinam-se lindamente compondo cenários e figurinos muito atípicos, – note o tamanho desproporcional dos cabelos dos personagens – mas  é perceptível o exagero gráfico, notando um egocentrismo evidente por parte dos animadores. Junte isso com a trilha sonora cafoníssima de Gustavo Santoalalla, que também não conseguiu compor uma canção original que prestasse - isso é muito estranho já que sou um fã avido de seus primorosos trabalhos em O Segredo de Brokeback Mountain e Babel. E não exagero em dizer que a música do protagonista é tão ruim a ponto de matar um touro.

Mas, de fato, o pior dos problemas de toda a trama estaria no fato de que os responsáveis não tiveram o tato certo em acertar no tom de suas mensagens, pois elas são transmitas de uma forma tão convencional que empobrece o filme completamente. Nunca é bom quando um personagem precisa explicar a moral da história por meio de diálogos.

“Matar o touro é errado”, diz o protagonista, mas em momento algum ele fala o porquê de ser errado, apenas cospe isso ao espectador, menosprezando sua inteligência. O mesmo ocorre quando Maria (o nome mais comum para uma personagem do México) faz um monólogo sobre a independência feminina, mas ele se faz completamente sem sentido devido ao fato de a moça estar em uma eterna escolha de quem será o seu marido, em nenhum momento cogita-se a possibilidade de ela não se casar. E se não bastasse o filme passa um sentimento de egoísmo através de pequenas passagens, pois os Lembrados estão mais preocupados com a possibilidade de serem esquecidos do que em saber para a onde as almas de seus familiares vão depois de mortos. Para concluir a falta de cautela por meio do roteiro, perto da cena final, um dos personagens, por acaso, fala algo que o incrimina sem motivo nenhum, tornando muito fácil a resolução da história e insinuando outra vez que os roteiristas se perderam na própria história e apelaram para tal saída.

E para quem não sabe a animação é produzida por ninguém menos que Guillermo del Toro, que é um excelente produtor, mostrou competência na produção de O Orfanato, mas errou nos filmes Mama e A Origem do Guardiões (apesar de belo, sofre do mesmo mal do filme em questão). Mais uma vez errou em suas escolhas de produção, na verdade, o cineasta tem uma facilidade em produzir filmes visualmente interessantes, mas potencialmente falhos.

Apesar de se tratar de um filme curto, é inegável a fadiga do espetador em certo ponto da projeção, pois existem tantas cenas descartáveis ou mal feitas que nada chega a ser estimulante, como a intromissão irritante do grupo de crianças da escola que não contribuem em nada para o andamento da obra. ou o portal para o Mundo do Esquecido, absurdamente fácil de ultrapassar, mesmo pelas “dificuldades” no caminho.

Impossível, também, não compararmos o filme com a obra de Tim Burton, o magistral Noiva Cadáver, que possui uma proposta semelhante, mas que funciona em explorar o mundo dos mortos de forma descontraída e alegre, algo que falha neste novo projeto.

Festa no Céu é a prova que não só de estética vive uma animação, pois ela consegue falhar em todos os outros aspectos, não só cinematográfico, mas culturais também, apelando e escolhendo situações fáceis e, o pior de tudo, aproveitando o mínimo possível da celebração mexicana do Dia dos Mortos. Entregando um filme sem graça e sem fôlego para entreter a quem quer que seja, pois os já maduros não terão paciência, e se engana aqueles que pensam que as crianças não sabem distinguir um bom filme de um ruim.
Postagem mais recente Postagem mais antiga Página inicial

0 comentários:

Postar um comentário

Seguidores

Pseudo crítico de cinema!

Tecnologia do Blogger.

Arquivo do blog