Eu não sou o maior fã dos filmes do cineasta, já que seu exibicionismo chega a irritar. Se em A Origem ele entrega uma história complexa e bem amarrada, ele peca em ser racional demais e pouquíssimo criativo em expor sua ideia. O mesmo ocorre neste novo projeto, o narcisismo é tamanho que o resultado chega muito perto do desastroso...muito perto.
A Terra está ameaçada por uma praga que está acabando com a comida e contaminando o ar do planeta, logo os seres humanos precisam de uma nova casa, caso contrário sua raça não existirá mais. Cabe então ao fazendeiro Cooper (Matthew MaConaughey), a cientista, Dra. Brand (Anne Hathaway), e sua tripulação em encontrar esta nova esperança para a vida terrestre.
A premissa do filme não diz nem um quinto do que realmente acontece, mas falar muito da trama seria imoral e acabaria com a experiência futura de muitos, porém é sabido de que a introdução não é nem um pouco original. A Terra está ameaçada por algum motivo qualquer (neste caso é tratado de forma muito banal) e os seres humanos não têm condições de viver mais nela. Tenhamos paciência, como eu disse Nolan, não é um deus da criatividade. O problema inicial seria que toda esta primeira parte é extensa e monótona. O alívio é que melhora.
Nos últimos anos o diretor tem tido um costume não muito agradável de complexar muito suas histórias, isso até que funcionou em A Origem, mas é um pecado em Interestelar. O roteiro é construído com fundamentos (apesar de muito bem estudados) complicadíssimos sobre física quântica, teoria gravitacional, o tempo e o espaço e várias questões astrológicas que nem sei nominar. Todo esse papo científico toma conta de boa parte dos diálogos e da essência do filme, fazendo com que o espectador se perca mais de uma vez tentando realmente entender o que está acontecendo na história. E acredite, se vasculharmos bem a estrutura do roteiro podemos ver que ele sobreviveria sem essa enorme dose de complexidade abstrata, na verdade ela só é inserida para que o roteiro pareça mais inteligente; uma grande besteira já que ele estabelece parâmetros que não respeita em determinado momento da narrativa.
E se o primeiro ato é rico em tentativas de explicações prévias, mas pobre em estimular o espectador em continuar na sala de cinema, é no segundo ato que realmente algo de interessante acontece. É nele que estão inseridas as melhores cenas e os melhores cenários (desde a superfície gelada, até o planeta composto por líquido), mas também há um erro sério que Nolan insiste em repetir em todos os seus filmes, ele simplesmente não sabe usar corretamente os enquadramentos. Ou seja, ele usa planos fechado quando estes deveriam ser abertos, e vise versa; posiciona atores e objetos de forma errada e ainda colocou uma câmera parada enquanto o exterior se movimenta, causando náuseas ao espectador que se vê completamente perdido nas passagens rápidas, não sabendo distinguir o que está acontecendo com quem.
É no terceiro ato que tudo desmorona. Veja bem, nada contra filmes grandes, mas uma produção de quase três horas de duração (que é o caso desta) precisa, no mínimo, ter um desfecho significativo e que valha a pena todo o esforço exercido até então, algo que Interestelar não consegue fazer.
Os roteiristas (o próprio Christopher e seu irmão, Jonathan) criam uma conclusão tão sem equilíbrio que beira ao ridículo, é tão sem fundamento que anestesia o espectador e o faz pensar se não está diante de um daqueles documentários, exageradíssimos, sobre vida extraterrestre.
E muito falei dos erros de Nolan até o momento e deixei de lado o resto dos elementos cinematográfico, mas estes, apesar de ser uma boa tentativa, não salvam o filme de seu iminente naufrágio.
O som da projeção deixa a desejar, não só no imenso barulho que causa , mas também por um erro amador de ninguém ter notado o quão ruim foi a decisão de fazer com que as vozes dos robôs, CASE e TARS, fossem muito semelhantes a dos humanos, logo não se sabe quem está falando é uma máquina ou uma pessoa.
De fato, a melhor experiência técnica desta produção interminável é a trilha de um inspirado Hans Zimmer, que tinha se mostrado enferrujado desde Rush – No Limite da Emoção, com seu trabalho pavoroso em O Espetacular Homem Aranha 2 - A Ameaça de Electro e o fraco 12 Anos de Escravidão. Mas, neste caso, ele investe em tons crescentes de acordes compostos em órgãos, dando origem a uma trilha forte, poderoso e onipresente durante e projeção.
Os efeitos visuais não arrancam suspiros da plateia, mas, como já disse, entregam boas cenas e cumprem seu papel devidamente, tal como a montagem pouco presente de Lee Smith. Porém são prejudicados pelo mau uso dos enquadramentos.
Por mais que o roteiro tente parecer o mais plausível e o mais “físico”, na projeção se veem erros óbvios de natureza, como o fato de um planeta sem oxigênio produzir fogo ou uma transmissão em vídeo poder ser enviada, em tempo real, de uma galáxia para outra, sem nenhum tipo de dano. Isso sem contar um diálogo envolvendo o tempo percorrido em uma viagem espacial, que se torna tão inútil que, a não que você seja uma astrofísico ou estude este fenômeno, vai simplesmente ignorar conscientemente e torcer para que não seja relevante no futuro da projeção.
Dentre os atores, MaConaughey realmente está fazendo jus ao seu esforço nos últimos anos de mudar sua imagem, prova disso é uma cena perto do final quando a câmera o enquadra em seu monólogo ou quando ele se emociona ao ver as gravações de seus filhos. Já Hathaway surge depressiva e com uma expressão desorientada em boa parte do tempo. Mas são as versões de Murphy que merecem elogios reais, tanto Mackenzie Foy quanto Jessica Chastain brilham em seu personagem que realmente possui uma motivação expressa. Mas nenhum dos coadjuvantes (Michael Caine, Jonh Lithgow, Casey Affleck, David Oyelowo e Matt Demon) desapontam de forma alguma.
E de fato o mais incompatível de toda a história, seria o fato de ela ser tão voltada ao raciocínio e a questões tão lógicas, que não resiste em estruturar o desfecho no... amor. De repente este sentimento é a motivação e a salvação dos personagens para concluir sua missão e através dele que a humanidade teve seu futuro salvo. Isso não condiz com o restante do roteiro e ainda por cima leva uma boa dose de cafonice.
Não há como não mencionar a obra de Stanley Kubrick (2001 – Uma Odisseia no Espaço), já que existem referências óbvias (como a própria trilha e os robôs), mas compará-las faria o próprio Kubrick se remexer no túmulo em frente a tamanha ousadia de fazer uma analogia de um de seus maiores trabalhos com o mais fraco de Nolan. Na verdade, Interestelar está muito mais para Prometheus de Ridley Scoot.
Apesar de tudo, as reflexões filosóficas e existencialistas estão muito bem empregadas neste projeto, e por mais graves que sejam as falhas que apontei até o momento, sou obrigado a dizer que o filme é ganancioso e sério; nota-se um emprenho por parte da equipe e é uma pena que tanto trabalho duro tenha tido um resultado tão mediano. O filme é uma experiência interessante e recomendável de ser assistido, mas só isso.
Para aqueles que não conferiram o filme ainda aconselho não ler este parágrafo, pois nele expresso um grande remorso que tenho sobre a insistência dos irmãos Nolan em encerrar todas as projeções com algo que possa servir para uma sequência ou mesmo fazer repensar tudo que foi dito nas 3 horas anteriores. Isso não serve para causar um debate depois dos créditos, apenas tece alguns comentários rápidos que podem dar a entender que vários elementos da história não eram verdade. Para isso faço minhas as palavras do próprio Christopher quando se recusou a por uma cena pós-créditos em O Homem de Aço. Diz ele: "Um filme de verdade não faz isso".
Portanto não posso dizer que lamento por Interestelar, pois não dei muita atenção à imensa publicidade que se gerou em torno de tal obra, até porque não sou um seguidor ávido dos Nolan, mas confesso que esperava muito mais de um cineasta que já fez filmes tão competentes e com uma reputação tão grande em Hollywood. Mas para os devidos fins, Interestelar não merece a fama que tem, já que Christopher precisa comer muito arroz e feijão para um dia ter a coragem de se aventurar no universo da ficção-científica mais uma vez, pois até eu que sou fã do gênero vi apenas uma tentativa de criar um épico espacial, não mais que isso.
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