Em um dia comum na escola um grupo de crianças desordeiras é encaminhada para uma visita ao museu da cidade, chegando lá eles acabam por conhecer uma história diferente das monótonas narrações das civilizações antigas. A história que ouvem está presente no “Livro da Vida”. Na narrativa Lá Muerte/Catrina é uma divindade adorada e governa o Mundo dos Lembrados, ela, por sua vez, é a ex-mulher de Xibalba, um travesso e trapaceiro deus que domina a Terra do Esquecidos. Em uma comemoração do Dia dos Mortos os dois fazem uma aposta que envolve o destino de Maria, Manolo e Joaquim. Os deuses escolhem um dos jovens cada um e aquele que vir a se casar com Maria dará a vitória à sua divindade e o direito de governar a Terra dos Lembrados.
Nota-se o interesse da animação em querer representar o Dia dos Mortos na produção, pois é uma comemoração tão cheia de cores e adereços que se assemelha ao Carnaval no Brasil, além disso, envolve um tema delicado, como já disse em outros textos, que é a morte. Levando em conta que trata-se de um filme para crianças isso é muito corajoso.
E se “coragem” para alguns é um elogio, talvez essa palavra não se aplique no que o filme propõe, pois seu início é muito rico e com uma premissa interessante, mas o roteiro tem a...coragem de quase suicidar-se em erros muito primários, estragando a boa impressão que causou nos 10 primeiros minutos originais e criativos.
É incrível que uma mitologia tão interessante, um dia tão culturalmente curioso e uma celebração tão forte sejam estragadas por incompetência dos roteiristas Douglas Langdele e, do também diretor, Jorge R. Guitierrez. Ambos não conseguem fazer que a história seja interessante em quase momento nenhum durante a projeção, os personagens não divertem nem fazem rir, apenas fazem piadinhas estúpidas e canas “engraçadinhas” que acredito que nenhuma criança terá vontade de rir.
Se não bastasse os responsáveis conseguirem a proeza de destruir uma proposta boa, eles também têm um descaso enorme com a verdade história, quando mais de uma vez mostra-se personagens com vestimentas incoerentes com o contexto históricos que estão introduzidos; um detalhe que pode passar despercebido por pessoas de outros países, mas que certamente os conterrâneos mexicanos sabem a história de seu próprio país e não se contentaram com tais mentiras.
Admito, porém, que visualmente o filme é muito belo, isso não tem o que discutir. Os personagens são digitalmente magistrais, as cores combinam-se lindamente compondo cenários e figurinos muito atípicos, – note o tamanho desproporcional dos cabelos dos personagens – mas é perceptível o exagero gráfico, notando um egocentrismo evidente por parte dos animadores. Junte isso com a trilha sonora cafoníssima de Gustavo Santoalalla, que também não conseguiu compor uma canção original que prestasse - isso é muito estranho já que sou um fã avido de seus primorosos trabalhos em O Segredo de Brokeback Mountain e Babel. E não exagero em dizer que a música do protagonista é tão ruim a ponto de matar um touro.
Mas, de fato, o pior dos problemas de toda a trama estaria no fato de que os responsáveis não tiveram o tato certo em acertar no tom de suas mensagens, pois elas são transmitas de uma forma tão convencional que empobrece o filme completamente. Nunca é bom quando um personagem precisa explicar a moral da história por meio de diálogos.
“Matar o touro é errado”, diz o protagonista, mas em momento algum ele fala o porquê de ser errado, apenas cospe isso ao espectador, menosprezando sua inteligência. O mesmo ocorre quando Maria (o nome mais comum para uma personagem do México) faz um monólogo sobre a independência feminina, mas ele se faz completamente sem sentido devido ao fato de a moça estar em uma eterna escolha de quem será o seu marido, em nenhum momento cogita-se a possibilidade de ela não se casar. E se não bastasse o filme passa um sentimento de egoísmo através de pequenas passagens, pois os Lembrados estão mais preocupados com a possibilidade de serem esquecidos do que em saber para a onde as almas de seus familiares vão depois de mortos. Para concluir a falta de cautela por meio do roteiro, perto da cena final, um dos personagens, por acaso, fala algo que o incrimina sem motivo nenhum, tornando muito fácil a resolução da história e insinuando outra vez que os roteiristas se perderam na própria história e apelaram para tal saída.
E para quem não sabe a animação é produzida por ninguém menos que Guillermo del Toro, que é um excelente produtor, mostrou competência na produção de O Orfanato, mas errou nos filmes Mama e A Origem do Guardiões (apesar de belo, sofre do mesmo mal do filme em questão). Mais uma vez errou em suas escolhas de produção, na verdade, o cineasta tem uma facilidade em produzir filmes visualmente interessantes, mas potencialmente falhos.
Apesar de se tratar de um filme curto, é inegável a fadiga do espetador em certo ponto da projeção, pois existem tantas cenas descartáveis ou mal feitas que nada chega a ser estimulante, como a intromissão irritante do grupo de crianças da escola que não contribuem em nada para o andamento da obra. ou o portal para o Mundo do Esquecido, absurdamente fácil de ultrapassar, mesmo pelas “dificuldades” no caminho.
Impossível, também, não compararmos o filme com a obra de Tim Burton, o magistral Noiva Cadáver, que possui uma proposta semelhante, mas que funciona em explorar o mundo dos mortos de forma descontraída e alegre, algo que falha neste novo projeto.
Festa no Céu é a prova que não só de estética vive uma animação, pois ela consegue falhar em todos os outros aspectos, não só cinematográfico, mas culturais também, apelando e escolhendo situações fáceis e, o pior de tudo, aproveitando o mínimo possível da celebração mexicana do Dia dos Mortos. Entregando um filme sem graça e sem fôlego para entreter a quem quer que seja, pois os já maduros não terão paciência, e se engana aqueles que pensam que as crianças não sabem distinguir um bom filme de um ruim.
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