Em pleno 2014 temos inúmeras guerras ao redor do mundo, como na Síria e na Palestina, onde os povos parecem nunca cessar os ataques. E no Brasil temos congregações políticas (mas não generalizadas) que apoiam o aborto, mas que penalizam pais que constroem caráter de seus filhos por meio de “palmadas”; políticos homofóbicos que insistem em não dar direitos a pessoas que se relacionam com o mesmo sexo e, homossexuais teofóbicos que, por um motivo ou outro, acham que as igrejas são nazistas, além de deputados que frisam ser uma boa ideia expor pornografia para crianças menores de 6 anos com a desculpa de “jovens precisam expor sua sexualidade desde cedo”, mesmo que isso signifique promiscuidade na educação infantil. Com essas afirmações nota-se que é impossível existir paz entre os homens, pois eles estão em constante guerra com suas definições éticas e é justamente essa discussão que é abordada neste ótimo novo filme de Matt Reeves.
Dez anos se passaram desde a revolta dos macacos que foram geneticamente alterados em São Francisco, pois foram usados para o teste de uma droga que acabou se tornando um vírus para os humanos. Esta epidemia, denominada: gripe símia, matou uma quantidade enorme de pessoas ao redor do planeta, apenas um pequeno grupo de imune a este mal conseguiu sobreviver, simultaneamente os primatas construíram sua sociedade, pois estão mais inteligentes e não são meros animais sem raciocínio lógico. Mas os seres humanos que restam em São Francisco estão sem energia e sua única esperança é uma usina há muito abandonada que pode salvar os seres humanos, o problema é que este local está no território dos macacos que vêm os humanos como ameaças. Cabe a um grupo pequeno de pessoas convencerem os macacos a deixaram entrar em suas terras, o resultado desta escolha acarreta em um destino decisivo para ambas as espécies.
Depois do excelente primeiro filme, Matt Reeves (dos discutíveis Cloverfield - Monstro e do remake americano Deixe-me Entrar (2010)), nos consagra mais uma vez com uma obra lindíssima e muito bem estudada, escrita por Rick Jaffa, Amanda Silver e Mark Bomback, seis mãos que tiveram trabalho em construir novo cenário e uma nova história tão convincente quanto o original. Apesar de eu achar que o primeiro filme é muito mais expositivo e bem melhor ritmado, este também coleciona coisas boas, mas também tem seus deslizes.
O elenco é um deles, os atores que interpretam humanos não tem tanto carisma quanto o elenco do filme anterior e nem tampouco tem uma profundidade maior em desenvolvimento, no início da projeção o espectador já sabe quem é “do bem” e quem não é, e preciso mencionar sobre o personagem de Kirk Acevedo, que vem a ser o babaca do filme, (fato que ele mesmo admite em cena) e como tal precisa fazer todas coisas que pessoas assim fazem neste tipo de filme, subestimar os adversário e por em risco a vida dos amigos. Já o elenco central composto por Jason Clarke, Keri Russell e Kodi Smit-McPhee não tiram grandes suspiros e não marcam cena algum com suas atuações, mas também não decepcionam, os atores trabalharam bem e receberam o salário. Mesmo assim é muito incômodo ver a falta de brilho em Gary Oldman que foi muito mal utilizado em cena, com um vilão muito caricato.
Porém é interessante ver que os personagens humanos se relacionam indiretamente com os interpretes de macacos, pois a vingança da interpretação Oldman, de um homem que perdeu a família pelo vírus que, supostamente, os macacos transmitiram, para muitos se compara com o espírito de ódio de Koba (digitalmente interpretado por Toby Kebbell), mas este último é muito mais individualista e violento, enquanto que Dreyfus (Gary) pensa, de maneira errada, em um bem comum e sente nas costas a responsabilidade de manter a raça humana viva. Por este motivo eu o comparo com Cesar (estupendamente criado pelo insubstituível Andy Serkis) que é o líder da nova era dos macacos e ele mais do que ninguém sabe o quão eles podem ser perigosos então desenvolve uma cadeia disciplinar para ensinar aos demais as questões éticas de sua sociedade, que não tolera homicídios entre os si; a diferença entre Dreyfus e Cesar é que o primeiro sente-se superior, pois o darwinismo diz que é assim; e que por meio da guerra que se consegue as coisas, o segundo tem a opinião que duas espécies tão violentas devem ficar separadas para que evitar maiores estragos para ambas, ou seja, sem guerra tudo se resolve. Nestas comparações Koba está para Carver(Acevedo), egoísta e violento, assim como Malcolm está para o filho de Cesar, cauteloso e indeciso em saber quem está certo.
Não me importa quem vai estar indicado ao Oscar 2015, se Andy Serkis não estiver entre eles Hollywood estará oficialmente em decadência; pois se Lupita Nyong'o consegue uma estatueta por aparecer doze minutos em cena, Serkis merece duas por seu desempenho de duas horas. Mas aí que mora o perigo, caro leitor, pois se todos cuidasse da sua própria vida tudo seria maravilhoso, mas não é assim que o mundo gira. É a reputação de um que gera e fama de muitos. Um humano matou um macaco, então todos são iguais a ele. Um macaco assassinou um humano, logo todos devem pagar. É um ou outro indivíduo que gera as grandes discussões, cabe a você saber a quem seguir.
Eu, certamente, estou me alongando em questões morais, mas é a partir delas que o filme é construído e de como o medo consome as pessoas a as faz diferente; como a superioridade corrói os valores de uma sociedade. Note no filme o que os personagens se tornam ao tocarem em armas de fogo. Em suma, e falando cinematograficamente, o roteiro se estabelece com muita frieza, não há espaço para o humor, pois mesmo quando ele se insinua é logo substituído por cenas de tensão; os roteiristas acertaram em cheio em não favorecer a nenhum lado, cabe ao espectador dizer o que é certo e o que não é. Os efeitos são belíssimos, por mais que grande parte dos primatas sejam chimpanzés é impossível o espectador se confundir, todos tem uma aparência única em suas feições. Palmas para a equipe de design sonoro, visual e de produção, pois é possível confundir animais de verdade com os representados em cena, se algum deles de fato era de carne e osso eu não sei distinguir qual era. O filme está em constante agitação, em nenhum momento é passado uma sensação de calma ou de serenidade, é como se estivessem sempre em perigo. Mas como disse antes, este novo trabalho é mais “teórico”, pois explica como é a sociedade dos macacos e rapidamente fala como viemos parar ali, pois o que passou, passou e isto é que estamos vivendo agora. Entretanto esse elemento se torna incômodo, já que o filme tem mais de duas horas e em certos momentos chega a ser tedioso, acredito que trinta minutos poderiam ter sido tirados se algumas sequências fossem mais rápidas. Mas grande parte disso é compensado pela ação, construída otimamente pela originalidade do diretor e sua equipe.
Planeta dos Macacos – O Confronto tem um roteiro redondinho e funciona muito mais com a mensagem que quer passar do que com aspectos de cinema, mas não desaponta aqueles que querem entretenimento, mas dessa vez vão ter com muito fundamento social. J.J. Abrams recentemente largou a direção da franquia Star Trek para se dedicar a Star Wars e como seu substituto ele apontou Reeves para assumir o trabalho. Confesso que não sou o maior apreciador de épicos espaciais, mas com certeza, se a indicação de Abrams se concretizar eu irei assistir o novo Star Trek e (por favor, produtores!) o novo Planeta dos Macacos com muito mais entusiasmo.
0 comentários:
Postar um comentário