terça-feira, 20 de maio de 2014

Crítica - Godzilla (2014)


Por Luis Ribeiro

Devo confessar que sempre fui muito fã do “Rei dos Monstros”, pelo motivo de ele ser uma dos poucas criaturas aterrorizantes do cinema com alguma chance de existir (de certa forma, King Kong, também inclui-se nesta descrição), devido a isso era inevitável que sentisse ansiedade para conferir o novo filme, já que este marca os 60 anos desde a primeira obra do monstro nas telonas (comandado por Ishirô Honda, Japão). . Não se engane, Godzilla (de 2014) é um bom filme, mas podia ter sido muito melhor.
Joe Brody (Bryan Cranston) e sua esposa, Sandra (Juliette Binoche) têm uma vida atarefada, já que precisam dividir a atenção com seu filho e seu trabalho numa usina nuclear japonesa. Nesta que um dia ocorre um acidente que acaba por tirar a vida de Sandra, assim Joe é obrigado a criar sozinho o filho. Quinze anos depois da catástrofe e Joe insiste em dizer que o ocorrido não foi um fenômeno natural e sim uma ameaça muito maior, o duelo de raças de monstros que um dia dominaram o planeta.
Os primeiro quinze minutos do filme são fantásticos, nunca os créditos iniciais de um longa foram tão interessantes e tal empolgantes como os deste filme; são nesses minutos iniciais que toda a premissa do filme é tecida, e de fato, ela é muito forte e extremamente convincente; quando tudo for explicado no filme, é possível que o espectador se pegue pensando: “Nossa, isso podia ter acontecido mesmo!”; uma vez que o roteiro investe, de um forma impecável,  na união de acontecimentos verídicos (como os testes nucleares americanos) com o grande monstro em questão.
O problema é que a criatividade para por aí, mais especificamente quando Aaron Taylor-Johnson, assume o papel de protagonista como o filho de Joe Brody. É impressionante como várias coisas começam a desandar depois disso, já que Aaron é muito inexpressivo e não carrega bem o filme, ele deveria voltar a combater o crime dos quadrinhos, como faz em Kick-Ass, do que combater répteis geneticamente alterados pela radiação. Além disso, o roteiro insiste em dizer que o romance do protagonista com Elizabeth Olsen (uma atriz muito boa, mas que não tem utilidade nenhuma neste filme) é mais interessante do que vermos um monstro gigante na cidade; a história dos dois é tão presente quer chega a ser entediante ver qualquer um desses personagens em cena.  Além destes temos Ken Watanabe e Sally Hawkins que só fazem caras e bocas de surpresos e estupefatos todas as vezes que a situação piora.
Eu realmente não sei o que os produtores tinham em mente em inserir tantas crianças na trama; existem, pelo menos, quatro atores mirins que não tem motivos para terem presença no filme. Tudo isso, certamente, veio da mente do diretor, Gareth Edwards, em inseri-los no contexto, somente para a obra parecer mais humana e não tão violenta.
É possível que o cineasta tenha se inspirado em Guillermo del Toro e no último filme deste (Círculo de Fogo), pois vários erros que existem neste filme também existem no novo Godzilla (como o fato de grande parte das cenas de batalha serem filmadas a noite, o que prejudica muito a visão do espectador para com as tomadas, sendo ainda piores em 3D).
Mas o diretor, que teve como seu filme de estreia: Monstros (que é muito bom, por sinal), tinha tudo para comandar muito bem esse novo filme, e de certa forma o fez. O longa tem seu começo e fim muito bem feitos, com dozes de ação bem aceitáveis e um ritmo legal; entretanto é no segundo ato que mora o perigo. Começamos falando do tempo enorme que o diretor demora em nos mostrar o monstro, não que isso seja ruim, pois adiar o suspense é interessante e funciona bem, neste caso; porém é preciso que o tão aguardado momento seja intenso, coisa que não acontece. Quando Godzilla finalmente aparece ele faz uma entrada triunfal e rapidamente desaparece, este fenômeno acontece repetidas vezes no filme. O diretor, literalmente, fecha a porta na cara de quem quer ver o monstro. Isso é frustrante, pois o espectador “perde”, pelo menos, duas cenas de batalha que seriam muito empolgantes.
Pessoalmente não gostei de como o monstro foi criado, ele se parece muito com a versão de 1954 e isso não é um elogio, pois o Godzilla original era uma fantasia e este é feito com computação gráfica, então não faz sentido eles se parecerem tanto. Óbvio que a versão de 2014 é muito mais trabalhada e melhor arquitetada do que o primeiro, mesmo assim soa um tanto patético eles se parecerem tanto, junto a isso está o design dos serem inimigos, que é, no mínimo, estranho.
O filme tem seus méritos, como toda a parte técnica. Os efeitos são primorosos e caprichados, o som é fantástico (a mixagem para os rugidos é lindíssima e a edição é ótima), além dos enquadramentos que fazem uma mescla interessante de câmera na mão, em movimento e estática. A trilha sonora, do sempre ótimo Alexandre Desplat, é sutil e ameaçadora ao mesmo tempo, resultando numa arquitetura sonora fenomenal.
Porém a história em que Godzilla está incluído pode parecer meio tosca, pois as duas criaturas que o monstro luta durante o filme todo são muito vagas (alimentam-se de radiação, precisam de um ninho porque a fêmea está penha, não sei como, mas está. Também não se sabe de onde estas bestas vieram, como chegaram aqui, e o porquê este réptil enorme os odeia tanto), ou seja, o argumento do filme é pouco convidativo. É uma pena, pois os roteiristas criaram uma premissa tão boa, mas não conseguiram criar uma trama que se igualasse. Godzilla é bonzinho agora, mas é que essas borboletas gigantes invadiram seu território e o acordaram de seu sono, e isso ele não permite, eles precisam saber com quem estão lidando (!).
Ignore também as cenas estúpidas que Edwards coloca no filme, como o menino encontrando sua família entre milhares de pessoas e a cena de carinho entre as mariposas mutantes.
Devido ao grande sucesso de bilheteria o filme terá uma continuação, e isso pode ser bom, porque o filme tem um potencial alto e que deve ser aproveitado, então uma sequência seria perfeita para esse filme que cumpre seu papel. Mas não queremos mais do mesmo; queremos Godzilla com uma história a sua altura.




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