segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Crítica - 007 Contra Spectre


Por Luis Ribeiro

Em 23 filmes da franquia, foram poucos aqueles que conseguiram trazer integridade ao projeto do espião a serviço da Rainha, falo isso tanto quando me refiro aos trabalhos de diretores e roteiristas que foram responsáveis pela feitura dos projetos, quanto aos atores que tiveram a chance de dar vida ao espião. Em ambos os aspectos, a última geração foi a que mais se destacou no quesito veracidade, viabilizando algo concreto para o espectador e mantendo a identidade de Bond em todos os projetos. Portanto, dê-se o mérito devido a Daniel Craig, que brilhou em cada cena que interpretou Bond, sendo o melhor de todos até hoje. Aqui o que o que foi abordado é o passado conturbado do agente e mais sua personalidade como ser humano, enquanto que Skyfall esta temática foi explorado com perfeição, é em Spectre que encontramos os furos do roteiro em manter esta sequência meramente cabível.

Spectre não é uma tragédia do gênero (não como o pavoroso Quantum of Solace, um dos piores ao longo de 50 anos), mas se transforma em algo muito menos interessante quando comparado com seus antecessores, e soa ainda mais triste em sabermos que este será o último filme estrelado por Craig e comandado por Sam Mendes.

Mendes, que por sinal, ainda se mostrou um diretor competente ao realizar um filme com tanta magnitude. E seu trabalho magistral em Skyfall deve ser ovacionado, o mesmo não se repete na sequência. Isso porque o cineasta peca em trazer algo novo para o projeto. As cenas de ação continuam muito bem orquestradas e superiores a grande maioria vista atualmente, mas não chegam nem perto daquelas feitas no filme anterior. O espectador vai assistir a um filme de mais de duas horas sem que nada de novo lhe seja oferecido, parecendo, certamente, que aquilo já foi visto várias vezes.

E mesmo sendo aberto com uma cena deslumbrante de plano sequência, em meio ao Dia dos Mortos, no México, onde a câmera acompanha o heróis por meio a multidão (com uma caracterização do cenógrafo Dennis Gassner e dos diretores de arte Andrew Bennett e Mark Harris que merece ser aplaudida em pé), dentro de prédios, encima de terraços e atravessando janelas, a primeira cena ainda pode soar presunçosa e até um pouco exagerada para os mais exigentes; ainda mais quando procedida pela abertura que reuni os vilões de todos os filmes anteriores da geração, de fundo a canção “Writing's On The Wall”, nem de longe primorosa, mas não decepcionante.

Hoyte Van Hoytema é quem mais se destaca na equipe técnica, não só pro fotografar lindamente os cenários que os personagens visitam, mas por compor uma apresentação do vilão como um tom enigmático e que referencia o perigo, pois o silêncio que toma conta da cena é de uma tensão absoluta, poucos pensariam em uma estratégia tão elegante e tão comum para inserir em uma das tomadas chave do projeto.

E se Mendes não trouxe inovação, tampouco grandeza ao projeto, o mesmo diz do roteirista chefe John Logan (auxiliado por Neal Purvis, Robert Wade e Jez Butterworth) em apostar em elementos novelescos ao escrever o roteiro, uma vez que a inveja do irmão biológico para o irmão adotado é considerado algo minimamente interessante para originar um roteiro bilionário, isso sem contar a morte forjada de um dos personagens somente para alimentar o drama e os clichês.

“Clichê”, inclusive, é uma palavra que define perfeitamente o personagem de Christoph Waltz, que, novamente, surge prosaico e cheio de maniqueísmo para compor seus típicos vilões, tem seu talento quase que anulado por ser um antagonista que não oferece nenhuma relevância ou perigo até o último ato da trama. E fecha sua participação da forma mais caricata possível, algo envolvendo seu rosto que remete a qualquer vilão dos desenhos animados das últimas décadas.

Mas reforço de que Craig rouba a cena, isso vem sendo provado desde que arrumou suas abotoaduras enquanto um trem explodia a poucos metros de distância. Embora aqui, nada de novo e de desafiador tenha lhe sido oferecido. Bond, agora, precisa lidar com os fantasmas do passado, inclusive seus amores. Esta é a deixa Léa Seydoux na produção, muito bem em sua performance, mesmo que seja apenas para tomar o lugar de Eva Green que foi deixado após sua morte no excepcional Cassino Royale.

E de novo o roteiro se torna problemático ao quando vemos que um tempo considerável do filme é dedicado aos problemas da organização comandada por “M” (o sempre ótimo Ralph Fiennes), não que seja desinteressante, mas poderia ser facilmente retirada que nenhuma grande perda seria sentida. Além de inserir um capanga sem identidade que não tem motivações próprias.

Muito embora Spectre soe formulaico e funcione como o fim de uma grande quadrilogia, não se trata de um filme ruim, irá agradar até os fãs mais devotos da franquia, mas é uma pena que tenha sido encerrada desta forma, basta torcer para que os novos filmes que virão consigam manter acesa a chama reavivada da melhor maneira do agente secreto mais famoso do cinema.
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