O policial Ralph Sarchie (Eric Bana) é famoso em seu meio pelas suas intuições de encontrar casos extremamente perigosos e incógnitos, isso o levou a vários crimes envolvendo uma mãe que arremessa seu filho na jaula de um leão; um caso extremo de agressão familiar e uma família amedrontada na própria casa. Apesar de lidar com a razão e acreditar que maldade apenas existe nos homens ele acaba se cegando pelos fatos óbvios que envolvem foças sobrenaturais em todos os seus recentes casos, para auxiliá-lo nestas novas investigações ele conta com a ajuda do padre Mendoza (Edgar Ramírez) e descobre a ligação entre os crimes e como sua família poderá estar em perigo também.
Scott Derrickson (A Entidade e O Exorcismo de Emily Rose) possui um tato bom para o terror, já que seus filmes do gênero demonstraram imensa competência em sua estrutura, fazendo com que a estimativa de cobrança não fosse pequena neste novo filme. É lastimável que a produção não seja só ruim, mas completamente descartável, porque são pouquíssimos pontos positivos que posso listar neste texto. O principal seria uma nova abordagem da atmosfera de terror unida com tramas policiais, uma nova proposta engenhosa, mas que foi muito mal usada por Derrickson, pois o filme, acima de tudo, é vago.
O roteiro tem tantas voltas e tantos conflitos que nenhum deles parece ter sido realmente resolvido. O mesmo se vale aos personagens, são tantos, que o realizador dá a entender que vai desenvolvê-los, mas apenas os elimina quando é conveniente. Outras personagens femininas, como Olivia Munn e Lulu Wilson, só servem como vítimas, porque sua contribuição para o desenvolvimento da trama é quase nula.
Dentre os protagonistas, é difícil escolher o mais problemático, pois Bana surge completamente inexpressivo em todo o filme (não porque seu personagem tem conflitos no trabalho e é amargurado na vida, é porque ele não consegue fazer outra expressão), mesmo quando é exigido um imenso contraste emocional devido aos acontecimentos com sua família, ele segue completamente obtuso. Mas o prêmio vai para Ramírez, o padre o qual interpreta é tão bizarro que quase chega a ser risível, pois ele bebe, fuma, pratica sexo de vez em quando, tudo em nome da virtude e da santidade; o espectador pode se confundir pelo que o sacerdote diz durante o filme, ele inventa desculpas para justificar seus atos, falando que eles são aceitos pela Igreja Católica e quase um modelo para serem seguidos, faria mais sentido dizer que é apenas um fiel de seus credos que é especializado na demonologia, mas isso faria com a história tivesse algum tipo de lógica.
E se o elenco não é nenhum primor, o mesmo se diz aos aspectos técnicos. Primeiramente é preciso frisar o quão óbvia permaneceu a direção de Derrickson, pois cria ângulos diferentes para passar a sensação de que as coisas não estão bem e erra muito no ritmo da história, um exemplo é cena que envolve um leão, é tão no início do filme e tal mal dirigida que faz com que o espectador pouco se importe com o que vai acontecer, porque, na verdade, ele já sabe (fazendo com que um filme de terror tenha o seu pior defeito: o tédio). Scott aparece com sustos falsos, uma trilha sonora altíssima e confusa, junto com a previsibilidade das cenas (um quarto macabro, todas as luzes começam e piscar e depois apagam por completo, um silêncio colossal, o policial acende a lanterna e na sua frente aparece algo “aterrorizante” junto com todos os sons disponíveis no software usado na edição do mesmo). É triste ver um potencial de um diretor tão autoral sendo desperdiçado de qualquer forma. Une-se a isso uma fotografia escura onde o espectador raramente sabe o que de fato está havendo em cena, só porque o filme é do gênero horror não significa que ele precisa ser escuro em todas as cenas. Perceba a pouca criatividade de atmosfera do realizador ao colocar as cenas tranquilas de dia e as de assombração à noite, na maior parte. A maquiagem é tão pobre e usada com tanta falta de integridade que parece um filme de baixo orçamento qualquer, mas não se engane, pois a produção custou cerca de trinta milhões.
O alvo das manifestações sobrenaturais também é um caso delicado, pois ora atingem pessoas, ora os animais estão envolvidos. É curioso o caso de o protagonista demonstrar um ódio enorme pelos felinos em geral, quando em nenhuma parte do filme isso se faz relevante ou é explicado o motivo de tanta raiva pelos animais.
O nome “Livrai-nos do Mal”, que é obviamente uma citação da oração “Pai Nosso” dos cristãos, dá a entender que se trata de um filme de temática de conflitos presentes na religião e que o âmbito da Igreja vai estar presente como forma de percursor da história, isso não se concretiza, apenas serve de empecilho na narrativa, criando cenas caricatas e estereotipadas com relação ao cristianismo, que nesse caso só se concentra nas obras das trevas (com os demônios falando latim e espanhol, pois a América Latina deve ter sido um palco para rituais de bruxaria e satanismo no passado, já que é extremamente comum ver filme com uma temática semelhante e usando a cultura latina como forma de possessão, assim como o canibalismo no Brasil e os sacrifícios como oferenda nos países de influência da África, por exemplo).
Como já dito, o filme é muito vago e sem relação alguma com plausibilidade (pois um demônio latino estava preso na Ásia em uma escritura que sabe-se lá de onde veio). São tantos os caminhos que o filme podia traçar, mas foi o escolhido o mais pobre e desinteressante. Claro que não condeno o diretor por seu erro, até porque todos os grandes mestres do cinema têm suas fases ruins e com filmes medíocres, mas tenhamos fé para que no futuro este mal que infligiu Scott Derrickson, com o perdão do trocadilho, nos seja livrado.
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