quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Crítica - A Garota Dinamarquesa


Por Luis Ribeiro

Em pleno 2016 filmes como este em questão ainda são vistos como obras ousadas, não que isto signifique um demérito da trama ou da personagem, ou mesmo do movimento que ela pode representar ainda nos dias atuais, mas é que mesmo depois de tantos anos de evolução a humanidade ainda não aprendeu a se comportar de maneira correta quanto às orientações de pessoas iguais entre si, porém com outras preferências. Digo isso porque no ano em que estamos não deveríamos assistir a filmes que discutem diferenças de gêneros como algo chocante e todo o trabalho com esta temática tem o potencial de trazer essa esperança para as pessoas, mas infelizmente A Garota Dinamarquesa é péssimo representante de uma obra ambiciosa.

O problema tem nome e se chama Tom Hooper (diretor do horrível O Discurso do Rei e do ótimo Os Miseráveis, de 2012), aqui ele comanda os acontecimento vividos por Lili Elbe (Eddie Redmayne), que nasceu Einar Wegener, um pintor dinamarquês muito renomado mas teve conflitos com sua identidade, pois seu corpo não refletia aquilo que sua mente queria. Sua esposa, Gerda (Alicia Vikander), também pintora e que usa esse então fetiche do marido para pintar seus quadros, percebe a seriedade do caso e o ajuda a conseguir realizar seu sonho, embora fique temerosa em estar ajudando também seu marido a ir embora.

Temos em mãos uma história valiosa de uma das primeiras pessoas a se submeter a uma cirurgia de mudança de gênero, isso nos anos 20. Para um tema tão delicado é fundamental que os realizadores tenham um conhecimento social e histórico muito grande, algo que ficou claro que não possuem. Tanto o diretor quanto a roteirista, Lucinda Coxon, não possuem o menor tato para a história.

O diretor britânico prova mais um vez que não tem grandes habilidades em dirigir projetos sobre a vida de uma pessoa que realmente existiu, aqui ele é completamente frio no comando da história. A trama, por si só, seria inevitavelmente trágica, mas o Hooper entrega o que faz de melhor, transformá-la em algo melodramático e monótono. Provando o que digo é a própria cena de abertura que traz uma inconfundível sinfonia, um cinéfilo com mais carreira não precisará procurar na ficha técnica quem compôs a trilha para saber que é um trabalho de Alexandre Desplat. O músico tem obras lindas em seu currículo (como no recente O Grande Hotel Budapeste) e outras nem tanto (Philomena), aqui ele volta a ser melancólico e invasivo.

Nota-se, em vários momento da empreitada, que o diretor não foi uma boa escolha; não há sensibilidade, não há paixão, não há sentimento. Lili nasce subitamente quando o protagonista acaricia um tecido leve e parece ter um desejo repentino de se tornar uma mulher, mas o diretor e roteirista, aparentemente, não sabem que um homem vestir-se de mulher não é um indício de questões sobre identidade de gênero. Claro que pode ser o princípio de tudo, mas Hooper, durante duas horas, nunca convence o espectador que Lili sempre existiu, na verdade, ele aparenta se contentar em querer vestir Einar com vestidos o tempo todo e chama isso de transexualidade.

Em muito, A Garota Dinamarquesa lembra A Teoria de Tudo (também protagonizado por Redmayne) pois embora a história seja do marido é a sua esposa que se destaca como real estrela da obra e isso Vikander faz muito bem, vivendo uma mulher bastante liberal para a época, não tendo vergonha de fazer piadas de teor adulto, pintar telas com pessoas nuas, ter um apetite sexual grande e sem pudores em expor seu corpo de forma natural. Lendo isso até parece mais uma alusão a utopia da igualdade, onde uma mulher com essas características consegue ser imensamente talentosa e sustentar seu marido em crise, mas logo depois da metade do filme a trama volta a ser apelativa e assim que Gerda percebe que nunca terá seu marido de volta existe um homem de prontidão para dar suporte a moça inconsolável. Vikander é quem realmente brilha no trabalho, ela vai de apaixonada a desiludida, já que sempre teve seu marido como seu amante e inspiração para seu projeto e de repente ela se vê como única pessoa que o compreende e acredita que seu desejo seja verdadeiro, não meramente uma fantasia sexual, mas algo que o caracteriza. Enquanto que Redmayne está novamente muito competente, apesar de basear muito sua atuação em trejeitos femininos, exceto em cenas (que não são muitas) que lhe forçam uma desempenho dramático mais avançado e nisso o ator é primoroso.

E Danny Cohen, por vezes, até consegue trazer avidez e graça ao trabalho ao fotografar belas cenas de frente para o espelho, em portas de vidro e reflexos de pessoas, trazendo um pouco de integridade ao trabalho. Entretanto isso pode passar despercebido quando contrastado com os enquadramentos estranhíssimos que Hooper gosta de usar, alterando com frequência as lentes das câmeras e fazendo com que a montagem fique brusca e tirando o espectador do imersão ao chamar atenção para estes elementos técnicos.

E se Cohen é sutil, mas correto, em seu trabalho não se dão os mesmo atributos a Eve Stewart com seu belo trabalho de recriação de época e até simbólico, pois repare como é vazio e cinza o apartamento dos pintores (aparentemente ricos) na Dinamarca, enquanto que em Paris é um local muito rico e refinado, como se o filme mostrasse que é na França que Lili pode de fato existir. Tudo complementado com o sempre ótimo Paco Delgado no figurino, especialista em trazer elegância e vivacidade, em especial, aos trajes femininos e em vestir a protagonista em misto de vestuário designados a homens e mulheres.

The Danish Girl (no original) é um filme que demanda amadurecimento por seus realizadores, mas certamente ira atingir uma parcela significativa de público, espero que os espectadores que confiram esta obra saiam da sala de cinema minimamente conscientes de quem foi Lili Elbe e sua importância para o movimento LGBT, pois qualquer parcela de melhoria que este filme possa oferecer, mesmo que mínimo, é proveitosa para melhorar a causa das pessoas que lutam pela igualdade, porque um cunho o social forte o filme ficou devendo.
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