Desde 2009, quando chegou de fininho e depois causou o maior alvoroço é que o menino já mostra seu talento nato com o excepcional Eu Matei Minha Mãe. Devo confessar que tenho um fraco por seus filmes, já que os acompanho desde que o nome do cineasta não estava tão em alta. Apesar de ter ressalvas de Laurence Anyways e Amores Imaginários, ainda considero o trabalho de Xavier primordial. É com Mommy que ele mostra que amadureceu e já está fazendo filme de gente grande.
Diane Després (Anne Dorval) tem um filho problemático, Steve (Antoine-Olivier Pilon) e recebe a notícia que terá de cuidar dele após um incidente que o jovem rebelde cometeu. Morando juntos, ambos encontram problemas em se relacionar e em se manter financeiramente. É com a ajuda da vizinha, Kyla (Suzanne Clément), que tudo começa a melhorar.
Dolan dirigiu, escreveu, produziu, editou e foi o figurinista chefe do filme (só lhe faltou atuar, como costuma fazer). Nota-se que o rapaz tem um empenho imenso em seus projetos, que são sempre muito originais e autorais, isso é inegável.
A ousadia do projeto já é vista nos primeiros segundos, quando percebemos que o filme está sendo rodado em um formato 1:1, extremamente limitado, como se fosse filmado por um celular na vertical (até quando as pessoas vão fazer isso?). Aplica-se aqui uma visão contida dos personagens, que parecem presos a esse espaço tão pequeno, causando uma impressão claustrofóbica no espectador que logo entende que tal artificio não só é muito belo, como torna-se impossível imaginar o projeto sendo rodado em algo mais convencional.
Mommy, que foi aplaudido em pé e por cinco minutos no Festival de Cannes em 2014, é um grande estudo de personagem e um reflexo da vida do autor. Quem acompanha Xavier sabe que ele é homossexual assumido e teve problemas de relacionamento com sua mãe (recomendo seu primeiro filme para os mais desavisados). A figura materna aqui – vivida perfeitamente por Dorval – é a alma do filme, refletindo a mãe cega pelo amor que tem pelo filho e que se recusa a tomar alguma atitude que o machuque. O roteiro também não infantiliza a figura de Steve (vivido pelo irretocável Pilon, de 17 anos) a ponto de torna-lo um bebê que depende de sua mãe, é um jovem que cresceu sem pai e admira a mãe acima de tudo, algo que pode ter sido um escorregão do filme ao transformá-lo num racista em determinada cena, só para parecer mais inconveniente.
Tudo é ambientado em um Canadá, fictício, onde existe uma lei em que crianças problemáticas podem ser internadas em hospitais públicos, com grande facilidade, caso os pais não deem conta do tratamento domiciliar. Afora isso, vê-se um país fora dos padrões utópicos que a mídia divulga. Pois, apesar da condição de vida no Canadá ser alta, ainda existe pessoas desempregadas e com dificuldade em manter suas vidas equilibradas.
O filme martela sobre a figura materna, que neste caso existem duas. A personagem de Clément (magistral!) surge como um suporte para a criação do menino. Note que sempre se engradece a figura das duas matriarcas, ambas sentem um amor incondicional pelo menino mesmo que suas ações afastem qualquer merecimento de carinho. Dolan é genial em escrever um personagem complexo e, ao mesmo tempo, sortudo por ter duas mães tão compassivas e preocupadas com ele, algo que cria uma linha tênue para a condição do humor do protagonista, pois ele não reconhece seus atos afetuosos por ser ingênuo e incorrigível.
Chega a ser comovente as cenas que Diane defende seu filho, mesmo que isso custe o preço de suas salvações. É algo imaturo? Não. É o papel de uma mãe. Pois vê-lo ser ferido é o mesmo que a tarefa desta mulher ter falhado para com sua criação. Ela ainda o vê como um indefeso, por mais rebelde que seja o menino.
E em dois momentos filme nos faz beirar às lagrimas quando as cenas se expandem para um formato mais casual, mas que rapidamente retornam ao original. A segunda, diga-se de passagem, é o melhor momento do filme e que, confesso, me peguei secando os olhos durante a projeção. Uma passagem que mostra a ideia de fuga da protagonista em imaginar um filho adorável e com um futuro promissor. É forma de sobrevivência da mulher: fantasiar um jovem que não faz – e nunca fará – parte de sua realidade. Falo, sem exagero nenhum, que trata-se de uma das cenas mais belas que minha curta vida de cinéfilo já registrou.
Isso sem falar da trilha inspirada que o filme possui. Além da aula de direção de fotografia, digna de todos os prêmios, de André Turpin, criando cenas desfocadas; uma colorização levemente amarela; filmando personagens através de superfícies transparentes e, lógico, pelo formato. Una isso à edição de Dolan, com suas habituais mudanças de ritmos, e temos uma obra de emocionar até os mais céticos. Certamente o longa (com o perdão do trocadilho) é longo de mais e possui alguns tropeço leves que nada comprometem sua estrutura. Na verdade, se tivesse o hábito em dar notas para filmes, não extaria em dar a mais alta delas para Mommy. Guarde esse nome, Xavier Dolan, pois esse menino tem futuro.
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