Em 2007 o cineasta Daniel Ribeiro lançou seu primeiro curta
com o nome de Café com Leite que acabou sendo escolhido para ser exibido no
Festival de Berlim, com essa façanha o diretor conseguiu um financiamento para
outro projeto que foi lançado em 2010 com o nome “Eu Não Que Voltar Sozinho”
que também foi muito premiado e adorado pela crítica e público. O sucesso do
curta foi tanto que quase cinco anos depois de seu lançamento (tempo necessário
para o arrecadamento de materiais para a produção) o aguardado longa foi
finalmente filmado no primeiro semestre de 2013 e lançado no mesmo período de
2014 com o nome Hoje Eu Quero Voltar Sozinho. O resultado? É bom ver que o
longa teve a mesma qualidade que o curta.
Tal como no original, Leonardo (Guilherme Lobo) é um menino de 15 anos que nasceu cego, por esse motivo seus pais o protegem muito e o acabam sufocando, fazendo com que o menino nunca tenha a oportunidade de ser independente, como se não bastasse o rapaz sofre com o deboche dos colegas por nunca ter beijado ninguém. Por sua sorte ele pode se abrir contanto seus problemas para sua melhor amiga, Giovana (Tess Amorim). Entretanto com a chegada de Gabriel (Fábio Audi) na escola dos jovens as coisas começam a mudar, principalmente para Leonardo, que desenvolve um sentimento forte pelo novato.
Umas mudanças aqui e outras ali, mas a premissa é a mesma e o elenco também. É uma tarefa difícil falar de quem pertence a melhor atuação do núcleo principal, é fato que Fábio Audi é bem menos expressivo, mas seu esforço é digno e ele se saiu muito bem, já Tess Amorim possui um carisma estonteante e um humor que falta em todo o elenco, apesar de ser bem jovem ela tem um potencial muito maduro e não tem medo se expressar com suas feições e com seu corpo; entretanto a atuação de Guilherme Lobo é digna de todos os prêmios possíveis para o rapaz, pois representar um menino cego e homossexual é uma tarefa no mínimo desafiadora e por seus escassos 19 anos nota-se que o ator é um achado para o cinema contemporâneo. O elenco ainda é composto por Eucir de Souza e Selma Egrei, dois atores de com uma grande carreira, mas que quando postos junto ao elenco jovem não se vê muitas diferenças entre as atuações.
É curioso revelar as idades dos atores, pois o casal de meninos tem uma diferença considerável de idade (Fábio tem 26 anos), então é só fazer a contas e verá que ambos já tinham uma coragem e determinação desde o curta e não demonstraram nenhuma relutância em voltar a representar seus personagens. Na verdade este é um elemento que já foi abordado muito recentemente pelos protagonistas do excelente filme para a TV holandesa: “Jongens”, que no Brasil foi traduzido para “Garotos”.
A direção de Daniel Ribeiro merece palmas, além de ser seu primeiro longa ele acabou por conquistar importantes prêmios com ele, como o Prêmio Teddy do Festival de Berlim (prêmio dado aos filmes com temática homossexual) e o Melhor Filme Pela Crítica, além de outros no Festival de Guadalajara. Não era por menos, pois o roteiro escrito por ele pode arrancar lágrimas de muitos espectadores, além de um humor muito sutil, mas extremamente congruente e conciso. A direção de elenco é fenomenal e o posicionalmente de câmera é muito bonito. Na primeira cena temos uma câmera vista de cima focando nos atores, não tarda para um foco no rosto do protagonista no banho e mais de uma vez vemos a câmera em plano baixo com vozes e passos de pessoas sem que seus rostos sejam mostrados, além de um desfoque interessante entre os personagens para representar a cegueira de Leo. A trilha sonora é sutil e pouquíssima invasiva, graças a ela que os momentos mais bonitos são realizados e mergulham o espectador em um agrado musical.
Mas nem tudo funciona no filme, os cortes são problemáticos e estragam muitas cenas (como a dança de Leonardo e Gabriel, o banho de ambos e a tomada de masturbação), a edição é tão fragmentada que o momento gravado se torna muito superficial. Além disso, o vício dos ensaios tomou conta de muitos, pois os diálogos são quase coreografados (em especial as brigas entre Leonardo e seus pais). Também incomoda muito a insistência do roteiro na ideia de intercâmbio do protagonista, na busca de torna-lo independente (o que não faz sentido, já que essa viagem, logicamente, seria financiada pelos pais), fora o fato que esse assunto tem muito espaço na trama para não se resolver em momento algum, aliás, existe uma cena em especial em que 20 segundos de diálogo resolveriam o assunto. Mas não existe nada mais frustrante que o desfecho do filme, apesar de ser uma cena muito bonita ela não é necessária e não é coesa (o bullying dos colegas não afeta os personagens, porém os incomoda e é curioso que quando aparece um “motivo” para eles realmente debocharem o roteiro se transforma num poço de aceitação e igualdade por parte dos provocadores), para piorar tudo a cena da chegada de outro menino na sala somente para fazer par com a garota que ficou sem ninguém é ridícula e vergonhosa; se o filme tivesse sessenta segundos a menos ele seria lembrado como um dos filmes belos e tocantes que o Brasil já realizou, porém ele atribuiu um final digno de Malhação e nos faz pensar se alguém realmente leu aquilo antes de filmar.
Mas devemos admitir que algumas tomadas de diálogos são brilhantes, reparem que Leonardo, Giovana e Gabriel falam do fato de o primeiro nunca ter beijado, mas eles nunca dão a entender o sexo que o menino precisa gostar (“Porque fica todo o mundo querendo me controlar e ninguém quer que eu beije NINGUÉM”), é uma sacada sutil e que agrada por não seguir a ordem de “natural” de meninos devem gostar de meninas. Ponto também para as músicas do celular de Leo que remetem o seu gosto pelas pessoas que o telefonam.
Em suma Hoje Eu Quero Voltar Sozinho, apesar desse nome ruim (que antes de chamava “Todas as Coisas Mais Simples”, o que faz todo o sentido, pois se Leonardo fosse tratado como um adolescente comum sua vida seria muito mais simples) o filme é bom e merece ser visto mais de uma vez, pois deixa aquela pena da obra ter chegado ao fim e junto com aquela sensação de imaginar o que será dos personagens, lastimavelmente essa ideia só ficará nas nossas mentes.
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