O ano é 2001 e com a troca do editor chefe algumas atividades irão mudar no jornal O Globo, de Boston. É assim que a equipe Spotlight, um grupo de jornalistas que passa meses, até um ano, estudando um evento antes de publicar qualquer coisa sobre ele, tem em mãos a investigação de um caso envolvendo padres que molestaram crianças na cidade, algo que já tinha sido mencionado nas páginas deste jornal, mas ninguém deu atenção alguma até então.
É importante saber que estamos em Boston, uma cidade onde o cristianismo é tão influente nas decisões governamentais quanto no Vaticano, e isso pode ser um choque para o espectador que não está familiarizado com a cultura local dos Estados Unidos e perceber que embora a Idade Média já tenha sido encerrada há séculos a Igreja ainda possui imenso poder nas decisões de Estado e na seleção de manifestos.
Spotlight, em meio a temporada de premiação, não ameniza de forma alguma o impacto que a notícia de tal abuso que os sacerdotes infligiram a crianças, é com certa aflição que assistimos a personagem de Rachel McAdams conversando com uma das vítimas, já adulta, e pedindo para não usar eufemismo para descrever o abuso e sim o que realmente aconteceu. Causando comoção em ter contato com tal história.
A direção e roteiro – junto com Josh Singer – é de Tom McCarthy (sim, o mesmo de Trocando os Pés), o cineasta é prudente em comandar uma história que facilmente poderia soar documental ou artificial demais pelo tema, mas ele permeia entre a polêmica e o correto em comandar uma trama sem pudores e por trazer o Jornalismo puro da forma como ele devia ser, mas não como é realmente. O diretor tem total comando do ritmo e soube dosar as reviravoltas, lógico que aqui e ali pode soar conveniente demais certas coincidências, entretanto, McCarthy ainda é seguro do que está propondo, tanto é que insere diversas vezes nos diálogos que os jornalistas irão “Processar a Igreja” e que “O problema não os padres, mas o sistema que os encobre”. Assim o filme evolui para uma investigação digna de um suspense da mais alta categoria, pois não estamos diante de um assassino ou psicopata, é muito pior, é a proteção de criminosos tão perigosos quanto.
O filme ainda acerta em escalar atores menos conhecido para a interpretação das vítimas de abuso, já que, como o roteiro aponta, não havia nenhuma preferência quanto a aparência dos assediados, eles eram escolhido por serem psicologicamente sensíveis. Um menino órfão de um pai suicida e uma mão esquizofrênica, o jovem que já sabia ser homossexual aos 12 anos e o garoto extremamente devoto a Deus que pensa estar servindo a Ele quando satisfaz aa vontades do padre da paróquia. E diga-se de passagem , está última história possui um monólogo tão verdadeiro aos católicos que somente por isso já merece algum prêmio pelo roteiro.
Em contraponto, o elenco central é estelar e inspiradíssimo. McAdams faz uma moça não só muito convicta de sua profissão como também dedica em querer ajudar as pessoas que sofreram por isso e trazer a tona a verdade, e isso custa-lhe uma vida acompanhando a avó nas missas por não conseguir mais fingir que na Igreja tudo é puro e livre dos pecados. Enquanto que Mark Ruffalo (também não sei como ele consegue fazer tantos filmes) interpreta o mais exausto dos profissionais, tão dedico em seu trabalho que não se alimenta direito, mora em um apartamento pouco higiênico e várias vezes recebe muitas respostas agressivas e mal educadas, mas permanece sereno desde que a verdade seja dita e que as pessoas sejam avisadas do que precisam. Brian d'Arcy James representa o medo de todos os pais ou responsáveis e por está tão a par dos caso sabe que qualquer criança, por sua ingenuidade, pode estar propícia receber esses abusos. E Michael Keaton prova que está de volta, chefiando a equipe dos jornalistas, tão dedicado quanto os demais, mas temeroso pelo que estão enfrentando, sua expressão amarga mostra a dificuldade de ser jornalista e quantos amigos precisa perder para alcançar o que precisa.
A tamanha dificuldade em fraudar um sistema tão corrompido pelas aparências da Igreja é o foco do enredo, o choque para quem assisti é algo inevitável, isso porque o roteiro ainda é sutil em insinuar a depressão das vítimas que pela vergonha de terem sofrido abusos acabam por se drogar, serem agressivas ou tentarem suicídios, tudo por estarem marcados pelo resto da vida e lutando para esquecerem que isso um dia aconteceu. Mas alerta que muito embora isso tenha se passado há décadas, nada definitivamente mudou.
Spotlight é cruel em não poupar artifícios para chocar o espectador, pois caso fizesse o contrário estaria compactuando com o sistema que o filme está indo contra. Sistema esse que, certamente, ainda permeia entre as sociedades modernas. Independente da fé que cria ou ao Deus que serve é importante ressaltar, fazendo minhas algumas palavras do filme, que não são algumas maçãs podres, é muito mais do que isso e encobertar estes crimes para manter as aparências da integridade religiosa é tão ruim quanto praticar esses atos.
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