segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Crítica - Garota Exemplar


Por Luis Ribeiro

Posso ser suspeito para falar do genial diretor e produtor David Fincher, afinal, até o momento, não tive o infortuno de assistir um filme ruim do mesmo, talvez porque não exista ou, talvez, porque exagero nos elogios feitos a ele. E mesmo tendo problemas com O Curioso Caso de Benjamin Button e Millenium - Os Homens que Não Amavam as Mulheres, por motivos de o primeiro ser cansativo, trivial e (de até certo ponto) plagiado, mas nunca cansativo, desinteressante ou mal produzido; já no segundo a falta de inspiração ficou clara e a própria história (adaptada do livro de Stieg Larsson e versão americana do inferior filme sueco ) não contribuía para o manter o interesse do espectador, mas obviamente apresentava elementos narrativos caprichados e a presença de um diretor autoral que sabe escolher a melhor equipe para seus trabalho. Também tenho algumas ressalvas de Alien 3 e O Quarto do Pânico, mas nada muito grave, pelo contrário, estes últimos contrastam ainda mais a extrema competência de Fincher em Zodíaco, Clube da Luta, Seven - Os Sete Crimes Capitais e A Rede Social, todos jovens clássicos que tiverem o melhor de seu potencial extraído. Por isso, não poupo elogios, mas sim a modéstia, quando falo de Garota Exemplar.

Nick e Amy Dunne (Bem Affleck/Rosamund Pike) estão casados há cinco anos e prestes a completar suas novas bodas, porém tudo se complica com o desaparecimento de Amy em sua própria casa. Com esta notícia, o marido procura polícia para ajuda-lo a encontrar sua esposa, não tarda para que o caso se torne conhecido e todos os jornais já estarem sabendo de vários detalhes sobre o casal, fazendo com que Nick se torne o principal suspeito do desaparecimento de Amy.

A própria sinopse é limitada, pois o filme vai muito além do que se diz nessas poucas linhas, são tantas reviravoltas que é primordial a forma que os acontecimentos vão se ligando e como os fatos são apresentados para o espectador, portanto falar demais no resumo estragaria a esperiência, mas esse tom de mistério é crucial para a trama. É impossível não a ver linha tênue que estabiliza o filme, ele é montado de forma categórica e estimulante, basta ouvir a primeira frase dita nos primeiro segundos que o espectador saberá que não se trata de apenas mais um filme comum.

Torno a falar do trabalho de Fincher, já que é a melhor parte da produção. O diretor tem uma enorme familiaridade com personagens extremamente racionais (exemplos não faltam: Mark Zuckerberg, como criador do Facebook; John Doe, como assassino em série e Tyler Durden, como chefe de um grupo secreto) e a forma com que explora suas mentes, pois ele traz humanidade à personagens conturbados, sanidade aos psicóticos e loucura aos céticos, sem nunca fazê-los parecer caricatos, na verdade, cria-se uma identidade a partir destes elementos. Logo, nota-se o enorme entendimento de David por personagens complexos e como eles são inseridos em cena.

A equipe do cineasta é composta por profissionais sempre muito bem escalados e que já tiveram experiências em projetos semelhantes, a edição de som é ótima (genial a cena de um grito de Pike que não se é audível, nem mesmo ao espectador), a montagem Kirk Baxter é estupenda, como de costume, observe a forma com que ele encaixa os acontecimentos atuais, com os flash backs representando as memórias dos protagonistas, ainda unindo as cenas com narrações (angustiantes) de Rosamund. Apesar de serem vários tempos em cena, todos eles são escaldos de forma linear, ou seja, mesmo que a cena seja do passado ela contribui para o andamento das perspectivas atuais. Nada é por acaso!

Nota-se a competência estrutural ao iniciar e encerrar o filme com a mesma cena, para apontar a evolução da personagem principal e refletir sobre suas próprias opiniões referindo-se a ela.

A composição de Trent Reznor é discreta e competente, unida com o design de produção, de Donald Graham, e figurino que transmitem as sutilezas da obra, visto isso no azul nas roupas de Afflek (passando uma serenidade concreta no personagem), mesmo tom presente na fotografia, que possui tons de dourado (marca do diretor), contrastando cenas que possuem muito sangue. A paleta de cores sempre muito focada em tons mais neutros e pouco vivos, mesmo em cores mais fortes.

Afflek é mostrado como um homem racional que não sabe lidar com situações de desespero e matem-se calmo em momentos que em que devia estar a beira do enlouquecimento, tudo para em determinado momento seja explicado seus motivos de se manter sempre muito retraído, mas sente-se sua carga emocional e ele transmite claramente  esse sentimento (portanto, repense suas expectativas a respeito do novo Bataman). O diretor tem uma boa mão para escolher seu elenco, pois é possível que o leitor não tenha familiaridade com o nome de Rosamund Pike, afinal não foram muitos filmes marcantes da atriz. Porém, a Amy do filme é a personagem mais difícil e de toda a trama, ela é o centro de todas as reviravoltas do roteiro (escrito pela mesma autora do livro homônimo, Gillian Flynn), passando de sexy para assustadora, sua transição é muito bem estudada, juntamente com seu trabalho de corpo, portanto sua atuação é digna de prêmios, e se seu nome não estiver presente na lista da temporada de premiação, é menos um motivo para eu acompanha-las. Os coadjuvantes surgem como grande suporte em cena e todos se encaixam perfeitamente; a gêmea de Nick, vivida por Carrie Coon, é autoritária e cautelosa, Kim Dicksens brilha como detetive responsável pelo caso, ao lado do igualmente competente Patrick Fufit; Neil Patrick Harris está se aventurando em papéis mais sérios (com o término de How I Met Your Mother), a figura da costumeira, “the bitche”, de Missi Pyle, ao lado da boa atuação (acredite!) de Tyler Perry.

E se não me atrevi a escrever nada de negativo para o exemplar novo trabalho de Fincher, devo me prender às pequenas falhas da produção, a mais grave delas é o fato de o filme ser grande demais, não chega a ser um absurdo, porém, certamente, está mentido o espectador que não se cansou em uma ou duas etapas da projeção ou achou que o filme acabaria 20 minutos antes.

Outra grande sacada da trama é a forma de explorar a mídia, que atualmente vem se tornando um carrasco e a maior inimiga de várias pessoas, pois esta é o júri para apontar sentenças de indivíduos, ou seja, as pessoas que têm suas vidas expostas podem ser demonizadas ou santificadas através do meio de comunicação em massa, algo que nunca esteve com tanta força quanto nas circunstâncias atuais. E é corajoso apontar isso em um filme que tinha tantas expectativas de um diretor muito amado dos jornalistas.

Garota Exemplar é um dos melhores filmes do ano, pois tudo funciona com grande competência, nenhuma das aquisições se sobressai, é tudo muito equilibrado, criativo e tenso. Afirmo que não é exagero de muitos críticos apontarem como uma obra-prima, embora, eu, particularmente, prefira pensar que ainda virão vários filmes de David Fincher que sempre acabam se superando. Posso não aponta-lo como uma perfeição, mas é de fato um senhor filmaço, de aplaudir de pé, na sala de cinema, nos créditos finais.
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